Merci d'etre parmis nous*Thank you for being among us* Gracias por estar entre nosotros*Obrigado por estar entre nós* Grazie per essere in mezzo a noi* Danke, dass Sie bei uns* Спасибо за то, что среди нас*Terima kasih kerana menjadi antara kita*私たちの間にいてくれてありがとう* شكرا لك لأنك بيننا

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Trovadorismo

RESUMO COMPLETO do TROVADORISMO - O que é? Características

No panorama da Europa feudal, da alta Idade Média, começa a surgir, na Provença (sul da França), a partir do século XI, um novo tipo de arte, cujo espírito em muito se afasta da cultura dominante religiosa e guerreira da época. É a poesia dos  trovadores, na qual as artes da palavra e da música se conjugam de forma sutil, produzindo cantos de amor e de humor e crítica cuja influência logo se espalhará pela Europa.

O amor celebrado nesses poemas é o que se chama em provençal fin amors — o "amor cortês", como o chamamos. Nele, a mulher é alçada à posição de senhora (no sentido feudal) e o amor é encarnado como uma relação física e espiritual em que o amante se apresenta como vassalo (servidor) da "dona" (casada com outro, pois se trata em geral de relações adulterinas). Chamamo-lo amor cortês por seu aspecto de refinado jogo de corte, jogo em que se compraziam os aristocratas da região em que se falava a langue d`oc (isto é, o provençal, por oposição à langue d`oil, o francês, língua do norte. Oc significava "sim" em provençal; oil, que hoje se diz oui, tinha o mesmo sentido em francês). Da região do Languedócio ( a Provença, aproximadamente) esse jogo de amor, com sua poesia, sua música e suas leis (as leys d`amor), passou a várias outras partes da Europa, inclusive Portugal.

Além da canção amorosa (cansó), os poetas provençais também cultivaram brilhantemente a canção satírica (sirventés). O trovador era o poeta (as vezes nobre, mas na verdade de qualquer categoria social) que compunha a poesia e a música da canção e também a executava e cantava, acompanhado ou não de outros músicos. Jograis eram uma espécie de trovadores de mais baixa categoria; executavam as composições dos trovadores e eram, frequentemente, eles mesmos autores da canção.

O florescimento da cultura trovadoresca, na Provença, foi magnífico, mas muito breve: no início do século XIII, a Cruzada contra os Albigenses arrasou o país e dispersou os trovadores. O provençal, contudo, já era uma língua de cultura muito corrente em várias cortes da Europa e a poesia trovadoresca já estava espalhada pela França, Alemanha, Itália, Portugal e outros países.

O legado fundamental dos trovadores é, para nós,  a expressão refinada, sensual e espiritual, de uma nova concepção do amor e da mulher, que deixou sua marca nos ideais amorosos do mundo moderno e uma poesia e uma música de alta qualidade: música de grande beleza melódica e poesia de profundo refinamento emocional  e musical. Trata-se de um dos mais ricos exemplos , em toda a história da literatura ocidental, de poesia do tipo melopeia , em que se criam correlações emocionais através dos sons e dos ritmos das palavras:

Canção provençal - Jaufré Rudel (1ª estrofe)

Lanquan li jorn son lonc e may
M'es belhs dous chans d'auzelhs de lonh,
E quan mi suy partitz de lay,
Remembra'm d'un' amor de lonh.
Vau de talan embroncx e clis
Si que chans ni flors d'albespis
No-m valon plus que l'yverns gelatz.

Quando os dias são longos em maio
Me é belo o doce canto dos pássaros de longe
E quando vou embora de lá
Lembro-me de uma amor de longe:
Vou com o ânimo abatido, curvado
E nem canto ou flor de espinheiro
Me agrada mais que o inverno gelado.

(tradução literal)


Canção provençal: Bernart de Ventadorn (versos iniciais)

Si no`us vei, domna don plus mi cal, 
negus vezer mon bel pensar no vai.

Se eu não vejo a mulher que mais desejo
Nada que eu veja vale o que eu não vejo.

(tradução de Augusto de Campos)

Os mais antigos textos da literatura portuguesa são canções de trovadores, escritas numa forma arcaica da língua chamada galego-português (ou galaico-português). Na Provença, embora a poesia trovadoresca provenha de uma tradição um pouco mais velha, os textos mais antigos que conhecemos datam da primeira metade do século XII. Em Portugal, a produção trovadoresca se estende de fins do século XII ao século XIV.

Os portugueses cultivaram a poesia lírica na forma da cantiga de amor (adaptação algo limitada da cansó provençal) e a poesia satírica nas formas das cantigas de escárnio e maldizer. Ainda no gênero lírico, produziram uma elaboração culta das canções populares tradicionais chamadas cantigas de amigo.

As músicas associadas aos poemas, escritas ao lado das letras nos cancioneiros que nos restaram, oferecem problemas para a sua leitura, e por isso as interpretações modernas variam consideravelmente.  Mas é inegável que a música dos provençais atinge altíssima qualidade. Quantos aos trovadores portugueses, quase nada sobrou de sua música; apenas seis das sete cantigas de amigo (de Martin Codax) e uma coleção de poesias religiosas (Cantigas de Santa Maria) conservam a melodia com que foram compostas, pois em quase todos os manuscritos restantes falta a parte da notação musical. 

Dos cancioneiros portugueses que foram conservados, os mais importantes são o Cancioneiro da Ajuda (assim chamado porque se encontra na Biblioteca da Ajuda; contém apenas cantigas de amor, de vários autores, e é o único cujo manuscrito data da época do trovadorismo) e os Cancioneiros da Vaticana e da Biblioteca Nacional (este último antes conhecido por Colocci-Brancutti, ambos contêm cantigas de amor, amigo, escárnio e maldizer). Alguns dos trovadores mais notáveis são Pero da Ponte, Joan Garcia de Guilhade, Martin Codax, D. Afonso X, rei de Castela e de Leão, D. Dinis, rei de Portugal.

Observação:
O Trovadorismo português teve seu apogeu nos séculos  XII e XIII, entrando em declínio no século XIV. Seu último grande incentivador foi o rei D. Dinis (1261 - 1325), que prestigiou a produção poética em sua corte, tendo sido ele próprio um dos mais fecundos e talentosos trovadores medievais. 

A cantiga considerada a mais antiga  (de 1189 ou 1198) é conhecida como "Cantiga da Garvaia" ou "da Ribeirinha" e é atribuída a Pai Soares de Taveirós.

No mundo non me sei parelha,
mentre me for' como me vai,
ca ja moiro por vós - e ai!
mia senhor branca e vermelha,
Queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia!
Mao dia me levantei,
que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, des aquelha
me foi a mí mui mal di'ai!,
E vós, filha de don Paai
Moniz, e ben vos semelha
d'haver eu por vós guarvaia,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós houve nen hei
valía dũa correa.

*****

No mundo não conheço quem se compare
A mim enquanto eu viver como vivo,
Pois eu moro por vós – ai!
Pálida senhora de face rosada,
Quereis que eu vos retrate
Quando eu vos vi sem manto!
Infeliz o dia em que acordei,
Que então eu vos vi linda!

E, minha senhora, desde aquele dia, ai!
As coisas ficaram mal para mim,
E vós, filha de Dom Paio
Moniz, tendes a impressão de
Que eu possuo roupa luxuosa para vós,
Pois, eu, minha senhora, de presente
Nunca tive de vós nem terei
O mimo de uma correia.



 Observações: 

a) A mulher de que fala esse texto, chamada de Ribeirinha  (Maria Pais Ribeiro), teria sido a preferida de D. Sancho I.

b) O verso "Mia senhor  branca e vermelha" admite mais de uma interpretação. Pode referir-se à pele alva e às faces rosadas da mulher (bem caracterizada na tradução)ou, de acordo com J. Horrent, seria traduzido por "Minha senhora, quereis  que vos represente sob o arminho e a púrpura".




A cantiga de amor

A cantiga de amor galego-portuguesa é mais monótona, em geral bem menos brilhante que o seu modelo provençal. A situação que ela representa , na maioria dos casos, é a do amante frustrado: o homem (o "eu lírico") fala de seu amor  por sua bela senhora (fremosa senhor) e se apresenta  a ela como um vassalo a seu senhor, como um servidor (as relações sociais do mundo feudal servem de base metafórica para as relações amorosas); o amante espera da amada que ela lhe faça ben (eufemismo, isto é, expressão suavizada , pois o que o amante espera é que a mulher se entregue a ele) e, como a senhor em geral recusa o seu favor ao pobre apaixonado, este sofre a coita, o mal da frustração amorosa — é um coitado. Descrições estereotipadas  da beleza da senhor  e lamentos do amante coitado são o que há de mais comum nas cantigas de amor. Alguns trovadores portugueses, contudo, produziram cantigas de amor de grande intensidade emotiva, de grande beleza, às vezes consideravelmente distantes dos modelos provençais.

O poema seguinte apresenta várias características mais frequentes da cantiga de amor galego-portuguesa (o amor cortês, a lamentação da coita) e é , ao mesmo tempo, um texto singular por sua intensidade emocional, devida especialmente às reiterações desesperadas das duas últimas estrofes.

Senhor fremosa, pois me non queredes
creer a coita'n que me ten Amor,
por meu mal é que tan ben parecedes
e por meu mal vos filhei por senhor,
e por meu mal tan muito ben oí
dizer de vós, e por meu mal vos vi:
pois meu mal é quanto ben vós havedes.

E pois vos vós da coita non nembrades
nen do afán que mi o Amor faz sofrer,
por meu mal vivo máis ca vós cuidades,
e por meu mal me fezo Deus nacer
e por meu mal mon morrí u cuidei
como vos viss', e por meu mal fiquei
vivo, pois vós por meu mal ren non dades.

Desta coita en que me vós tẽedes,
en que hoj'eu vivo tan sen sabor,
que farei eu, pois mi a vós non creedes?
Que farei eu, cativo pecador?
Que farei eu, vivendo sempre assí?
Que farei eu, que mal día nací?
Que farei eu, pois me vós non valedes?

E pois que Deus non quer que me valhades
nen me queirades mia coita creer,
que farei eu? Por Deus, que mi o digades!
Que farei eu, se logo non morrer?
Que farei eu se máis a viver hei?
Que farei eu, que conselh'i non hei?

Que farei eu, que vós desemparades?

(Martim Soares, séc. XIII)

Exercícios resolvidos


1. De que tipo de cantiga se trata? Por quê? Cite duas expressões do texto que confirmem sua resposta.


Resolução: Trata-se de uma cantiga de amor, porque nela o eu lírico masculino se dirige à mulher ("senhor fremosa"), falando-lhe de seu amor e de sua "coita".



2. A expressão “meu mal”, repetida ao longo da estrofe, sugere
a) confusão por parte do eu lírico, que entende como um mal aquilo que, na verdade, é um bem.
b) tom de lamento e desolação, já que o eu lírico sofre por não ser correspondido no amor.
c) possessividade, o que se comprova pelo emprego exaustivo do pronome possessivo meu.
d) arrependimento, já que o eu lírico escolheu por senhor uma mulher fora dos padrões aristocráticos.
e) pessimismo, visto que o eu lírico enfatiza apenas aspectos negativos da mulher amada. 


Resolução: O amor não correspondido consiste numa característica da cantiga de amor e justifica a coita ou sofrimento amoroso. Resposta: B

Exercícios propostos

Estes meus olhos nunca perderán,
senhor, gran coita, mentr'eu vivo for.
E direi-vos, fremosa mia senhor,
destes meus olhos a coita que han:
     choran e cegan quand'alguén non veen,
     e ora cegan per alguén que veen.

Guisado tẽen de nunca perder
meus olhos coita e meu coraçón.
E estas coitas, senhor, minhas son;
mais-los meus olhos, per alguén veer,
     choran e cegan quand' alguén non veen,
     e ora cegan per alguén que veen.

E nunca ja poderei haver ben,
pois que Amor ja non quer, nen quer Deus.
Mais os cativos destes olhos meus
morrerán sempre por veer alguén:
  choran e cegan quand' alguén non veen,
   e ora cegan per alguén que veen.

Mentr`: enquanto.
Guisado: preparado.
Coita: sofrimento.
Cativo: infeliz, escravo.


1. Como o eu lírico se caracteriza  nesse poema?

2. Uma das principais características  das cantigas de amor é a              relação entre o eu lírico e sua amada. 
    a) De que maneira o eu lírico se refere à mulher?
    b) O que isso revela a respeito da relação entre eles?

3. Identifique os versos que se repetem no poema todo. Que nome se dá a eles?

4. O poema todo se constrói a partir de uma contradição de ideias (um paradoxo).
   a) Qual é o paradoxo presente no poema?
   b) Explique esse paradoxo.

5. A terceira estrofe estabelece que o sofrimento é insolúvel porque o amor e Deus assim o querem. O que significa dizer que o amor quer o sofrimento? O que significa dizer que Deus quer o sofrimento?

6. Quanto ao desenvolvimento do poema, responda:

   a) As estrofes apresentam conteúdo diferente ou semelhante umas das outras?
   b) O que isso sugere a respeito da poesia trovadoresca?


































sexta-feira, 5 de junho de 2020

Comparando charges e tirinhas




Tirinhas: Armandinho - Tudo Junto e Misturado Litoral


Você já sabe o que  são charges e, com certeza, já  leu alguma tirinha, não é verdade? Será que existem diferenças entre esses dois gêneros? Na aula de hoje, vamos falar sobre isso. Você vai gostar!


A tirinha surgiu da ideia de se fazer histórias curtas, de forma que a leitura do texto fosse rápida, eficiente e bem-humorada. A tirinha pode ser considerada uma adaptação da HQ (Histórias em Quadrinhos) impressa, mas a popularidade alcançada pelo gênero foi tão grande que os gibis mais tradicionais incorporaram as tirinhas para os seus personagens. Quem não se lembra da última página das revistas da Turma da Mônica, sempre com uma tirinha para nos divertir?


Tirinha do Dia: Turma da Mônica economizando água


A charge, por sua vez, relata um fato de uma época definida, dentro de um determinado contexto cultural, econômico e social específico e que depende do conhecimento desses fatores para ser entendida. Fora desse contexto, ela provavelmente perderá sua força comunicativa, sendo, portanto, perecível. Justamente por esta característica, a charge tem um papel importantíssimo como registro histórico. Uma semelhança a destacar entre esses dois gêneros é que, normalmente, empregam a linguagem informal.

Um recurso muito usado por ambos é a polissemia. Você sabe o que é polissemia? Em conceito geral, pode-se dizer que a polissemia se apresenta quando uma mesma palavra adquire diversos significados ( grego polysemos: poli = muitos, sema = significados). A amplitude semântica do vocábulo é influenciada por fatores como contexto, situacionalidade, enunciado etc.



Veja os exemplos abaixo. Eles irão te ajudar a entender melhor.

Paula tem uma mão para cozinhar que dá inveja! (Habilidade, eficiência)

Vamos! Coloque logo a mão na massa! (Participação, interação mediante uma tarefa realizada)

As crianças estão com as mãos sujas. (Parte do corpo)

Passaram a mão na minha bolsa e nem percebi. (Roubo)

Repare que o significado da palavra mão foi modificando de acordo com o contexto.

Viu como é fácil? E você? Quer colocar a mão na massa também?
Então, vamos para a atividade!

1. Leia a tirinha e responda às questões abaixo:

Leia a tirinha e responda às questões abaixo: Fonte: - Brainly.com.br

a) Para conseguir o efeito humorístico da tira, o autor brincou com a polissemia de qual palavra?



b) Quais são os sentidos que podem ser atribuídos a essa palavra?

quinta-feira, 4 de junho de 2020

O Gênero Textual Charge

Questão 721962 COPEVE UFMS - Revisor (IF MS)/Texto/2013

Observe:

Esta charge faz uma critica à politica do Brasil. Há uma brincadeira com os sentidos das palavras, na lousa está escrito “O eleitor confia na honestidade dos políticos” e quando a professora pergunta ao garoto qual o sujeito da oração, ela se refere a matéria dada na disciplina de Língua Portuguesa, no entanto o garoto responde que o sujeito só pode ser um “mané”, pois ele está se referindo à dificuldade que as pessoas têm em acreditar nos políticos atualmente. 

Mas, afinal, o que é uma charge?

Charge é uma ilustração humorística que envolve a caricatura de um ou mais personagens e é feita com o objetivo de satirizar algum acontecimento da atualidade. As charges são bastante utilizadas para fazer críticas, muitas vezes de natureza política. São normalmente publicadas em jornais ou revistas e conseguem atingir um vasto público. A internet também é uma opção para quem quer acessar esse gênero textual. 

Para interpretar o significado de uma charge, é necessário estar a par dos acontecimentos políticos ou ligado aos costumes (ou ainda "atuais"). Por isso o leitor deve conhecer o assunto a que a charge se refere para poder compreendê-la. Nela, as características físicas das pessoas são quase sempre exageradas (caricatura) para despertar o leitor. As charges promovem uma visão mais crítica dos problemas vigentes na sociedade na qual os alunos estão inseridos. Sem dúvidas, é um recurso atrativo que o professor e o aluno devem explorar, A charge, além de trabalhar a leitura do texto, promove a leitura de mundo, desperta o interesse do aluno e sua capacidade de interpretação, explorando a linguagem verbal e não verbal.




Só para facilitar:

Charge → linguagem verbal (coloquial) + não verbal,

Utiliza recursos como figuras de linguagem, humor e intertextualidade, 

 Promove reflexão crítica,

 Personagens: humanos, animais e objetos.

Agora, que tal praticar um pouco? Então, vamos às atividades!



1. Você deve ter acompanhado a onda de protestos e manifestações que tomaram conta do Brasil este ano. Observando a imagem e as palavras que compõem a charge abaixo, como você poderia explicá-la?

1. Você deve ter acompanhado a onda de protestos e manifestações ...


2. Como você já sabe, um dos objetivos da charge é estabelecer uma crítica.


1) Qual a crítica estabelecida pela charge acima?2) A inscrição no ...

Qual a crítica estabelecida pela charge acima?



quarta-feira, 27 de maio de 2020

O Barroco no Brasil

Aspectos da vida social no Brasil Colônia | Novelas, História ...

O estilo barroco chegou ao Brasil fortemente marcado pelas contradições  que os países católicos europeus estavam vivendo em consequência da Contrarreforma e dos processos de colonização. Alguns dos princípios cristãos se opunham diretamente aos rumos da colonização, condenando, por exemplo, a busca pelo lucro, e acirravam sentimentos conflitantes que caracterizam o Barroco. O marco inicial do Barroco brasileiro é o poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira (versos decassílabos, dispostos em oitava rima, com 94 estrofes), escrito com o objetivo de louvar Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de Pernambuco.

No Barroco brasileiro, as ambiguidades que marcam as tensões da época se fizeram sentir de modo ainda mais notável, em razão, principalmente, do contexto do projeto colonizador português: os homens vinham sós, sem suas esposas, qui se uniam, muitas vezes, a escravas ou a mulheres indígenas, com quem mantinham relações desaprovadas pela igreja. Além disso, a própria ideia de exploração e escravização se afastava dos ideais cristãos. O tempo que tinham para gozar a vida era curto, assim, deviam aproveitar seus dias enquanto estavam afastados da corte portuguesa e de um controle mais rígido por parte da Igreja.

Essas tensões foram captadas pelo mais importante poeta barroco brasileiro: Gregório de Matos Guerra, que nasceu na Bahia em 1623. Gregório era homem de boa formação humanista, doutor pela Universidade de Coimbra. Escreveu poesia lírica, satírica, filosófica e religiosa, e chegou a ser considerado o maior satírico de língua portuguesa.  Seus poemas satíricos lhe valeram o apelido  de "boca do inferno" e levaram-no a colecionar uma série de desafetos pessoais e políticos, motivo de sua deportação para Angola em 1694, de onde regressou um ano antes de morrer, em 1696, no Recife.

É preciso ressaltar que o público do Barroco brasileiro era diferente do público europeu que começava a se formar no século XVII. Aqui, havia poucos homens que sabiam ler e escrever, por isso muitos dos poemas de Gregório de Matos circularam oralmente pela Bahia. Já os sermões de Padre Vieira, outro expoente desse período, não eram escritos para serem lidos, mas para serem ouvidos por uma audiência. Isso facilitava a circulação, já que frequentar as igrejas era praticamente uma obrigação nessa época.

Gregório de Matos satírico

Através da sátira, o poeta critica as autoridades da época, as mulheres de costumes indecorosos, os ricos senhores de engenho, os padres e os comerciantes pouco honestos. 

Para não esquecer

Sua crítica se faz de modo cômico, jocoso, usando uma linguagem popular que não coincide com a linguagem polida dos documentos e textos oficiais do século XVII, como é possível constatar  no soneto a seguir:

Ao casamento de certo advogado com uma moça mal reputada

Casou-se nesta terra esta, e aquele,
Aquele um gozo filho de cadela,
Esta uma donzelíssima donzela,
Que muito antes do parto o sabia ele.

Casaram por unir pele com pele,
E tanto se uniram, que ele com ela,
Com seu mau parecer ganha para ela,
Com seu bom parecer ganha para ele.

Deram-lhe em dote muitos mil cruzados,
Excelentes alfaias, bons adornos,
De que estão os seus quartos bem ornados:

Por sinal, que na porta, e seus contornos,
Um dia amanheceram bem contados,
Três bacias de trampa, e doze cornos.

Gregório de Matos lírico

Nesse tipo de poema o poeta fala de suas fortes paixões e dos sofrimentos por amor.

Os sonetos líricos de Gregório de Matos são bem elaborados. Por ser um bom conhecedor da arte de fazer poesias, expressa seus sentimentos amorosos com grande  habilidade e mestria:

Discreta e formosíssima Maria

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.



Gregório de Matos religioso

O poeta, arrependido, pede perdão de seus pecados; sofre remorso por suas ações apaixonadas e insensatas. Há sempre um conflito entre pecado e perdão. Veja, no poema abaixo, a contraposição dos substantivos "maldade" / "luz", por exemplo:

A N. Senhor Jesus Christo com actos de arrependido e suspiros de amor.

Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.
  
Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.
  
Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
  
Luz, que claro me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus.

Padre Antônio Vieira

O Padre Antônio Vieira nasceu em Portugal em 1608 e veio para o Brasil com apenas 7 anos. Estudou humanidades no Colégio dos Jesuítas e, aos 15 anos, ingressou na Companhia de Jesus. Em 1679, publicou seu primeiro volume de sermões e, em 1680, com a restauração da soberania portuguesa, partiu para Portugal para levar o apoio da Colônia brasileira na luta contra a Espanha.Ele alternou em sua vida momentos de maior ou menor proximidade com a Corte, assim como momentos em que residiu na Bahia, no Maranhão ou em Portugal, com passagens por Roma. Vieira faleceu em 1697 e está enterrado na Bahia.

Vieira escreveu mais de 700 cartas e inúmeros sermões, seus textos mais conhecidos. De um modo geral, seus sermões apresentam três partes: uma introdução, em que o tema bíblico a ser abordado era exposto ao seu público; uma argumentação, em que o tema era desenvolvido, utilizando exemplos, contra-argumentação, imagens poderosas que pudessem realmente convencer as pessoas de seu ponto de vista; e uma conclusão, em que Vieira buscava fazer com  que seus fiéis seguissem as ideias trabalhadas por ele. Como se vê , é uma estrutura argumentativa, que busca convencer seu público de sua tese, seu ponto de vista sobre determinado assunto. Como o sermão era falado, era necessário usar estratégias para que o público acompanhasse o raciocínio desenvolvido  pelo orador. Uma das estratégias usadas por Vieira em seus sermões era a técnica da disseminação  e da recolha. Na disseminação, ideias eram levantadas, questionadas, muitas vezes por meio de perguntas que ele dirigia ao público e deixava sem respostas.  Na recolha, essas questões eram retomadas e respondidas de modo assertivo e bem fundamentado, segundo a Bíblia, aumentando o poder de convencimento do sermão. 

Há todo um contexto da época a ser levado em conta que torna  mais claras as escolhas do do padre na elaboração de seus sermões. Neles podem ser observados referências a pessoas a quem pôde ou quis defender, as lutas políticas que travou e o seu investimento pessoal na crença de que Portugal seria a nação escolhida para se sobressair sobre as demais nações e governá-las. Assim, Vieira defendeu o indígena da escravidão pura e simples pelos colonos, pois os queria aldeados e convertidos, sob o controle dos jesuítas. Numa carta escrita ao rei D. Afonso VI em 1657, Vieira assim se manifestou contra o extermínio e a dominação dos indígenas brasileiros:

As injustiças e tiranias, que se têm executado nos naturais destas terras, excedem muito às que fizeram em África. Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertão mais de dois milhões de índios, e mais de quinhentas povoações como grandes cidades, e disto nunca se viu castigo. Proximamente, ao ano de 1655, se cativaram no rio Amazonas dois mil índios, entre os quais muitos eram amigos e aliados dos portugueses, e vassalos de Vossa Majestade, tudo contra a disposição da lei que veio naquele ano a este Estado, e tudo mandado obrar pelos mesmos que tinham maior obrigação de fazer observar a mesma lei; e também não houve castigo: e não só se requer diante de V.M. a impunidade destes delitos, senão, licença para os continuar.
(Pe. Antônio Vieira. Carta a el-rei D. Afonso VI, 1657.)

Vieira também foi sensível aos maus tratos sofridos pelos negros escravos, mas entendia a escravidão como necessária para o bom sucesso do empreendimento ultramarino português. Na impossibilidade política de conseguir  a libertação dos escravos africanos, em consequência das forças políticas atuantes na época, enxergava a possibilidade de conversão dos negros como uma oportunidade de salvação de suas almas e de recompensa celeste dos trabalhos penosos sofridos em vida. Opôs-se às perseguições aos judeus, ao confisco de seus bens, às prisões e torturas praticadas pelo Santo Ofício, mas seus interesses humanitários se casavam com interesses práticos: a dependência dos capitais dos judeus para o empreendimento colonial português, por exemplo.

O papel da Igreja e dos sermões no século XVII

No século XVII, a Igreja não tinha apenas uma função religiosa e espiritual. Desempenhava também papel fundamental na vida social e cultural, especialmente no Brasil Colônia. As missas  eram espaços de encontro e socialização e muitos namoros se iniciavam nas igrejas, numa época em que havia poucos espaços  permitidos para a circulação feminina. Por sua vez, os sermões cumpriam um papel político importante. Por meio deles, o público (tanto o mais culto, como o analfabeto)se informava sobre os fatos do mundo. Assim, o sermão não era apenas uma fala religiosa, mas também um texto de caráter retórico e características literárias, em que os padres expunham as ideias debatidas na época e argumentavam a respeito delas.

Leia o excerto do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira (1608-1697).

Navegava Alexandre [Magno] em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: “Basta, Senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades, e interpretar as significações, a uns e outros, definiu com o mesmo nome: [...] Se o rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Sêneca, não me admirei tanto de que um filósofo estoico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero; o que mais me admirou, e quase envergonhou, foi que os nossos oradores evangélicos em tempo de príncipes católicos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina. Saibam estes eloquentes mudos que mais ofendem os reis com o que calam que com o que disserem; porque a confiança com que isto se diz é sinal que lhes não toca, e que se não podem ofender; e a cautela com que se cala é argumento de que se ofenderão, porque lhes pode tocar. [...]


Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria ou escusa ou alivia o seu pecado [...]. O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões de maior calibre e de mais alta esfera [...]. Não são só ladrões, diz o santo [São Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.

(Essencial, 2011.)

No segundo parágrafo, Antônio Vieira torna explícito seu descontentamento com:

A) o filósofo Sêneca.

B) os príncipes católicos.

C) o imperador Nero.

D) a doutrina estoica.

E) os oradores evangélicos.


















sexta-feira, 15 de maio de 2020

Texto literário e não literário

A Plurissignificação da Linguagem Literária - ppt video online ...

Você já pensou o que faz um texto ser literário e outro não? Embora a literatura se manifeste fundamentalmente por meio da palavra escrita, nem tudo que é escrito pode ser considerado como literatura, no sentido estético, ou seja, que desperta emoções, chama atenção pela beleza.

O texto literário é formado por palavras polivalentes, plurissignificativas, ou seja, que podem ter mais de um significado. Sua base é a conotação, quando a palavra é utilizada com sentido diferente daquele que lhe é comum.

Os contos, o poema, o romance, peças de teatro, novelas, crônicas são exemplos de texto literários.

A linguagem não literária é a utilizada com o seu sentido comum, empregada denotativamente, é a linguagem dos textos informativos, jornalísticos, científicos, receitas culinárias, manuais de instrução etc.

Sendo assim, podemos concluir que o texto literário tem uma função estética e o texto não literário tem uma função utilitária, como por exemplo, informar sobre a realidade e documentar os fatos.

O texto que você ler foi escrito pelo Padre José de Anchieta, missionário jesuítico que escreveu vários textos de cunho religioso, inclusive poemas líricos.




Texto 

Em Deus, meu Criador

Não há coisa segura. 
Tudo quanto se vê
se vai passando.
A vida não tem dura. 
O bem se vai gastando.
Toda criatura
passa voando.
Em Deus, meu criador,
está todo meu bem
e esperança,
meu gosto e meu amor 
e bem-aventurança.

Quem serve a tal Senhor
não faz mudança. 
Contente assim, minha alma, 
do doce amor de Deus
toda ferida,
o mundo deixa em calma,
buscando a outra vida,
na qual deseja ser
toda absorvida.
[...]

(ANCHIETA, José de. In: MARTINS, M. de L. de Paula (Trans., trad. e notas). Poesias. Belo Horizonte/ São Paulo: Itatiaia/ Editora da Universidade de São Paulo, 1989. p. 402 (fragmento).


1. Pensando nas explicações lidas, você diria que o texto acima é literário ou não literário?


2. Releia os versos retirados do texto: “Toda criatura/ passa voando.” É possível dizer que essa expressão tem sentido figurado, conotativo? Explique.



quinta-feira, 7 de maio de 2020

Atividades (Denotação/Conotação)


Leia atentamente a tira a seguir e responda às questões.

ATIVIDADE COMPLEMENTAR DE L. PORTUGUESA - PDF Free Download
1.

 A  tira  nos  apresenta  uma  personagem  que  vai  consultar  o  Livro  dos  provérbios  para  descobrir  o que significa a expressão “Quem tem boca vai a Roma”.

a)  Qual é o sentido usual atribuído a esse provérbio?
b)  A resposta encontrada pela personagem confirma esse sentido? Por quê?
c)  É possível interpretar a resposta encontrada de modo figurado. Explique.



********


2.

 A linguagem utilizada em um texto está organizada em torno do eixo denotativo ou conotativo. Com base nos textos 1 e 2, transcritos a seguir, faça o que se pede.

a) Identifique se o uso da linguagem, em cada um deles, foi conotativo ou denotativo.
b)Explique a razão de sua "classificação".


Texto 1

Uma escrita secreta só para mulheres

"Durante séculos proibidas de ler e escrever, as mulheres da província chinesa de Jiangyong acabaram por desenvolver seu próprio sistema secreto de escrita.
Vivendo sob o controle dos homens — em casamentos arranjados e violentos —, elas criaram o Nu Shu, que significa “escrita feminina”, para poder se comunicar e se ajudar por meio de poemas, narrativas e canções, às vezes bordados em panos. Baseados no chinês tradicional, os caracteres foram mudados de modo a ter novos significados e eram traçados de maneira delicada. O vocabulário foi extraído de um dialeto local. Hoje, poucas mulheres são capazes de ler e escrever Nu Shu, mas o governo já se comprometeu a destinar recursos para um museu e a feitura de um dicionário como forma de preservar a escrita."

National Geographic Brasil. São Paulo: Abril, ano 4, n. 37, maio 2003. (Fragmento).

Texto 2

"O vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício." 

("Amor", Clarice Lispector, Laços de Família)


esse provérbio?
b)
confirma esse sentido
?
Por quê
?
c)
É possível interpretar
a resposta encontrada de
modo figurado
.
Explique.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Denotação e Conotação

ENGENHEIRO CIVIL BOA SORTE !
A tira apresenta uma sala de aula na qual a professora faz uma pergunta a seus alunos: "Quem foi a primeira mulher a ir para o espaço?". A resposta dada  pelo Joãozinho ("Minha tia Alice") surpreende  a professora que lhe pede maiores explicações ("Sua tia Alice, Joãozinho? Como assim?"). A resposta que ele dá  ("O bujão  de gás explodiu na cara da coitada") é uma boa "pista" para compreendermos  por que a professora ficou confusa e também por que o aluno deu uma resposta tão inesperada.

No contexto escolar,. imagina-se que a professora gostaria de saber quem foi a primeira mulher a sair da Terra em uma nave espacial. Em outras palavras: quem foi a primeira mulher astronauta? Nesse sentido, "ir para o espaço" significa exatamente sair da Terra em uma espaçonave. É o que se chama de interpretação literal (as palavras são interpretadas de acordo com o seu sentido básico.

A interpretação dada por Joãozinho à expressão "ir para o espaço" não foi, porém, a que esperava a professora. Ele supôs que a professora estava falando em sentido figurado. "Ir para o espaço", nesse caso, significaria morrer. Por isso ele explica que a tia foi para o espaço porque um botijão de gás explodiu em sua cara.

A intenção do autor da tirinha é provocar o riso com o duplo sentido da  expressão "ir para o espaço". Ao ler essa tira, rimos de uma personagem que não soube escolher corretamente entre o sentido literal e o sentido figurado da frase; nas tirinhas, nas piadas e nos textos humorísticos em geral, equívocos desse tipo são frequentes. Na vida, não. Aprendemos, desde cedo, a escolher a melhor interpretação a partir da análise do contexto em que uma determinada palavra (ou expressão) é utilizada. 

Essas observações nos ajudam a perceber a diferença entre sentido literal e sentido figurado.

Para não esquecer

O sentido literal é aquele que pode ser tomado como sentido "básico" de uma palavra ou expressão, o que pode ser apreendido sem ajuda do contexto. .

O sentido figurado é aquele  que as palavras ou expressões adquirem , em situações particulares de uso, em decorrência de uma extensão do seu sentido literal.

 As palavras e enunciados de uma língua natural operam em dois eixos de significação: o eixo denotativo ou referencial e o eixo conotativo ou afetivo.

Denotação 

Uma palavra ou enunciado   tem valor denotativo quando se apresenta em seu sentido literal, ou seja, aquele que corresponde à primeira significação atribuída às palavras nos dicionários da língua.

Esse sentido comum ou usual das palavras e enunciados costuma caracterizar os chamados textos informativos. Observe, por exemplo, que é denotativo o valor das palavras no texto que segue, pois seu autor quer transmitir uma informação objetiva sobre o risco de escassez de água potável na Terra.

“A água evapora dos oceanos, cai sobre a terra, aflui para os rios e escorre de volta para o mar – e parece, assim, ser um recurso ilimitado. Mas apenas 2,5 % da água do planeta é doce e a maior parte dela está congelada nos pólos. Assim, de toda a água doce existente, apenas 0,6 % pode ser utilizada. Para piorar, mudanças climáticas podem alterar a distribuição dos locais e dos períodos de cheias, e a elevação do nível dos mares pode tornar salobra a água doce dos litorais.[... ]

Cada pessoa necessita de pelo menos meio metro cúbico de água limpa por dia, para beber, cozinhar e manter a higiene pessoal. Mas um sexto da população mundial tem de se contentar com menos do que isso.”

O fantasma da sede. National Geographic Brasil.n.12.Abril, 2001.v.1



Conotação

Uma palavra ou enunciado tem valor conotativo ou afetivo quando seu sentido não é tomado literalmente, mas é ampliado e modificado, com objetivo de provocar um efeito particular, em um contexto específico de interlocução.

Pelas suas características peculiares, não só a linguagem literária em prosa, mas também a\poesia, a linguagem da propaganda e a linguagem do humor costumam ter um sentido predominantemente conotativo. São frequentes, nesses textos, as alusões e os duplos sentidos.

Vale mencionar um tipo particular de discurso, os chamados provérbios ou ditos populares, que condensam, em textos brevíssimos, ensinamentos ou lições de vida característicos da sabedoria popular de uma cultura. A linguagem dos provérbios é predominantemente conativa. Veja os exemplos:

Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

"Traduzindo": o sofrimento alheio não faz com que soframos, porque não nos afeta.

Camarão que dorme, a onda leva. / Bobeia na praça que o jacaré te abraça.

"Traduzindo": se não estiver atento para o que acontece a sua volta, você será passado para trás.

Quem semeia vento, colhe tempestade. /  Quem procura, acha.

"Traduzindo": as pessoas arcam com as consequências dos próprios atos.