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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Marília de Dirceu: Parte I - Lira I

Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
....................................................................



Vocabulário:

Alheio: de outras pessoas.

Tosco: rude, rústico.

Dos: pelos.

Casal: sítio, pequena propriedade rural, moradia própria.

Trato: tratamento.

Assisto: resido, moro.

Semblante: rosto, fisionomia.

Inda: ainda.

Cortado: enrugado.

Cajado: bastão de apoio nas caminhadas.

Destreza: habilidade.

Concerto: harmonizo com, entro em concerto com.

Dotes: bens.

Ventura: felicidade.

Apreço: valor.

Segura: garante.


A poesia lírica é a parte mais conhecida da produção literária de Tomás Antônio Gonzaga. São popularmente conhecidos, principalmente na região de Minas Gerais, os amores entre Dirceu (pseudônimo pastoral de Gonzaga) e Marília. Até mesmo na literatura de cordel esse tema já foi explorado.


O longo poema de amor que é Marília de Dirceu acha-se dividido em pequenas unidades chamadas liras. Este nome, na antiguidade, era aplicado para designar o instrumento musical com que se entoava a melodia que acompanhava o poema. Em inglês, ainda hoje, o termo lyrics designa a letra de uma canção. Na literatura de língua portuguesa, o nome lira é usado praticamente só para os poemas líricos de Tomás Antônio Gonzaga.


A Lira I, que abre a obra Marília de Dirceu, é quase uma profissão de fé do poeta-pastor: aí está um indivíduo conformado com a sua sorte, convicto de seu papel, realizando o ideal da áurea mediocridade (um ideal de vida equilibrada, sem excessos e associada à natureza, conforme a concebeu o poeta latino Horácio: ´´fugere urbem ut vivere in áurea mediocritate``).


A primeira característica que chama a atenção logo no início do texto é a paisagem campestre evocada pelo poeta, que fala de vaqueiro, gado, ovelha etc. Observe que o poeta-pastor está inteiramente de dedicado à natureza. Por outro lado, é interessante notar que o poeta se ´´defende`` de alguma coisa. A posição defensiva foi mais de uma vez apontada como insegurança de Gonzaga quanto à sua posição social face a Marília (Maria Dorotéia), pertencente a uma das principais famílias de Minas.


A linguagem busca um tom sereno, aproximando-se da expressão coloquial. Entretanto, os preceitos de metrificação não foram esquecidos. A estrutura do poema obedece a uma regularidade formal ao longo de todo o trecho: as estrofes são constituídas de dez versos, os oito iniciais decassílabos e os dois últimos (refrões ou estribilhos) hexassílabos, isto é, com seis sílabas métricas. O esquema rimático apresenta rimas alternadas e opostas (ABABCDDC) nos oito versos iniciais de cada estrofe, sendo que nos refrões há a conjugação de sons, ligeiramente desiguais. As palavras bela e estrela constituiriam uma rima imperfeita, porque a vogal e tem aí timbres diferentes: aberto em bela e fechado em estrela.


Embora se trate, como estamos vendo, de um poema regular, a quebra dos versos decassílabos através do refrão não só facilita a leitura, aproximando o texto de uma canção, ou seja, tornando-o musical, mas também instaura um momento lírico cuja repetição enfatiza o sentimento amoroso: sentimento que associa a imagem de Marília à de uma estrela.


Na primeira estrofe, o eu lírico faz um auto-retrato no qual se coloca como pastor, de acordo com as convenções arcádicas. Observe como o eu lírico, Dirceu, faz uma série de afirmações no sentido de estabelecer claramente a sua condição de superioridade social: ´´não sou vaqueiro que cuide do gado alheio, meu rosto não é grosseiro, nem queimado pela exposição às forças da natureza; tenho casa própria, moro nela, tenho bens de que me sustento (vinho, legume, fruta, azeite, leite, finas lãs)``, o que sugere tratar-se de ´´alguém``, um pastor abastado merecedor, portanto, do amor de Marília. Aqui encontramos a valorização dos bens materiais, conjugada com a presença da natureza como cenário poético. Quer dizer, a presença da ideologia burguesa, conjugada com o bucolismo e o pastoralismo que caracterizam o Arcadismo.


Na segunda estrofe, mantêm-se os elementos arcádicos (fonte, pastores, monte, cajado, sanfoninha (representa a lira do poeta). Além de afirmar sua juventude, Dirceu compara seus dotes artísticos aos dos outros pastores que habitam o mesmo monte (referência aos demais poetas árcades). O que Gonzaga sugere, nessa passagem, é muito claro: é melhor poeta que seus companheiros. Note que o tom comparativo do verso insinua, mais uma vez, a superioridade de seu talento literário. ´´Alceste``, no caso, seria Cláudio Manuel da Costa, já que esse é um dos pseudônimos árcades que adotou. O fato de despertar a inveja de Cláudio, a quem admirava, significa, para Gonzaga, o reconhecimento de sua competência poética.


Depois de deixar clara sua condição privilegiada, o eu lírico enfatiza outro aspecto importante: sem o amor de Marília (identificada como ´´gentil pastora``), de nada valem propriedades, juventude, talento. Se todos esses atributos são importantes, o ´´agrado`` de Marília vale mais que a riqueza (rebanho) ou o poder (trono).


Finalmente, a quarta estrofe é dedicada a Marília: a seus olhos de luz divina, as suas faces cobertas por papoila, ou rosa delicada, aos fios de ouro de seus cabelos, ao lindo corpo que vapora bálsamos...


Se o poeta primeiro aparece como ´´senhor``, na medida em que vai revelando o seu amor, vai passando de senhor a ´´servo``. Isso porque Marília (nome de pastora, de acordo com a mitologia clássica) incorpora também a imagem da ´´mulher-anjo``, a Senhora, a ´´estrela`` da tradição medieval, uma imagem a quem o poeta presta vassalagem amorosa, mas a quem, ao mesmo tempo, sabiamente procura convencer de suas qualidades.


As liras de Gonzaga refletem não apenas os amores de Marília e Dirceu, mas todas as suas experiências vividas em terras mineiras e o ideal de ´´áurea mediocritas``, o ideal de uma existência tranquila, sem extremos. Sobretudo na Parte II, correspondente às liras escritas no cárcere, avultam poemas, em que o poeta se torna o centro de suas preocupações, e, por outro lado, expressam uma forte confiança em sua própria conduta. Manifestação poética do gênero lírico, Marília de Dirceu reflete circunstâncias da própria vida do poeta, expressando o seu ´´eu``, que consiste numa revelação sincera e minuciosa de seu modo de ser. Nesse sentido, muitas vezes a figura de Marília aparece como pretexto, apenas, para Dirceu manifestar experiências pessoais. Assim, de uma certa forma, atinge a temática romântica. Gonzaga torna-se um poeta pessoal, e ´´mais do que cantor de Marília, ele é cantor de si mesmo``. E, assim, ´´a sua grande mensagem é construída em torno dele próprio``, conforme Antônio Candido em Formação da Literatura Brasileira.

12 comentários:

  1. adoro ler poemas e em seguida a análise! :)
    muito bom!
    Meus Parabéns! :)

    -

    http://palavracontemporanea.blogspot.com/

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  2. Blog bem cult. Gostei e vou seguir.

    http://popularitybystrike.blogspot.com/2010/04/nao-me-leve-mal-wanessa-sem-camargo.html

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  3. Eu tinha uma professora que era fissurada na Marília de Dirceu.. estudamos muito sobre as cartas e etc... Muito legal o seu blog.. bem informativo e a análise é ótima para quem quer saber um pouco mais .. ou para os vestibulandos.

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  4. O Antonio Candido é cabeção, não é atoa que se tornou cânone.
    A obra é bonita, seu texto está bem escrito, mas eu sinto falta de muita coisa nestas poesias e na literatura brasileira.Não sei se é por que eu curso C. Sociais, eu imagino que a partir do Machado de Assis, ou talvez entre os modernistas é que o Brasil vai começar a tomar cara. O romantismo no Brasil é uma piada, bem feita, belas obras, não da para negar. Mas só de pensar que a idéia é desfragmentar as caras, hoje, as vezes eu penso que estou falando besteira quando sinto falta da cara do Brasil, ainda sim concordo, o Brasil é grande demais pra ter uma identidade, qualquer dúvida escreve algo pra mim.
    http://www.porumaportaiconoclasta.blogspot.com/

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  5. Adorei o blog.Tirei todas as minhas dúvidas!!!!!Parabens.

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  6. eu queria a analise da lira XXIII(parte I )Marilia de dirceu

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  7. Estou fazendo faculdade de Letras - Tradução e Intérprete, e estamos estudando os poemas de Tomás Antônio Gonzaga nas aulas de Literatura Brasileira.
    Realmente este blog caiu do céu. Agora ficou bem mais fácil de entender todas as poesias, não só as árcades!
    Só digo que gostaria de ter encontrado o blog semestre passado, quando estudamos Gregório de Matos!

    Meus parabéns!
    Tudo é excelente! :D

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  8. Mto Legal..'
    Só num espero fazer outro trabalho desses mto Complexo [/apesardeestarno1ºano, mas mtoo obrigado pela ajuda..'
    Beiijûs*
    Mª Franciana

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  9. Estou no primeiro ano do ensino médio e Marília de Dirceu está sendo abordado em sala de aula, pena que meu professor não explica tão bem como você. Sucesso pra você e parabéns!

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  10. vou voltar aqui Nelson, não para me redimir da minha longa ausência [sem perdão ...:)], mas porque me sabe muito bem aprender contigo, o que exige disponibilidade de tempo absoluta.
    e não é que não a tenha nunca, mas sim porque me vou perdendo por aqui e por ali... e acabo "estendida ao lado do sono...", plagiando Al Berto.
    :)) beijo.

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