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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2030

O navio negreiro - Castro Alves

Parte IV

Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando geme e ri...

No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da roda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás! ...

A terceira fase romântica é marcada por uma poesia de acentuado compromisso social. Denominada poesia condoreira, tem como símbolo o condor, cujo sentido é a liberdade de expressão e de linguagem. Victor Hugo foi o poeta francês que mais influenciou esta geração cuja poesia entra num processo de universalização, isto é, procura expressar a realidade de um grupo social.

Assim, seja por imitação dos padrões europeus, seja por simples entusiasmo romântico, o fato é que a poesia brasileira de caráter social restaurou sua identidade com o povo, anunciando o novo na vida nacional. Trata-se, portanto, de uma época de transição em que surge uma literatura preocupada com a denúncia social.

Castro Alves foi o mais importante representante da poesia condoreira no Brasil. Seus poemas sociais tratam de questões como a crença no progresso e na educação como forma de aprimoramento social, da República e, principalmente, o fim da escravidão negra. O tom vigoroso, a ressonância de seus versos, a indignação e a expressividade são elementos que consagraram o “poeta dos escravos”.


Condoreiro, a sua poesia serviu de instrumento de luta contra a escravidão, pois o seu tom de elevação era propício para récitas em locais públicos: praças, salões de leitura etc. A eloquência dos versos está evidenciada em poemas que denunciavam a vida miserável dos escravos. O poeta aproxima-se da realidade social, embora conserve ainda o idealismo e o subjetivismo românticos.


O navio negreiro” (ou “Tragédia no mar”), inserido na obra Os Escravos, é um dos poemas mais famosos de Castro Alves. Quando foi composto, em 1868, o tráfico de escravos já estava proibido no país; contudo, a escravidão e seus efeitos persistiram. Para denunciar a condição miserável e desumana dos escravos, o poeta valeu-se do drama dos negros em sua travessia da África para o Brasil.

Dividido em seis partes ( com alternância métrica variada para obter o efeito rítmico desejado em cada situação retratada), é apresentado da seguinte forma: na primeira parte, o eu lírico limita-se a descrever a atmosfera calma que sugere beleza e tranquilidade; na segunda parte, descreve marinheiros de várias nacionalidades, caracterizando-os como valentes, nobres e corajosos; na terceira parte, o eu lírico introduz a verdadeira intenção do poema – a denúncia do tráfico de escravos, através de expressões indignadas.


Na quarta parte, o eu lírico passa a descrever, com detalhes, os horrores e castigos de um navio de escravos.

Na quinta parte, ele invoca os elementos da natureza para que destruam o navio e acabem com os horrores que mancham a beleza do mar, destacando a vida livre dos negros na África e a escravidão a que são reduzidos no navio.

Finalmente, na sexta parte, ele indica a nacionalidade (brasileira), invocando os heróis do Novo Mundo, para que eles, por terem aberto novos horizontes, possam acabar com a infâmia da escravidão.



Comentários sobre o poema (parte IV)

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O texto apresentado(a parte IV de “O navio negreiro”) é a descrição do que se via no interior de um navio negreiro. Note a capacidade de Castro Alves em nos fazer “ver” a cena, como se estivéssemos em uma montagem teatral: o tombadilho do navio transformado em um palco infernal.


Os versos têm dez sílabas métricas que se alternam com versos de seis sílabas métricas; as sílabas tônicas são construídas pela sexta e a décima; o esquema das rimas é aabccb; todas as estrofes transcritas são compostas de seis versos.

O rompimento do equilíbrio métrico ( os versos são heterométricos) é uma conseqüência do quadro horroroso configurado. A descrição é crua e a cena revoltante. A repetição da terceira estrofe no final dá-lhe uma natureza de refrão.

Outro dado interessante é o emprego que o poeta faz da linguagem, trabalhando ora os adjetivos para descrever com mais expressividade o cenário e o elemento humano, ora os verbos para reforçar o dinamismo do "balé". A grandiloqüência vem com toda com toda força, onde o exagero cumpre, sem dúvida, a função de emocionar( passa a focalizar o drama que é o fulcro do poema).

Logo no início, o eu lírico compara o navio negreiro a um “sonho dantesco”. Com essa expressão, faz referência às terríveis cenas descritas pelo escritor italiano Dante Alighieri, em “O inferno”, parte da obra A divina comédia. Horroriza-se com a situação infame e vil dos negros no tombadilho( as correntes, o chicote, a multidão, o sofrimento, a “dança”macabra). O ritmo nos é dado por algumas palavras especiais de acentuada sonoridade(“tinir”, “estalar”, por exemplo).


Repare na imagem das “Negras mulheres”: não há mais leite para alimentar as “magras crianças”(somente sangue) e, por citar as “tetas”, faz-se analogia a um mero animal. Ao descrever as moças nuas (condição de ausência de proteção) espantadas, arrastadas em meio à multidão de negros esquálidos (magros), o eu lírico apela para que o leitor sinta piedade pelo sofrimento do ser humano (piedade cristã). As reticências conduzem à reflexão, à intensidade da dramaticidade diante da situação condenável, horrenda.

Do ponto de vista cromático, duas cores são postas em contraste na primeira e segunda estrofes. Estas cores são o vermelho e o preto, que compõem o dramático painel em que o sangue dos escravos contrasta com o negro de sua pele.


Há reincidente uso de imagens que sugerem desespero, sofrimento e dor. A exposição do velho arquejando(desumanização), acompanhado do chicote ( a serpente que “faz doudas espirais”), assemelha-se a de um animal, que acompanha a “orquestra”( os marinheiros aparecem representados pela orquestra que comanda a dança) sem reclamar... E essa “tragédia” se completa quando essa “multidão faminta”, que sofre sem cessar, geme de dor, chora e delira... Enfraquecidos, eles enlouquecem.


A cena é de uma crueldade atroz, já que, para se divertir, os marinheiros surram os negros. Repare no efeito expressivo da antítese que contrapõe o céu puro sobre o mar e a figura do capitão (regente da orquestra) cercado de fumaça. Ela estabelece o contraste entre a natureza como obra divina e a escravidão como obra demoníaca.


Depois de apresentar o navio como uma visão dantesca, uma figura diabólica (que também aparece no final da obra “A divina comédia”) é utilizada para o desfecho da última estrofe, finalizando a quarta parte do poema. O eu lírico ressalta o prazer (novamente exposto pelo verbo “rir”) daqueles que torturam (uma orquestra irônica, estridente)em oposição ao sofrimento dos escravos (um trágico balé dançado) para deleite de Satanás.

Observe algumas figuras de linguagem em destaque no poema:

Metáfora
“Era um sonho dantesco” (referência às cenas horríveis descritas por de Dante Alighieri no “Inferno” de sua Divina Comédia),
“ a serpente faz doudas espirais...”( a serpente seria o chicote usado pelos marinheiros),
“E ri-se a orquestra irônica”( a expressão caracteriza os marinheiros que comandam a dança).

Hipérbato
“Que das luzernas avermelha o brilho”( a ordem direta seria: Que o brilho das luzenas avermelha).

Comparação
“Legiões de homens negros como a noite”.

Hipérbole
“No turbilhão de espectros arrastadas”,
“sangue a se banhar”

Metonímia
“O chicote estala”.


A poesia abolicionista de Castro Alves demonstra que ele aprendeu muito bem o que ensinava o “mestre” Victor Hugo, ou seja, a possibilidade de registrar artisticamente não apenas o belo, mas, também, o grotesco. Nesse sentido, o condor francês lega ao condor brasileiro a audácia das imagens, no empenho da luta.


“O navio negreiro” – considerado seu melhor trabalho nesse campo – ilustra muito bem como o poeta tratava o tema: a escravidão negra era vista como uma instituição inadmissível num mundo que caminhava para um futuro melhor, em que o progresso tecnológico daria ao homem condições mais dignas de existência.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

O Barroco no Brasil

Aspectos da vida social no Brasil Colônia | Novelas, História ...

O estilo barroco chegou ao Brasil fortemente marcado pelas contradições  que os países católicos europeus estavam vivendo em consequência da Contrarreforma e dos processos de colonização. Alguns dos princípios cristãos se opunham diretamente aos rumos da colonização, condenando, por exemplo, a busca pelo lucro, e acirravam sentimentos conflitantes que caracterizam o Barroco. O marco inicial do Barroco brasileiro é o poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira (versos decassílabos, dispostos em oitava rima, com 94 estrofes), escrito com o objetivo de louvar Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco.

No Barroco brasileiro, as ambiguidades que marcam as tensões da época se fizeram sentir de modo ainda mais notável, em razão, principalmente, do contexto do projeto colonizador português: os homens vinham sós, sem suas esposas, qui se uniam, muitas vezes, a escravas ou a mulheres indígenas, com quem mantinham relações desaprovadas pela igreja. Além disso, a própria ideia de exploração e escravização se afastava dos ideais cristãos. O tempo que tinham para gozar a vida era curto, assim, deviam aproveitar seus dias enquanto estavam afastados da corte portuguesa e de um controle mais rígido por parte da Igreja.

Essas tensões foram captadas pelo mais importante poeta barroco brasileiro: Gregório de Matos Guerra, que nasceu na Bahia em 1623. Gregório era homem de boa formação humanista, doutor pela Universidade de Coimbra. Escreveu poesia lírica, satírica, filosófica e religiosa, e chegou a ser considerado o maior satírico de língua portuguesa.  Seus poemas satíricos lhe valeram o apelido  de "boca do inferno" e levaram-no a colecionar uma série de desafetos pessoais e políticos, motivo de sua deportação para Angola em 1694, de onde regressou um ano antes de morrer, em 1696, no Recife.

É preciso ressaltar que o público do Barroco brasileiro era diferente do público europeu que começava a se formar no século XVII. Aqui, havia poucos homens que sabiam ler e escrever, por isso muitos dos poemas de Gregório de Matos circularam oralmente pela Bahia. Já os sermões de Padre Vieira, outro expoente desse período, não eram escritos para serem lidos, mas para serem ouvidos por uma audiência. Isso facilitava a circulação, já que frequentar as igrejas era praticamente uma obrigação nessa época.

Gregório de Matos satírico

Através da sátira, o poeta critica as autoridades da época, as mulheres de costumes indecorosos, os ricos senhores de engenho, os padres e os comerciantes pouco honestos. 

Para não esquecer

Sua crítica se faz de modo cômico, jocoso, usando uma linguagem popular que não coincide com a linguagem polida dos documentos e textos oficiais do século XVII, como é possível constatar  no soneto a seguir:

Ao casamento de certo advogado com uma moça mal reputada

Casou-se nesta terra esta, e aquele,
Aquele um gozo filho de cadela,
Esta uma donzelíssima donzela,
Que muito antes do parto o sabia ele.

Casaram por unir pele com pele,
E tanto se uniram, que ele com ela,
Com seu mau parecer ganha para ela,
Com seu bom parecer ganha para ele.

Deram-lhe em dote muitos mil cruzados,
Excelentes alfaias, bons adornos,
De que estão os seus quartos bem ornados:

Por sinal, que na porta, e seus contornos,
Um dia amanheceram bem contados,
Três bacias de trampa, e doze cornos.

Gregório de Matos lírico

Nesse tipo de poema o poeta fala de suas fortes paixões e dos sofrimentos por amor.

Os sonetos líricos de Gregório de Matos são bem elaborados. Por ser um bom conhecedor da arte de fazer poesias, expressa seus sentimentos amorosos com grande  habilidade e mestria:

Discreta e formosíssima Maria

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.



Gregório de Matos religioso

O poeta, arrependido, pede perdão de seus pecados; sofre remorso por suas ações apaixonadas e insensatas. Há sempre um conflito entre pecado e perdão. Veja, no poema abaixo, a contraposição dos substantivos "maldade" / "luz", por exemplo:

A N. Senhor Jesus Christo com actos de arrependido e suspiros de amor.

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.
  
Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
  
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
  
Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.

Padre Antônio Vieira

O Padre Antônio Vieira nasceu em Portugal em 1608 e veio para o Brasil com apenas 7 anos. Estudou humanidades no Colégio dos Jesuítas e, aos 15 anos, ingressou na Companhia de Jesus. Em 1679, publicou seu primeiro volume de sermões e, em 1680, com a restauração da soberania portuguesa, partiu para Portugal para levar o apoio da Colônia brasileira na luta contra a Espanha.Ele alternou em sua vida momentos de maior ou menor proximidade com a Corte, assim como momentos em que residiu na Bahia, no Maranhão ou em Portugal, com passagens por Roma. Vieira faleceu em 1697 e está enterrado na Bahia.

Vieira escreveu mais de 700 cartas e inúmeros sermões, seus textos mais conhecidos. De um modo geral, seus sermões apresentam três partes: uma introdução, em que o tema bíblico a ser abordado era exposto ao seu público; uma argumentação, em que o tema era desenvolvido, utilizando exemplos, contra-argumentação, imagens poderosas que pudessem realmente convencer as pessoas de seu ponto de vista; e uma conclusão, em que Vieira buscava fazer com  que seus fiéis seguissem as ideias trabalhadas por ele. Como se vê , é uma estrutura argumentativa, que busca convencer seu público de sua tese, seu ponto de vista sobre determinado assunto. Como o sermão era falado, era necessário usar estratégias para que o público acompanhasse o raciocínio desenvolvido  pelo orador. Uma das estratégias usadas por Vieira em seus sermões era a técnica da disseminação  e da recolha. Na disseminação, ideias eram levantadas, questionadas, muitas vezes por meio de perguntas que ele dirigia ao público e deixava sem respostas.  Na recolha, essas questões eram retomadas e respondidas de modo assertivo e bem fundamentado, segundo a Bíblia, aumentando o poder de convencimento do sermão. 

Há todo um contexto da época a ser levado em conta que torna  mais claras as escolhas do do padre na elaboração de seus sermões. Neles podem ser observados referências a pessoas a quem pôde ou quis defender, as lutas políticas que travou e o seu investimento pessoal na crença de que Portugal seria a nação escolhida para se sobressair sobre as demais nações e governá-las. Assim, Vieira defendeu o indígena da escravidão pura e simples pelos colonos, pois os queria aldeados e convertidos, sob o controle dos jesuítas. Numa carta escrita ao rei D. Afonso VI em 1657, Vieira assim se manifestou contra o extermínio e a dominação dos indígenas brasileiros:

As injustiças e tiranias, que se têm executado nos naturais destas terras, excedem muito às que fizeram em África. Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertão mais de dois milhões de índios, e mais de quinhentas povoações como grandes cidades, e disto nunca se viu castigo. Proximamente, ao ano de 1655, se cativaram no rio Amazonas dois mil índios, entre os quais muitos eram amigos e aliados dos portugueses, e vassalos de Vossa Majestade, tudo contra a disposição da lei que veio naquele ano a este Estado, e tudo mandado obrar pelos mesmos que tinham maior obrigação de fazer observar a mesma lei; e também não houve castigo: e não só se requer diante de V.M. a impunidade destes delitos, senão, licença para os continuar.
(Pe. Antônio Vieira. Carta a el-rei D. Afonso VI, 1657.)

Vieira também foi sensível aos maus tratos sofridos pelos negros escravos, mas entendia a escravidão como necessária para o bom sucesso do empreendimento ultramarino português. Na impossibilidade política de conseguir  a libertação dos escravos africanos, em consequência das forças políticas atuantes na época, enxergava a possibilidade de conversão dos negros como uma oportunidade de salvação de suas almas e de recompensa celeste dos trabalhos penosos sofridos em vida. Opôs-se às perseguições aos judeus, ao confisco de seus bens, às prisões e torturas praticadas pelo Santo Ofício, mas seus interesses humanitários se casavam com interesses práticos: a dependência dos capitais dos judeus para o empreendimento colonial português, por exemplo.

O papel da Igreja e dos sermões no século XVII

No século XVII, a Igreja não tinha apenas uma função religiosa e espiritual. Desempenhava também papel fundamental na vida social e cultural, especialmente no Brasil Colônia. As missas  eram espaços de encontro e socialização e muitos namoros se iniciavam nas igrejas, numa época em que havia poucos espaços  permitidos para a circulação feminina. Por sua vez, os sermões cumpriam um papel político importante. Por meio deles, o público (tanto o mais culto, como o analfabeto)se informava sobre os fatos do mundo. Assim, o sermão não era apenas uma fala religiosa, mas também um texto de caráter retórico e características literárias, em que os padres expunham as ideias debatidas na época e argumentavam a respeito delas.

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: [...] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. [...]


Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado [...]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera [...]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

(Essencial, 2011.)

No segundo parágrafo, Antônio Vieira torna explícito seu descontentamento com:

A) o filósofo Sêneca.

B) os príncipes católicos.

C) o imperador Nero.

D) a doutrina estoica.

E) os oradores evangélicos.


















sexta-feira, 15 de maio de 2020

Texto literário e não literário

A Plurissignificação da Linguagem Literária - ppt video online ...

Você já pensou o que faz um texto ser literário e outro não? Embora a literatura se manifeste fundamentalmente por meio da palavra escrita, nem tudo que é escrito pode ser considerado como literatura, no sentido estético, ou seja, que desperta emoções, chama atenção pela beleza.

O texto literário é formado por palavras polivalentes, plurissignificativas, ou seja, que podem ter mais de um significado. Sua base é a conotação, quando a palavra é utilizada com sentido diferente daquele que lhe é comum.

Os contos, o poema, o romance, peças de teatro, novelas, crônicas são exemplos de texto literários.

A linguagem não literária é a utilizada com o seu sentido comum, empregada denotativamente, é a linguagem dos textos informativos, jornalísticos, científicos, receitas culinárias, manuais de instrução etc.

Sendo assim, podemos concluir que o texto literário tem uma função estética e o texto não literário tem uma função utilitária, como por exemplo, informar sobre a realidade e documentar os fatos.

O texto que você ler foi escrito pelo Padre José de Anchieta, missionário jesuítico que escreveu vários textos de cunho religioso, inclusive poemas líricos.




Texto 

Em Deus, meu Criador

Não há coisa segura. 
Tudo quanto se vê
se vai passando.
A vida não tem dura. 
O bem se vai gastando.
Toda criatura
passa voando.
Em Deus, meu criador,
está todo meu bem
e esperança,
meu gosto e meu amor 
e bem-aventurança.

Quem serve a tal Senhor
não faz mudança. 
Contente assim, minha alma, 
do doce amor de Deus
toda ferida,
o mundo deixa em calma,
buscando a outra vida,
na qual deseja ser
toda absorvida.
[...]

(ANCHIETA, José de. In: MARTINS, M. de L. de Paula (Trans., trad. e notas). Poesias. Belo Horizonte/ São Paulo: Itatiaia/ Editora da Universidade de São Paulo, 1989. p. 402 (fragmento).


1. Pensando nas explicações lidas, você diria que o texto acima é literário ou não literário?


2. Releia os versos retirados do texto: “Toda criatura/ passa voando.” É possível dizer que essa expressão tem sentido figurado, conotativo? Explique.



quinta-feira, 7 de maio de 2020

Atividades (Denotação/Conotação)


Leia atentamente a tira a seguir e responda às questões.

ATIVIDADE COMPLEMENTAR DE L. PORTUGUESA - PDF Free Download
1.

 A  tira  nos  apresenta  uma  personagem  que  vai  consultar  o  Livro  dos  provérbios  para  descobrir  o que significa a expressão “Quem tem boca vai a Roma”.

a)  Qual é o sentido usual atribuído a esse provérbio?
b)  A resposta encontrada pela personagem confirma esse sentido? Por quê?
c)  É possível interpretar a resposta encontrada de modo figurado. Explique.



********


2.

 A linguagem utilizada em um texto está organizada em torno do eixo denotativo ou conotativo. Com base nos textos 1 e 2, transcritos a seguir, faça o que se pede.

a) Identifique se o uso da linguagem, em cada um deles, foi conotativo ou denotativo.
b)Explique a razão de sua "classificação".


Texto 1

Uma escrita secreta só para mulheres

"Durante séculos proibidas de ler e escrever, as mulheres da província chinesa de Jiangyong acabaram por desenvolver seu próprio sistema secreto de escrita.
Vivendo sob o controle dos homens — em casamentos arranjados e violentos —, elas criaram o Nu Shu, que significa “escrita feminina”, para poder se comunicar e se ajudar por meio de poemas, narrativas e canções, às vezes bordados em panos. Baseados no chinês tradicional, os caracteres foram mudados de modo a ter novos significados e eram traçados de maneira delicada. O vocabulário foi extraído de um dialeto local. Hoje, poucas mulheres são capazes de ler e escrever Nu Shu, mas o governo já se comprometeu a destinar recursos para um museu e a feitura de um dicionário como forma de preservar a escrita."

National Geographic Brasil. São Paulo: Abril, ano 4, n. 37, maio 2003. (Fragmento).

Texto 2

"O vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício." 

("Amor", Clarice Lispector, Laços de Família)


esse provérbio?
b)
confirma esse sentido
?
Por quê
?
c)
É possível interpretar
a resposta encontrada de
modo figurado
.
Explique.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Denotação e Conotação

ENGENHEIRO CIVIL BOA SORTE !
A tira apresenta uma sala de aula na qual a professora faz uma pergunta a seus alunos: "Quem foi a primeira mulher a ir para o espaço?". A resposta dada  pelo Joãozinho ("Minha tia Alice") surpreende  a professora que lhe pede maiores explicações ("Sua tia Alice, Joãozinho? Como assim?"). A resposta que ele dá  ("O bujão  de gás explodiu na cara da coitada") é uma boa "pista" para compreendermos  por que a professora ficou confusa e também por que o aluno deu uma resposta tão inesperada.

No contexto escolar,. imagina-se que a professora gostaria de saber quem foi a primeira mulher a sair da Terra em uma nave espacial. Em outras palavras: quem foi a primeira mulher astronauta? Nesse sentido, "ir para o espaço" significa exatamente sair da Terra em uma espaçonave. É o que se chama de interpretação literal (as palavras são interpretadas de acordo com o seu sentido básico.

A interpretação dada por Joãozinho à expressão "ir para o espaço" não foi, porém, a que esperava a professora. Ele supôs que a professora estava falando em sentido figurado. "Ir para o espaço", nesse caso, significaria morrer. Por isso ele explica que a tia foi para o espaço porque um botijão de gás explodiu em sua cara.

A intenção do autor da tirinha é provocar o riso com o duplo sentido da  expressão "ir para o espaço". Ao ler essa tira, rimos de uma personagem que não soube escolher corretamente entre o sentido literal e o sentido figurado da frase; nas tirinhas, nas piadas e nos textos humorísticos em geral, equívocos desse tipo são frequentes. Na vida, não. Aprendemos, desde cedo, a escolher a melhor interpretação a partir da análise do contexto em que uma determinada palavra (ou expressão) é utilizada. 

Essas observações nos ajudam a perceber a diferença entre sentido literal e sentido figurado.

Para não esquecer

O sentido literal é aquele que pode ser tomado como sentido "básico" de uma palavra ou expressão, o que pode ser apreendido sem ajuda do contexto. .

O sentido figurado é aquele  que as palavras ou expressões adquirem , em situações particulares de uso, em decorrência de uma extensão do seu sentido literal.

 As palavras e enunciados de uma língua natural operam em dois eixos de significação: o eixo denotativo ou referencial e o eixo conotativo ou afetivo.

Denotação 

Uma palavra ou enunciado   tem valor denotativo quando se apresenta em seu sentido literal, ou seja, aquele que corresponde à primeira significação atribuída às palavras nos dicionários da língua.

Esse sentido comum ou usual das palavras e enunciados costuma caracterizar os chamados textos informativos. Observe, por exemplo, que é denotativo o valor das palavras no texto que segue, pois seu autor quer transmitir uma informação objetiva sobre o risco de escassez de água potável na Terra.

“A água evapora dos oceanos, cai sobre a terra, aflui para os rios e escorre de volta para o mar – e parece, assim, ser um recurso ilimitado. Mas apenas 2,5 % da água do planeta é doce e a maior parte dela está congelada nos pólos. Assim, de toda a água doce existente, apenas 0,6 % pode ser utilizada. Para piorar, mudanças climáticas podem alterar a distribuição dos locais e dos períodos de cheias, e a elevação do nível dos mares pode tornar salobra a água doce dos litorais.[... ]

Cada pessoa necessita de pelo menos meio metro cúbico de água limpa por dia, para beber, cozinhar e manter a higiene pessoal. Mas um sexto da população mundial tem de se contentar com menos do que isso.”

O fantasma da sede. National Geographic Brasil.n.12.Abril, 2001.v.1



Conotação

Uma palavra ou enunciado tem valor conotativo ou afetivo quando seu sentido não é tomado literalmente, mas é ampliado e modificado, com objetivo de provocar um efeito particular, em um contexto específico de interlocução.

Pelas suas características peculiares, não só a linguagem literária em prosa, mas também a\poesia, a linguagem da propaganda e a linguagem do humor costumam ter um sentido predominantemente conotativo. São frequentes, nesses textos, as alusões e os duplos sentidos.

Vale mencionar um tipo particular de discurso, os chamados provérbios ou ditos populares, que condensam, em textos brevíssimos, ensinamentos ou lições de vida característicos da sabedoria popular de uma cultura. A linguagem dos provérbios é predominantemente conativa. Veja os exemplos:

Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

"Traduzindo": o sofrimento alheio não faz com que soframos, porque não nos afeta.

Camarão que dorme, a onda leva. / Bobeia na praça que o jacaré te abraça.

"Traduzindo": se não estiver atento para o que acontece a sua volta, você será passado para trás.

Quem semeia vento, colhe tempestade. /  Quem procura, acha.

"Traduzindo": as pessoas arcam com as consequências dos próprios atos.











quinta-feira, 30 de abril de 2020

Funções da linguagem - Parte 2



Funções da linguagem (continuação)

Função fática (ou de contato)



Função fática. Aspectos da função fática - Português

Na função fática, enfatiza-se o canal de comunicação ou de contato.  A intenção é iniciar um contato por meio de cumprimentos (Olá!", "Como vai?", "Bom dia!", "Oi!") ou de uma abordagem coloquial objetiva e rápida ("Está tudo bem?", "Você precisa de ajuda?").

Observe, no texto a seguir, que as personagens visam uma interação verbal.

"Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?"


VIOLA, Paulinho da. LP Foi um rio que passou em minha vida, EMI, 1970

Para não esquecer:

Quando o objetivo da mensagem é simplesmente o de estabelecer ou manter a comunicação, o contato entre o emissor e o receptor, diz-se que a função predominante é a fática.


Função metalinguística

A função metalinguística tem como fator essencial o código. O objetivo da mensagem é referir-se à própria linguagem. Podem-se encontrar exemplos dessa função em uma cena de filme que analise o cinema, em um poema que fale sobre o poeta e a poesia, em verbetes de dicionários, em textos que estudem e analisem outros textos.

fazendo a barba



Para não esquecer:

A função metalinguística está presente no discurso que utiliza o código para explicar o próprio código.


"di.ci.o.ná.rio
sm (lat dictione) Coleção de vocábulos de uma língua, de uma ciência ou arte, dispostos em ordem alfabética, com o seu significado ou equivalente na mesma ou em outra língua. Sin: léxico, vocabulário, glossário. D. vivo: indivíduo muito erudito ou de grande memória.
"

(Definição retirada do Dicionário Michaelis)


Função apelativa (ou conativa)

Aqui, o objetivo da transmissão da mensagem é persuadir o receptor. Os melhores exemplos são os textos publicitários, pois visam envolver o leitor, influenciar seu comportamento e seduzi-lo com uma mensagem persuasiva.

Observe no texto a seguir, extraído de um anúncio publicitário, uma característica típica da função apelativa: verbos empregados no modo imperativo (fuja, escolha, procure) e pronomes na 2.ª ou 3.ª pessoas ( o seu agente de viagens).


Fuja do engarrafamento.

“UMA SEMANA EM BÚZIOS A PARTIR DE R$.290,00. É MAIS DO QUE UM PACOTE. É UM PRESENTE.

Vinte e seis praias numa cidade-resort. O primitivo em harmonia com o sofisticado a poucas horas de São Paulo. Escolha a pousada com café da manhã e um passeio de barco grátis. Procure o seu agente de viagens e conheça este pacote nos mínimos detalhes.”


Função poética

A função poética ocorre quando se enfatiza a mensagem ou o texto, quando é trabalhada a própria forma da linguagem. A ênfase recai sobre a construção do texto, a seleção e a disposição de palavras no texto. Essa função é mais encontrada em poemas, mas aparece também  em textos publicitários, em prosa e em outros.

Observe esta mensagem. O som, o ritmo, os jogos de ideias e de imagens são explorados no texto, e a linguagem pode atrair o leitor.

Tecendo a manhã

“ Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará se,pré de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos
(...)”

(MELO NETO,João Cabral de. Poesias completas. Rio de Janeiro:José Olympio,1986)


Observações:

a) diferença entre a função poética e a função emotiva

Função emotiva enfatiza o eu, e está em 1° pessoa. Onde ele expressa suas emoções,sensações,sentimentos... Indo ao ponto, a diferença é que na função emotiva ele só se preocupa com o eu, o foco é no emissor, já na função poética ele se preocupa mais com quem vai receber a mensagem.

b) diferentes funções

É importante lembrar que uma mesma mensagem pode ter diferentes funções. Nesses casos, cabe identificar sua função principal, pois sempre há predominância de uma função sobre as demais.