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sábado, 13 de março de 2010

Análise do poema: Epílogos



Conhecido também como ´´ Boca do Inferno``, em razão de suas sátiras, Gregório de Matos representa uma das veias mais ricas e ferinas de toda literatura satírica em Língua Portuguesa. A exemplo de certos trovadores da Idade Média, o poeta não poupou palavrões em sua linguagem nem críticas a todas as classes da sociedade baiana de seu tempo. Criticava o governador, o clero, os comerciantes, os negros, os mulatos, os colonos, os bacharéis, os degradados lusos que vinham para o Brasil e aqui enriqueciam etc.

O poder corrupto não escapou à mira do poeta: crítica, de forma impiedosa, a incompetência, a promiscuidade e a desonestidade, sem perder a noção do jogo com as palavras, característica, afinal do Barroco.

Quando retorna ao Brasil, já quarentão, em 1682, Gregório de Matos encontra uma sociedade em crise (principalmente com a fome que se abatia sobre a cidade). A decadência econômica torna-se visível: o açúcar brasileiro enfrenta a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas e seu preço desaba. Além disso, uma nova camada de comerciantes (em sua maioria, portugueses) acumula riquezas com a exportação e importação de produtos. Esta nova classe abastada humilha aqueles que se julgam bem nascidos, mas que, dia após dia, perdem seu poder econômico e seu prestígio.

Em ´´Epílogos``, ele retrata a paisagem moral de Salvador, Bahia, nossa capital na época colonial. Mudando a palavra cidade para país, teremos a paisagem moral atual em alguns dos versos do poeta:


Torna a definir o poeta os maus modos de obrar na governança da Bahia, principalmente naquela universal fome, que padecia a cidade.
Epílogos

Que falta nesta cidade?................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?.............Ambição
E o maior desta loucura?...............Usura.

Notável desventurade um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?....Pretos
Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda?.............Bastarda
É grátis distribuída?.....................Vendida
Que tem, que a todos assusta?.......Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia?..................Simonia
E pelos membros da Igreja?..........Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?.........Freiras
Em que ocupam os serões?............Sermões
Não se ocupam em disputas?.........Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?..................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu
Logo já convalesceu?.....................Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?...................Não pode
Pois não tem todo o poder?...........Não quer
É que o governo a convence?........Não vence.

Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

Vocabulário

Socrócio – emplastro, alivio, bálsamo ( o poeta usou-o no sentido antitético, irônico).
Círios – sacos de farinha (a grafia correta é sírios).
Simonia – venda de coisas sagradas.
Unha – roubalheira, avareza, tirania, opressão.
Caramunha – lamentação experiente.
Manqueiras – vícios, defeitos.


Comentários sobre o poema

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Poema constituído de estrofes que lembram a tradição medieval, na medida em que possuem sete sílabas métricas (redondilha maior). Cada estrofe inicia-se com perguntas retóricas, isto é, falsas perguntas, ironicamente respondidas pelo próprio poeta. Esse procedimento parece dar um certo didatismo ao poema, didatismo reforçado pelo processo de disseminação e recolha, muito comum na poesia barroca.

Primeiro, as palavras se disseminam, se dispersam nos versos para depois serem recolhidas , reunidas num mesmo verso. Assim, há um tom conclusivo no final das estrofes. Conclusão que abrange desde valores morais (verdade, honra, vergonha) abstratos até os motivos concretos da degradação destes valores ( negócio, ambição, usura) e seus principais agentes: pretos, mestiços,meirinhos, guardas, sargentos (observe que a leitura vertical dos três primeiros versos iguala-se a leitura horizontal do sétimo, criando um mecanismo sucessivo até o final do poema).

Além dos tipos sociais, Gregório de Matos denuncia as instituições: começando por El-Rei, que nos dá de graça uma ´´justiça`` corrompida, a ponto de andar bastarda, vendida, injusta, e terminando com a Igreja a quem acusa de simonia ( tráfico de coisas sagradas, espirituais), inveja, unha (roubalheira). Também é implacável com os frades, que a seu ver se ocupam de freiras, sermões e putas...Como vemos, do alto da pirâmide social à ralé, dos ´´donos do poder`` aos mestiços, todos são responsáveis, ninguém é poupado.

As estrofes se assemelham do ponto de vista formal, indicando a regularidade do poema, o que também ocorre do ponto de vista das rimas (nos três primeiros versos. rimas horizontais; nos quatro restantes, rimas verticais — ABBA) e de sua disposição gráfica: estrofes de três versos seguidas de estrofes de quatro versos, sendo o último uma condensação do conjunto de sete versos que compõe cada esquema duplo de estrofes.

Em termos de conteúdo, as estrofes também se assemelham: do abstrato para o concreto (verdade, honra, vergonha... negócios, ambição, usura), dos tipos sociais às instituições, do povo néscio a El-Rei, da Santa Fé aos frades. Gregório de Matos vai decompondo a organização de uma sociedade que nos parece tão barroca quanto o poema: ´´os jogos`´ de todos, que se nivelam ´´por baixo``. Seu ´´juízo anatômico`` reflete-se nas antíteses utilizadas: desonra/honra; grátis/vendida; cai/cresce; baixou/subiu; nobre/mísera e pobre.

A coloquialidade da linguagem, o uso de termos considerados ´´de baixo calão``, o tom de oralidade e principalmente a arrasadora crítica que faz às desigualdades, às imposturas, às vilanias, projetam no tempo este ´´trovador``, lançam-no às nossas atuais perplexidades, causando a impressão incômoda de que não é tão distante o barroquismo da sua indignação, e da situação social e política que a deflagra com tanta veemência.

Gregório de Matos, ao abrir espaço para a paisagem local e a língua do povo, talvez seja a primeira manifestação nativista de nossa literatura e o início de um longo despertar da consciência crítica nacional, que levaria ainda um século para abrir os olhos.

4 comentários:

  1. Parabéns pela análise do poema do "Boca do inferno", consegui fazer uma interpretação real apatir do significado das palavras postas no texto. Sou acadêmica do curso de Letras e estamos trabalhando o Barroco neste momento.

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  2. Me fez retornar ao meu período ginasial, no Instituto N.S.das Dores-RJ, em minhas aulas de Português/Literatura.. Parabéns pelo blog!

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  3. Estou muito grata com a crítica, pois me ajudou a entender melhor o poema do grande poeta Gregório.

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