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sábado, 26 de março de 2016

À cidade da Bahia – Gregório de Matos



Triste Bahia! Ó quão dessemelhante 
Estás e estou do nosso antigo estado! 
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, 
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante, 
Que em tua larga barra tem entrado, 
A mim foi-me trocando, e tem trocado, 
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente 
Pelas drogas inúteis, que abelhuda 
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente 
Um dia amanheceras tão sisuda 
Que fora de algodão o teu capote!


Vocabulário
Bahia – cidade de Salvador
estado – situação, condição de vida
empenhado – endividado
trocar – nos dois sentidos: comerciar e mudar
máquina mercante – as naus do comércio
deste em dar – principiaste, começaste a dar
dessemelhante - diferente
simples – droga, remédio
brichote – estrangeiro ( pejorativo)
sisuda – ajuizada, modesta
capote – capa larga e longa

Gregório de Matos Guerra (1636 – 1696) nasceu na Bahia, estudou em colégios jesuítas de Salvador e se formou em Direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal, onde trabalhou como jurista e conheceu a produção literária de sua época. Em 1682, retornou à Bahia, assumindo o cargo de tesoureiro-mor da Sé. Doze anos depois, em função dos poemas satíricos contra governantes da Bahia, foi deportado para Angola, de onde voltaria apenas um ano antes de morrer, estabelecendo-se no Recife.

Como Gregório não publicou  livros em vida  seus poemas circulavam sobretudo oralmente e em cópias manuscritas  e há muita dificuldade em identificar sua obra, ela só veio a ser amplamente conhecida no século XVIII, por meio de cópias feitas por diferentes pessoas, sem nenhum rigor. Atualmente, vários poemas presentes nesses códices têm sua autoria contestada e atribuída a outros poetas.

Independentemente da legitimidade dessa autoria, Gregório é hoje a assinatura poética de uma obra numerosa, variada e rica, que abrange poesia lírica, religiosa, encomiástica e satírica, revelando grande desenvoltura nos jogos de linguagem e de idéias tão cultuados pela literatura barroca.

Comentários

A poesia satírica é muito provavelmente a parte mais popular da obra de Gregório de Matos. Pelas críticas frequentes e impiedosas a políticos (algumas de caráter pessoal) e à organização social da Bahia e da Colônia de um modo geral, o poeta ficou conhecido pelo apelido de “Boca do inferno”.

Em “À cidade da Bahia”, o poeta critica a exploração da Bahia por comerciantes estrangeiros, especialmente os ingleses, ação que opera uma transformação tanto no lugar quanto na vida dele.


Sendo uma obra conceptista, esse soneto desenvolve o pensamento de modo engenhoso, exigindo do leitor um maior esforço para a compreensão pelo refinado jogo intelectual de paradoxos e sutilezas lógicas. Observe sua estrutura:

• nos dois quartetos, o poeta compara  as transformações de sua vida com as da vida da cidade.O paralelismo dos versos e das construções sintáticas, os jogos de palavras e as antíteses atribuem densidade expressiva à comparação.

• nos tercetos, o poeta ocupa-se apenas da cidade No primeiro, formula uma explicação para o atual estado em que ela se encontra. No segundo, indica uma solução, exprimindo o desejo de que ela passe a ter um estilo de vida mais simples.

A estruturação conceptista do poema não impede, entretanto, os recursos expressivos próprios do cultismo, como o uso intensivo de aliterações.


Atividades propostas

No soneto, a Bahia, personificada, é objeto das recriminações do poeta, como frequentemente ocorre em seus poemas satíricos.

1 – Nas duas primeiras estrofes, ele faz um paralelo entre a sua vida e a da cidade, descrevendo as transformações que ambas sofreram.
a) Qual era a antiga situação de suas vidas?
b) E a situação presente?

2 – A antítese é uma das figuras de linguagem mais utilizadas pela literatura barroca.
a) Liste as antíteses utilizadas por Gregório de Matos e indique a que tempo (passado ou presente) cada palavra se refere.
b) O que revela o uso intenso da antítese no poema?

3 – A vida do poeta foi mudada pelos maus negócios e pelos negociantes mais espertos que ele. A que ele atribui às mudanças de estado da cidade?

4 – Releia a terceira estrofe e responda: segundo o poeta, por que a Bahia, na época a maior exportadora mundial de açúcar, tinha tanto prejuízo no comércio internacional?

5 – Na última estrofe, ele formula um desejo, exprimindo-se por meio da metáfora do “capote de algodão”. Explique o desejo do poeta e a importância da metáfora na composição do poema.





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