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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2030

O navio negreiro - Castro Alves

Parte IV

Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando geme e ri...

No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da roda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás! ...

A terceira fase romântica é marcada por uma poesia de acentuado compromisso social. Denominada poesia condoreira, tem como símbolo o condor, cujo sentido é a liberdade de expressão e de linguagem. Victor Hugo foi o poeta francês que mais influenciou esta geração cuja poesia entra num processo de universalização, isto é, procura expressar a realidade de um grupo social.

Assim, seja por imitação dos padrões europeus, seja por simples entusiasmo romântico, o fato é que a poesia brasileira de caráter social restaurou sua identidade com o povo, anunciando o novo na vida nacional. Trata-se, portanto, de uma época de transição em que surge uma literatura preocupada com a denúncia social.

Castro Alves foi o mais importante representante da poesia condoreira no Brasil. Seus poemas sociais tratam de questões como a crença no progresso e na educação como forma de aprimoramento social, da República e, principalmente, o fim da escravidão negra. O tom vigoroso, a ressonância de seus versos, a indignação e a expressividade são elementos que consagraram o “poeta dos escravos”.


Condoreiro, a sua poesia serviu de instrumento de luta contra a escravidão, pois o seu tom de elevação era propício para récitas em locais públicos: praças, salões de leitura etc. A eloquência dos versos está evidenciada em poemas que denunciavam a vida miserável dos escravos. O poeta aproxima-se da realidade social, embora conserve ainda o idealismo e o subjetivismo românticos.


O navio negreiro” (ou “Tragédia no mar”), inserido na obra Os Escravos, é um dos poemas mais famosos de Castro Alves. Quando foi composto, em 1868, o tráfico de escravos já estava proibido no país; contudo, a escravidão e seus efeitos persistiram. Para denunciar a condição miserável e desumana dos escravos, o poeta valeu-se do drama dos negros em sua travessia da África para o Brasil.

Dividido em seis partes ( com alternância métrica variada para obter o efeito rítmico desejado em cada situação retratada), é apresentado da seguinte forma: na primeira parte, o eu lírico limita-se a descrever a atmosfera calma que sugere beleza e tranquilidade; na segunda parte, descreve marinheiros de várias nacionalidades, caracterizando-os como valentes, nobres e corajosos; na terceira parte, o eu lírico introduz a verdadeira intenção do poema – a denúncia do tráfico de escravos, através de expressões indignadas.


Na quarta parte, o eu lírico passa a descrever, com detalhes, os horrores e castigos de um navio de escravos.

Na quinta parte, ele invoca os elementos da natureza para que destruam o navio e acabem com os horrores que mancham a beleza do mar, destacando a vida livre dos negros na África e a escravidão a que são reduzidos no navio.

Finalmente, na sexta parte, ele indica a nacionalidade (brasileira), invocando os heróis do Novo Mundo, para que eles, por terem aberto novos horizontes, possam acabar com a infâmia da escravidão.



Comentários sobre o poema (parte IV)

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O texto apresentado(a parte IV de “O navio negreiro”) é a descrição do que se via no interior de um navio negreiro. Note a capacidade de Castro Alves em nos fazer “ver” a cena, como se estivéssemos em uma montagem teatral: o tombadilho do navio transformado em um palco infernal.


Os versos têm dez sílabas métricas que se alternam com versos de seis sílabas métricas; as sílabas tônicas são construídas pela sexta e a décima; o esquema das rimas é aabccb; todas as estrofes transcritas são compostas de seis versos.

O rompimento do equilíbrio métrico ( os versos são heterométricos) é uma conseqüência do quadro horroroso configurado. A descrição é crua e a cena revoltante. A repetição da terceira estrofe no final dá-lhe uma natureza de refrão.

Outro dado interessante é o emprego que o poeta faz da linguagem, trabalhando ora os adjetivos para descrever com mais expressividade o cenário e o elemento humano, ora os verbos para reforçar o dinamismo do "balé". A grandiloqüência vem com toda com toda força, onde o exagero cumpre, sem dúvida, a função de emocionar( passa a focalizar o drama que é o fulcro do poema).

Logo no início, o eu lírico compara o navio negreiro a um “sonho dantesco”. Com essa expressão, faz referência às terríveis cenas descritas pelo escritor italiano Dante Alighieri, em “O inferno”, parte da obra A divina comédia. Horroriza-se com a situação infame e vil dos negros no tombadilho( as correntes, o chicote, a multidão, o sofrimento, a “dança”macabra). O ritmo nos é dado por algumas palavras especiais de acentuada sonoridade(“tinir”, “estalar”, por exemplo).


Repare na imagem das “Negras mulheres”: não há mais leite para alimentar as “magras crianças”(somente sangue) e, por citar as “tetas”, faz-se analogia a um mero animal. Ao descrever as moças nuas (condição de ausência de proteção) espantadas, arrastadas em meio à multidão de negros esquálidos (magros), o eu lírico apela para que o leitor sinta piedade pelo sofrimento do ser humano (piedade cristã). As reticências conduzem à reflexão, à intensidade da dramaticidade diante da situação condenável, horrenda.

Do ponto de vista cromático, duas cores são postas em contraste na primeira e segunda estrofes. Estas cores são o vermelho e o preto, que compõem o dramático painel em que o sangue dos escravos contrasta com o negro de sua pele.


Há reincidente uso de imagens que sugerem desespero, sofrimento e dor. A exposição do velho arquejando(desumanização), acompanhado do chicote ( a serpente que “faz doudas espirais”), assemelha-se a de um animal, que acompanha a “orquestra”( os marinheiros aparecem representados pela orquestra que comanda a dança) sem reclamar... E essa “tragédia” se completa quando essa “multidão faminta”, que sofre sem cessar, geme de dor, chora e delira... Enfraquecidos, eles enlouquecem.


A cena é de uma crueldade atroz, já que, para se divertir, os marinheiros surram os negros. Repare no efeito expressivo da antítese que contrapõe o céu puro sobre o mar e a figura do capitão (regente da orquestra) cercado de fumaça. Ela estabelece o contraste entre a natureza como obra divina e a escravidão como obra demoníaca.


Depois de apresentar o navio como uma visão dantesca, uma figura diabólica (que também aparece no final da obra “A divina comédia”) é utilizada para o desfecho da última estrofe, finalizando a quarta parte do poema. O eu lírico ressalta o prazer (novamente exposto pelo verbo “rir”) daqueles que torturam (uma orquestra irônica, estridente)em oposição ao sofrimento dos escravos (um trágico balé dançado) para deleite de Satanás.

Observe algumas figuras de linguagem em destaque no poema:

Metáfora
“Era um sonho dantesco” (referência às cenas horríveis descritas por de Dante Alighieri no “Inferno” de sua Divina Comédia),
“ a serpente faz doudas espirais...”( a serpente seria o chicote usado pelos marinheiros),
“E ri-se a orquestra irônica”( a expressão caracteriza os marinheiros que comandam a dança).

Hipérbato
“Que das luzernas avermelha o brilho”( a ordem direta seria: Que o brilho das luzenas avermelha).

Comparação
“Legiões de homens negros como a noite”.

Hipérbole
“No turbilhão de espectros arrastadas”,
“sangue a se banhar”

Metonímia
“O chicote estala”.


A poesia abolicionista de Castro Alves demonstra que ele aprendeu muito bem o que ensinava o “mestre” Victor Hugo, ou seja, a possibilidade de registrar artisticamente não apenas o belo, mas, também, o grotesco. Nesse sentido, o condor francês lega ao condor brasileiro a audácia das imagens, no empenho da luta.


“O navio negreiro” – considerado seu melhor trabalho nesse campo – ilustra muito bem como o poeta tratava o tema: a escravidão negra era vista como uma instituição inadmissível num mundo que caminhava para um futuro melhor, em que o progresso tecnológico daria ao homem condições mais dignas de existência.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Uso dos porquês: porque, porquê, por que ou por quê

Por que, Por quê, Porque ou Porquê? Uso dos porquês - Brasil Escola

Come, meu filho

— O mundo parece chato mas eu sei que não é.

—  . . .

— Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo. Eu sei que é redondo, mas para mim é chato, mas Ronaldo só sabe que o mundo é redondo, para ele não parece chato.

 —  . . .

 — Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim. Mas Ronaldo nunca saiu do Brasil e pode pensar que só aqui é que o céu é lá em cima, que nos outros lugares não é chato, que só é chato no Brasil, que nos outros lugares que ele não viu vai arredondando. Quando dizem para ele, é só acreditar, pra ele nada precisa parecer. Você prefere prato fundo ou prato chato, mamãe?

 — Chat… — raso, quer dizer.

 — Eu também. No fundo, parece que cabe mais, mas é só para o fundo, no chato cabe para os lados e a gente vê logo tudo o que tem. Pepino não parece inreal?

 — Irreal.

 — Por que você acha?

— Se diz assim. 

 Não, por que é que você também achou que pepino parece inreal? Eu também. A gente olha e vê um pouco do outro lado, é cheio de desenho bem igual, é frio na boca, faz barulho de um pouco de vidro quando se mastiga. Você não acha que pepino parece inventado?

 — Parece.

 — Onde foi inventado feijão com arroz?

 — Aqui.

 — Ou no árabe, igual que Pedrinho disse de outra coisa?

 — Aqui.

— Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor. Para você carne tem gosto de carne?

 — Às vezes.

 — Duvido! Só quero ver: da carne pendurada no açougue?!

 — Não.

 — E nem da carne que a gente fala. Não tem gosto de quando você diz que carne tem vitamina.

 — Não fala tanto, come.

 — Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?

 — Adivinhou. Come, Paulinho.

 — Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.

 

(LISPECTOR, Clarice.Para não esquecer. São Paulo, Círculo do livro, 1988. p.122-124)




Problemas gerais da língua culta

Por que, por quê, porque, porquê

No texto de abertura do estudo, surgem as formas "por que" e "porque":

"Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima..."

A forma por que é, no caso, a sequencia  de uma preposição (por) e um pronome interrogativo (que). Em termos práticos, observe que é uma expressão equivalente a por qual razão, por qual motivo.

Veja outros casos  em que ela ocorre:

Por que você acha?"

— Não, por que é que você achou que pepino parece inreal?"

Não é fácil saber por que a situação persiste em não melhorar.

Não sei por que você acha isso.

— Não deixe de ler a matéria intitulada:" Por que os corruptos não vão para a cadeia". É impressionante!

Caso surja no final de uma frase, imediatamente antes de um ponto (final, de interrogação, de exclamação) ou reticências, a sequencia  deve ser grafada por quê , pois , devido à posição na frase, o monossílabo que passa a ser tônico, devendo ser acentuado:

— Ainda não terminou? Por quê?
— Você tem coragem de perguntar  por quê?
—  Claro. Por quê?
—  Não sei por quê!

Há casos em que por que representa a sequência preposição + pronome relativo, equivalendo a pelo qual  (ou alguma de suas flexões pela qual, pelos quais, pelas quais). Em outros contextos por que equivale a para que. Observe:

Estas são as reivindicações por que estamos lutando.
O túnel  por que deveríamos passar desabou ontem.
Lutamos por que um dia este país seja melhor.

Já a forma porque que surge em "Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, ..."é uma conjunção, equivalendo a pois, já que, uma vez que, como. Observe o seu emprego em outros exemplos:

"— Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim."

"— Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor."

A situação agravou-se porque muita gente se omitiu.

— Sei que há algo errado porque ninguém apareceu até agora.

— Você continua implicando comigo! É porque  eu não abro mão das minhas ideias.

Porque também pode indicar finalidade, equivalendo a para que, a fim de.Trata-se de um uso pouco frequente na língua atual:
 
—Não julgues porque não te julguem.

A forma porquê representa um substantivo. Significa causa, razão, motivo e normalmente surge acompanhada de palavra determinante (artigo, por exemplo). Como é um substantivo, pode ser pluralizado sem nenhum problema:

— Dê-me ao menos um porquê para sua atitude.

Não é fácil encontrar o porquê de toda essa confusão.

— Creio que os verdadeiros porquês mais uma vez não vieram à luz.
 






















quinta-feira, 9 de julho de 2020

Cinco Horas - Mário de Sá-Carneiro

Cinco Horas - Poema de Mário de Sá-Carneiro


Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.


Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 1890 — Paris, 1916)

Estudou em Paris, onde se matriculou na Faculdade de Direito. Foi muito amigo de Fernando Pessoa e com este fundou a revista Orpheu (1915). Espírito neurótico, profundamente sensível, suicidou-se  em um dos quartos do Hotel Nice, na França. Poderia ter produzido mais. O que deixou dá a dimensão de um dos grandes poetas da literatura de Portugal.

 Considerações gerais

Sua poesia contém as inovações formais do futurismo, porém mescladas harmoniosamente com o clima terno das velhas redondilhas lusitanas, à maneira dos poemas de "saudade", sentimento tão fundamental na cultura portuguesa. Mário de Sá-Carneiro não tem o impulso intelectual que caracteriza a inteligência de seu colega Fernando Pessoa, mas nem por isso deixa de ser um poeta de magnífica autoconsciência, especialmente autoconsciência carregada de certo humor triste, de quem se perdeu dentro de si mesmo. Na prosa, mais precisamente nos contos, Mário de Sá-Carneiro cria situações de absurdo com a identidade dos personagens, aproximando-se bastante da representação surrealista de investigação mágica do mundo.

Obras

Poesia: Dispersão (1912), Indícios de Ouro (1937, publicação póstuma);
Novelas: Princípio (1912), A Confissão de Lúcio (1914), Céu em Fogo (1915),
Teatro: A Amizade (1912);
Correspondência: Carta a Fernando Pessoa (1958-59, publicação póstuma).

Atividade proposta

1) 

Aponte o aspecto mais evidente do modernismo que constatamos ao longo do poema. Em outros termos, que aspecto temático é obviamente uma novidade modernista, dentro do poema?

2)  

Partamos da hipótese de que o poema lido tenha traços passadistas, além de modernistas. Quais seriam esses traços e a que outra escola literária estariam vinculados?







Figuras de linguagem utilizadas no Barroco

35 Figuras de Linguagem: o guia COMPLETO com as principais figuras

Quando se utiliza de maneira não-convencional a linguagem, explorando-se os aspectos conotativos das palavras e novas maneiras de construir frases, estão sendo criadas as figuras de linguagem, também chamadas figuras de estilo.

De seus dentes pálidos surgiu, enfim, um sorriso.
A característica "pálidos"atribuída a "dentes" pode sugerir dentes amarelados ou sorriso triste, tímido, ou ambas as ideias.

"O mar passa saborosamente
A língua na areia." (Duardo Dusek)
O "mar"é personificado, tem características de seres vivos.
Na personificação do "mar", "língua" é usada em lugar de onda.

"Meu pinho toca forte 
Que é pra todo mundo acordar." (Chico Buarque de Holanda)
A palavra "pinho" é usada no lugar de violão.

"Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco." (Gonçalves Dias)
Construção com os termos da frase na ordem inversa:
A flor do tamarindo abriu-se há pouco. 
Obs.: na ordem direta, teríamos: “Há pouco a flor do tamarindo abriu-se.”

Em suma: Figuras de linguagem são certos recursos não-convencionais que o emissor cria para dar maior expressividade a sua mensagem.
Obs.: Esses recursos de linguagem acabam por caracterizar o estilo do escritor ou so falante que os emprega com frequencia.


A linguagem figurada ocorre quando se quer dar expressividade à mensagem através de:

☻ recursos semânticos, isto é, trabalhando a palavra do ponto de vista DE SEU SIGNIFICADO.
A encomenda precisa ser entregue rapidamente. Vá voando levá-la (Vá o mais rápido que puder!)

☻  recursos fonéticos, destacando os sons das palavras.
Falar em progresso urbano é sentir o ruído da britadeira trepidando na minha cabeça e na rua.
(A repetição dos sons representados pela letra "r" sugere o ruído constante dos grandes centros urbanos.)

☻ recursos sintáticos, trabalhando a construção da frase.
"No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!" (Olavo Bilac)
(A repetição do conectivo "e" intensifica a ideia de dedicação ao trabalho.)

Em função dessas ocorrências, há figuras semânticas, figuras fonéticas e figuras sintáticas.

Definição e exemplos das figuras de linguagem usadas no Barroco

Todo o trabalho literário do Barroco estava centrado no uso elaborado dos recursos da língua. Para produzir imagens inesperadas e conciliar os opostos, os autores do período exploravam os jogos de palavras e várias figuras de linguagem, entre as quais estão:

Metáfora

É o emprego de um termo com significado de outro em vista de uma relação de semelhança entre ambos. É uma comparação subentendida (um termo adquire o sentido de outro por afinidade de característica).

“Seus dois sóis me contemplavam”, “As rugas da terra.”: trata-se de aproximações de ordem subjetiva em que o sentido original está transmutado, guardando suas características principais em ordem simbólica. No caso do primeiro, “sóis” é uma metáfora para olhos, e a característica que os aproxima é o formato circular e o brilho intenso.

Oh! Que saudades que tenho/Da aurora da minha vida. (Casimiro de Abreu)
O autor compara “aurora” ao início da vida dele.

Estas altas árvores/ são umas harpas verdes com cordas de chuva/ que tange o vento. (Cecília Meireles)
Ocorre uma comparação mental entre as árvores e o instrumento musical. As duas produzem sons.

Outros exemplos: 
"O Brasil é novo, é um país pivete." (Abel Silva)

"Tinha a alma dos sonhos povoada." (Olavo Bilac)

"Não sei que nuvem trago no meu peito
Que tudo quanto vejo me entristece..." (Alexandre de Gusmão)


Comparação

É a aproximação de dois termos entre os quais existe alguma relação de semelhança, como na metáfora. A comparação, porém, é feita por meio de um conectivo e busca realçar determinada qualidade do primeiro termo.

"A minha filha é como um anjo". Este exemplo expressa a comparação feita por uma mãe, elogiando algumas características que tornam a sua filha parecida com um anjo.

"Os olhos dela eram como o sol". Nesse sentido, usa-se a palavra "olhos" em analogia ao "sol" para dizer que a pessoa em questão tem olhos belos.

"E há poeta que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como carpinteiro nas tábuas!..." (Alberto Caeiro)

A chuva caia como lágrimas de um céu entristecido.

Observação:
A comparação assemelha-se à metáfora, que não é mais que uma comparação não assumida, para acentuar a identidade poética entre as duas entidades comparadas.

Lendo a expressão "Os teus olhos são como lagos gélidos" existe uma comparação explícita denotada pelo conectivo "como" (ou outro elemento comparativo: feito, tal qual, que nem, igual a,…). Contudo, se dissermos, "Os teus olhos são lagos gélidos", passamos a ter uma metáfora que passa a estabelecer uma relação de identidade poética em vez da mais prosaica comparação que mantém os dois objetos em universos distintos.

Metáfora: Aquele atleta é um touro.
Comparação: Aquele atleta é forte como um touro.



Hipérbole

Hipérbole é uma figura de linguagem caracterizada pelo exagero. A palavra tem origem do termo grego “hiperbolé”, que é resultado da junção de duas palavras “hiper” (além/ por cima/ sobre/ por cima/ além) + “bole” (lançar/ atirar), que traduzindo ficaria algo como “atirar para cima” ou “lançar além”, que também representa o sentido de “excesso” ou “exagero”.A hipérbole geralmente é utilizada para ressaltar algo, para dar ênfase ou para conferir ao texto uma maior expressividade. 

Romperam-se enfim as cataratas do céu
(Padre Antônio Vieira) 

“Rios te correrão dos olhos, se chorares (…)” (Olavo Bilac)

“Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses” (Caetano Veloso)

“Pela lente do amor
Vejo tudo crescer
Vejo a vida mil vezes melhor”. (Gilberto Gil)


Prosopopeia (personificação)

Prosopopeia (ou personificação) significa atribuir a seres inanimados (sem vida) características de seres animados ou atribuir características humanas a seres irracionais.


Prosopopeia é uma figura de linguagem usada para tornar mais dramática a comunicação. 

Encontramos exemplos de prosopopeia nos três versos abaixo:

“O mar passa saborosamente a língua na areia

Que bem debochada, cínica que é

Permite deleitada esses abusos do mar”

O trecho, retirado da canção Folia no Matagal, de Eduardo Dusek, encontramos alguns exemplos de prosopopeia. O mar, ser inanimado, passa a língua na areia de maneira saborosa. O mar não tem língua, não pode passá-la de maneira saborosa em lugar algum. A areia, por sua vez, também inanimada, não pode ser debochada, cínica ou estar deleitada. Todas essas são características humanas.

La fora, no jardim que o luar acaricia, um repuxo apunhala a alma da solidão.” (Olegário Mariano) 

Hoje a cobiça assentou-se no lugar da equidade.” (Alexandre Herculano)

"Ah! Cidade maliciosa
De olhos de ressaca
Que das índias guardou vontade de
Andar nua." (Ferreira Gullar)



Antítese

Figura que consiste no emprego de termos com sentidos opostos, que contrastam entre si. A antítese parece, com justiça, encarnar melhor que qualquer outra figura de linguagem o espírito divido do homem barroco, que se vê sempre em dúvida diante de duas direções opostas: o aproveitar a vida e o medo da morte e da danação; a privação da vida e a inexistência de Deus; o predomínio da razão em detrimento da fé, etc.

"Tristeza não tem fim.
Felicidade sim..." (Vinícius de Moraes)

“Sou teu céu e teu inferno, a tua calma.
Sou teu tudo, sou teu nada
… Eu sou o teu mundo, sou teu poder”. (Paula Fernandes)


“O mito é o nada que é tudo.” (Fernando Pessoa)

“Que vai, pisando a terra e olhando o céu.” (Vinicius de Moraes)

“A vida é mesmo assim/Dia e noite, não e sim.” (Lulu Santos e Nelson Motta)


"Nasce o sol, e não dura mais que um dia
Depois da luz se segue a noite escura
Em tristes sonhos morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria."

(À instabilidade das cousas do mundo – Gregório de Matos)

Observação: Nesse exemplo, o poeta barroco utiliza pares de termos com sentidos opostos: “dia” e “noite”, “luz” e “escura”, “tristezas” e “alegria”.


 Paradoxo

É uma figura de linguagem caracterizada pela associação de conceitos contraditórios na representação de uma só ideia. Embora esses conceitos contraditórios possam parecer ilógicos, acabam formando uma unidade semântica aceitável, passível de ser real.

Enquanto figura de linguagem, é um recurso utilizado na linguagem oral e escrita que aumenta a expressividade da mensagem, representando o ilógico, o absurdo, o impossível e a falta de nexo. É um recurso muito útil para expressar ironia e sarcasmo.

“Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer”.
(Camões)

Nestes versos, percebe-se que o poeta constrói o sentido do Amor-ideia, amor universal, filosofando a respeito do amor, não falando de seus sentimentos pessoais. Para isso, ele se apropria de elementos que, apesar de se excluírem mutuamente, se fundem num mesmo referente, constituindo afirmações aparentemente sem lógica.

Outros exemplos:

“Sendo a sua liberdade/Era a sua escravidão.” (Vinicius de Moraes)
“Estou cego e vejo./Arranco os olhos e vejo.” (Carlos Drummond de Andrade)

"Já estou cheio de me sentir vazio." (Renato Russo)

“Se você quiser me prender,/vai ter que saber me soltar.” (Caetano Veloso)

"Sendo a sua liberdade/Era a sua escravidão. (Vinicius de Moraes)

"Bastou ouvir o teu silêncio para chorar de saudades." (Reinaldo Dias)


"Eu fujo ou não sei não, mas é tão duro este infinito espaço ultra fechado." (Carlos Drummond de Andrade)


Antítese e paradoxo: qual é a diferença?

Embora sejam figuras de pensamento baseadas na oposição, o paradoxo e a antítese se distinguem .

O paradoxo emprega ideias opostas, da mesma maneira que a antítese, entretanto, essa contradição ocorre entre o mesmo referente do discurso.

Para entender melhor essa diferença veja os exemplos abaixo:

Dormir e acordar está difícil. (antítese)
Estou dormindo acordado. (paradoxo)

Note que ambos os exemplos utilizam os opostos “dormir” e “acordar”. Entretanto, o paradoxo propõe uma ideia, supostamente absurda, mas que faz sentido, pois enquanto dormimos não podemos estar acordados.


Nesse caso, a união dos termos contrários gerou um significado metafórico coerente à expressão “dormir acordado”. O enunciado significa que a pessoa está acordada, entretanto, com muito sono.

Outros exemplos:

"De repente do riso fez-se o pranto." (Vinícius de Moraes)

"Onde queres bandido sou herói." (Caetano Veloso)


"É proibido proibir." (Caetano Veloso)











quinta-feira, 2 de julho de 2020

Sermão da Sexagésima (fragmento) - Pe. Antônio Vieira




“Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. 

Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?” 

"Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou á terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja á chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? Porque o sol e a chuva são as influências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos (“Que fez nascer seu sol sobre os bons e os maus e chover sobre os justos e os injustos”). Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? (“Que devia eu ter feito à minha vida e não fiz?”) - disse o mesmo Deus por Isaías.” 


Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.

Os ouvintes ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: Et natum aruit. O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão funda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E porquê? -- Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir subtilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. Aliud cecidit inter spinas: O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele; e o mesmo sucede cá. Cuidais que o sermão vos picou e vós, e não é assim; vós sois os que picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. 

Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras! A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida: Percutiens virga bis silicem, et egressae sunt aquae largissimae. Induratum est cor Pharaonis. E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras.

Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. E tanta a força da divina palavra, que, sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que, sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança! Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu; mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem.

Quando o semeador do Céu deixou o campo, saindo deste Mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, até nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes.


Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, porque não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, porque não faz fruto a palavra de Deus? -- Por culpa nossa.

(Vieira, Pe. Antônio. Sermões. Rio de Janeiro. Agir, 1957.p102-4)


Atividades

1) Nesse trecho do sermão, temos apenas a discussão do aspecto relativo a Deus. Que argumentos Vieira apresenta para provar que não é por culpa de Deus que a pregação não frutifica?

2) É comum nos textos barocos a utilização de figuras de estilo como um recurso para enfatizar a realidade, através dos sentidos. Quais as figuras de linguagem empregadas pelo autor nesse trecho do Sermão da Sexagésima?

3) Em que trecho o pregador se apóia nas Sagradas Escrituras para ratificar suas palavras?





quarta-feira, 24 de junho de 2020

Semântica

O QUE É SEMÂNTICA E POR QUE ELA É FUNDAMENTAL PARA RANKEAR NO ...


O signo linguístico — a palavra —  possui dois aspectos inseparáveis:

Material
•   os sons (da fala)
•   as letras (na escrita)

 Imaterial
•  o significado (a ideia compartilhada tanto pelo emissor como pelo receptor da palavra).

O estudo do significado da palavra cabe à Semântica.

O Significado das palavras

Conhecer o significado das palavras é um dos fatores essenciais para o domínio da língua, pois só assim o falante ou o escritor será capaz de selecionar a palavra adequada para elaborar a sua mensagem. Por isso é importante o conhecimento dos fatos linguísticos como:

Sinonímia

É o fato de duas ou mais palavras possuírem significados iguais ou semelhantes —   sinônimos.

Os insetos invadiram a plantação de arroz.
Os insetos alastraram-se pela plantação de arroz.

Antonímia

É o fato de duas ou mais palavras possuírem significados opostos —  antônimos.

O aluno foi bem na prova.
O aluno foi mal na prova.

Homonímia

É o fato de duas ou mais palavras possuírem significados diferentes, mas serem iguais no som e/ou na escrita —  homônimos.

Os supermercados sabem apreçar (dar preço) as mercadorias.
Minha vizinha vivia a apressar (tornar mais rápido) a empregada.

Dependendo da identidade apresentada, os homônimos podem ser:

a) Homógrafos
Possuem a mesma grafia, mas sons diferentes.
O começo (som fechado - substantivo) da história agradou aos telespectadores.
Eu começo (som aberto - verbo) a entender essa matéria.

b) Homófonos
Possuem o mesmo som, mas grafias diferentes.
Ele não sabia pregar uma tacha (prego pequeno) na parede.
A população revoltou-se com o aumento da taxa (quantia cobrada por prestação de serviço) bancária.

c) Homônimos perfeitos
Possuem a mesma grafia e o mesmo som.
Eu cedo (verbo) o livro para a biblioteca da escola.
Levantou cedo (advérbio de tempo) para estudar para a prova.

Paronímia

É o fato de duas ou mais palavras possuírem significados diferentes, mas serem muito parecidas no som e na escrita —   parônimos.

O líder estudantil emigrou ( mudou-se de seu país de origem) para a França.
No começo do século, ops italianos imigraram (entraram num país estranho para nele viver) para o Brasil.

Polissemia

É o fato de uma mesma palavra poder apresentar significados diferentes que se explicam dentro de um contexto.

A criança estava com a mão machucada. (parte do corpo)
Passou duas mãos de tinta na parede. (camadas)
A escultura demonstrava mão de mestre. (habilidade)
A rua não dava mão para o parque. (direção em que o veículo deve transitar)
Nenhum cidadão deve abrir mão de seus direitos.(deixar de lado, desistir)
Passaram a mão em minha bolsa. (apoderar-se de coisas alheias)
A palavra final está mão do diretor. (dependência, responsabilidade)

Observação

Em geral, os homônimos perfeitos resultam de palavras iguais  no som e na escrita, mas de origens diferentes: são (verbo ser) e são (adjetivo -sadio, saudável).
A polissemia, ao contrário, é resultante dos diferentes significados que uma mesma palavra foi adquirindo com o tempo.