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O inconfidente Claudio Manuel da Costa, ou Glauceste Satúrnio, foi um poeta de transição do Barroco para o Neoclassicismo. Seus poemas apresentam características de um e de outro estilo. As Obras Poéticas, que publicou em 1768, são consideradas como marco inicial do Neoclassicismo no Brasil. Repare que o estilo chega bem atrasado à nossa terra, já na segunda metade do século XVIII. Isso vai acontecer com outros estilos também: só depois que se firmam na Europa é que chegam a nós. O atraso, entretanto; não diminui sua importância. Cláudio fez questão de deixar em seus poemas espaço para Minas Gerais, a terra que ele amava. Escreveu um poema épico, Vila Rica, de valor mais histórico do que literário, pelas informações sobre a descoberta das minas, a fundação da cidade e as primeiras revoltas do lugar, como também poemas líricos em que a presença da natureza mineira é marcante. Leia, por exemplo, este belo soneto em que o poeta fala do rio de sua terra, repleto de ouro e alvo de cobiça, muito diferente dos tranquilos rios de Portugal. Leia a posteridade, ó pátrio Rio, Em meus versos teu nome celebrado; Por que vejas uma hora despertado O sono vil do esquecimento frio: Não vês nas tuas margens o sombrio, Fresco assento de um álamo copado; Não vês ninfa cantar, pastar o gado Na tarde clara do calmoso estio. Turvo banhando as pálidas areias Nas porções do riquíssimo tesouro O vasto campo da ambição recreias. Que de seus raios o planeta louro Enriquecendo o influxo em tuas veias, Quanto em chamas fecunda, brota em ouro. Vocabulário: Planeta louro: o sol. Influxo: o equivalente a maré-cheia, no rio. O texto transcrito corresponde ao soneto II das Obras de Cláudio Manuel da Costa, apresentando versos de dez sílabas, chamados decassílabos, com rimas opostas (esquema ABBA), nos quartetos e alternadas (esquema CDCDCD), nos tercetos. É interessante notar, nas estrofes iniciais, como o eu lírico procura demonstrar que, embora não apresente as características comuns ao lócus amoenus árcade, a natureza pátria também é digna de ser celebrada. O imperativo ´´Leia``, que abre o poema, revela a celebração do ´´pátrio Rio``. Comentários sobre o poema Para receber o conteúdo completo (análise do poema), entre em contato através do e-mail: literaturacomentadablog@gmail.com Obs: Este Blog não possui patrocinadores. Contribua para mantê-lo atualizado.
Sendo assim, a 1ª estrofe apresenta o eu lírico dirigindo-se ao rio de sua terra natal ( o Ribeirão do Carmo, que passa por Mariana), comunicando-lhe que vai tomá-lo como motivo poético, o que fará com que ele, rio, seja conhecido pela posteridade e, portanto, resgatado do esquecimento( porque ninguém o celebrara ainda , antes dele). Celebrando o pátrio Rio (observar o hipérbato, ou seja, a inversão sintática do período, no 2º verso), pretende-se despertá-lo do sono vil (uma metáfora da morte) do esquecimento frio.
A 2ª estrofe se inicia e se desenvolve através de um processo negativo. Mostra que o rio de sua terra não integra uma paisagem poética típica da poesia arcádica européia. Efetua a comparação das ribeiras (margens) do Ribeirão do Carmo situado no espaço de Minas, com as ribeiras de outros dois espaços: o da Europa, representado por ´´álamo copado`` e o da Arcádia, representado por ´´ninfa``. Percebe-se, inicialmente, que a natureza brasileira está destituída de qualquer ideário mitológico e não funciona como palco para uma paisagem demasiadamente bucólica.
Após a definição negativa do campo mineiro, dada na segunda estrofe, que diz o que não é, vem a definição da característica principal de Ribeirão do Carmo: a extração do ouro (um lugar em que se ceva e se satisfaz a ambição de enriquecimento). Surge aí a contraposição antitéticas entre os valores materiais (ouro) e imateriais (cultivo da poesia). Logo, na 3ª estrofe, fica clara a razão para que o ´´pátrio Rio`` permaneça na lembrança, eternizado na poesia: em suas águas esconde-se o ´´riquíssimo tesouro``.
Por pertencer a uma época de transição, o poeta não se livra tão facilmente dos vestígios da moda literária do século precedente. Na última estrofe, o poeta expressa seus sentimentos através de imagens, que remetem o leitor ao paralelo entre a intensidade dos raios do sol e dos reflexos do ouro, num recurso à analogia de basesensorial, típica do Barroco, tendo como desfecho um jogo metafórico: os raios do sol (´´planeta louro``) funcionam como um fogo que se mineraliza e ´´penetra`` nas águas. Fruto dessa fecundação (feita como chamas), nas veias do Ribeirão (como se fossem entranhas), converte-se, dentro dele, no pó de ouro que brota do seu seio.
Assumindo uma concepção de poesia já claramente influenciada pelo Arcadismo, o texto faz surgir uma das constantes da poesia de Cláudio: o contraste entre a tradição poética civilizada (expressa na idealização da paisagem bucólica, que remonta à Antiguidade) e a realidade rústica do Brasil-Colônia, então atravessando o ciclo da mineração.
O principal poema épico do Arcadismo foi O Uruguai (1769), de Basílio da Gama, cujo assunto é a guerra movida pelos portugueses e espanhóis contra os índios, instigados pelos jesuítas, na região dos Sete Povos das Missões.Ele inovou a poesia de seu tempo, por não utilizar a mitologia convencional. Não se orientou, além disso, pelo bucolismo, também convencional em sua época.Conseguiu criar uma obra de fôlego e certa elegância poética, apesar de residir seu maior feito na quebra da estrutura camoniana. Foi diferente, inclusive, na escolha da temática, ao cantar um assunto de sua contemporaneidade. Além do nativismo e da liberdade formal em relação aos modelos da epopéia clássica e além da presença pela primeira vez da mitologia indígena ao invés da clássica, o tom trágico desta epopéia faz com que seja considerada uma obra pré-romântica.
O poema narra o que foi a luta pela posse da terra, travada em princípios de 1757. A situação envolvida era mais ou menos esta: a noroeste do atual Rio Grande do Sul, havia sete povoados dominados por jesuítas espanhóis e índios guaranis. Em contrapartida, ao sul do Uruguai, perto de Montevidéu, havia uma colônia portuguesa, Sacramento. Portanto: em terra portuguesa, possessão espanhola; em terra espanhola, possessão portuguesa. Para resolver esta improbidade territorial, fez-se, em 1750, o chamado Tratado de Madri. De acordo com seus dispositivos, Portugal deveria entregar a Colônia do Sacramento aos espanhóis e deles receber os Sete Povos das Missões. Havia lá, no entanto, 30.000 índios e 72 jesuítas. E quando Gomes Freire de Andrade, comissário português encarregado da demarcação de limites, se aproxima da localidade, os índios, sob orientação jesuítica, atacam-no. O chefe português recua e se comunica com Espanha. De lá vêm reforços e, sob o comando de Gomes Freire, o exército luso-espanhol dizima os índios.
Basílio da Gama nasceu em Tiradentes, Minas Gerais, em 1740 e faleceu em Lisboa, Portugal, em 1795.Estudou em colégio jesuíta, no Rio de Janeiro, e tinha intenção de ingressar na carreira eclesiástica. Completou os estudos em Portugal e na Itália, no período em que os jesuítas foram expulsos dos domínios portugueses. Na Itália, Basílio construiu uma carreira literária, tendo conseguido uma façanha única entre os brasileiros da época: ingressar na Arcádia Romana, na qual assumiu o pseudônimo de Termindo Sipílio.
Em 1767 voltou ao Rio de Janeiro, onde foi preso no ano seguinte, acusado de ter amizade com os jesuítas. De acordo com um decreto então em vigor, qualquer pessoa que mantivesse comunicação com os jesuítas, oral ou escrita, deveria ficar exilada durante oito anos, em Angola. Preso, Basílio da Gama foi levado a Lisboa. Lá, livrou-se da prisão por dedicar um Epitalâmio (poema que celebra o casamento de alguém) em homenagem à filha do Marquês de Pombal, primeiro-ministro de D. José I.
Está mais que claro o objetivo de elogiar filha (Maria Amália) e pai poderoso para se ver livre da punição que lhe impusera. A primeira estrofe do poema acima faz referência ao exílio na África, a que seria submetido se Pombal não o perdoasse. Essa amizade lhe abriu novos contatos com os árcades portugueses e um belo emprego público na Secretaria dos Negócios Estrangeiros.
O Uruguai foi escrito em decassílabos brancos (isto é, sem rimas), com estrofação livre, e é composto de cinco cantos (ao invés dos dez cantos de Os Lusíadas); percebe-se nele claramente uma crítica do autor à atuação dos jesuítas, que são caricaturados na figura do padre Balda. Obra feita para agradar aoMarquês de Pombal (ministro do rei D. José I, defensor de ideias iluministas, responsável pela expulsão dos jesuítas não só do Brasil, mas também de todo reino português), este poema coloca os jesuítas como vilões e os índios como heróis ingênuos, isto é, manipulados pelos padres, mas cheios de grandeza.
A narrativa é entremeada pelas visões de Lindóia: grandes feitos de Pombal reconstruindo Lisboa destruída por um terremoto e expulsando o reino os jesuítas. Embora o tema fosse um capítulo da longa resistência indígena em nosso território, ele foi explorado com objetivo laudatório (que encerra louvor) e político. Culpando os jesuítas por incitar os índios à guerra, ele se punha ao lado dos colonizadores. Tem, contudo, momentos brilhantes, descrevendo o índio como grande guerreiro e apresentando nossa exuberante paisagem.
Embora apresente a divisão tradicional em preposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo, quebra essa estrutura ao iniciar o poema pela narração:
´´Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos, e impuros,
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
O rouco som da irada artilharia.``
Diferentemente do que ocorre nas epopéias tradicionais, a invocação e a proposição (assunto do poema) eclodir-se-ão somente a partir do sexto verso:
´´MUSA, honremos o Herói que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou a afronta
Ai tanto custas, ambição de império!``
E a dedicatória do décimo ao vigésimo verso:
´´E Vós, por quem O Maranhão pendura
Rotas cadeias e grilhões pesados.
Herói e irmão de heróis, saudosa e triste
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa entanto
Acostumar ao vôo as novas asas
Em que um dia vos leve. Desta sorte
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra
E vai ver de mais perto no ar vazio
O espaço azul, onde não chega o raio.``
O Uruguai foi dedicado ao “Ilmo. e Exmo. Sr.Francisco Xavier de Mendonça Furtado”, mas o livro curiosamente se inicia com um soneto dedicado ao seu irmão, o Marquês de Pombal.
As principais personagens de "O Uraguai" são: o padre Balda (administrador de Sete Povos das Missões), o vilão, jesuíta devidamente caricaturado, que tem um filho sacrílego, Baldeta; a heroína Lindóia; o português Gomes Freire de Andrade (chefe das tropas portuguesas) e os indígenas Cepé, Cacambo e Tatu-Guaçu, Caitutu (irmão de Lindóia) e Tanajura (indígena feiticeira), a vidente. Esse poema levou Basílio da Gama a ser membro da Academia Real das Ciências de Lisboa.
A luta travada por portugueses e espanhóis contra índios e jesuítas é narrada por Basílio da Gama desde os preparativos até a conclusão. Os cantos apresentam esta sequência de fatos:
Canto I: descrição da formação das tropas aliadas e da resistência dos padres.
Canto II: As tropas aliadas avançam contra o inimigo. Diálogo entre os caciques Cepé e Cacambo e o herói Gomes Freire de Andrade, à margem do rio Uruguai, tornando-se nítida a diferença de cultura entre o indígena e o civilizado. O acordo é impossível porque os jesuítas portugueses se negavam a aceitar a nacionalidade espanhola. Ocorre então o combate entre os índios e as tropas luso-espanholas. Os índios lutam valentemente, mas são vencidos pelas armas de fogo dos europeus. Cepé morre em combate. Cacambo comanda a retirada.
Canto III: O General acampa às margens de um rio. Do outro lado, Cacambo descansa e sonha com o espírito de Cepê. Este o incita a incendiar o acampamento inimigo. Cacambo atravessa o rio e provoca o incêndio. Depois, regressa para a sede. Surge Lindóia. A mando de Balda, prendem Cacambo e o matam por envenenamento. Balda é o vilão da história, que deseja tornar seu filho Baldeta, cacique, em lugar de Cacambo. Observa-se aqui uma forte crítica aos jesuítas. Tanajura propicia visões a Lindóia: a índia “vê” o terremoto de Lisboa, a reconstituição da cidade pelo Marquês de Pombal e a expulsão dos jesuítas. Também lhe é revelada a morte de Cacambo, o que causa profunda comoção.
Canto IV: Descreve o avanço das tropas aliadas e a preparação do casamento de Baldeta e Lindóia. A índia prefere a morte. Suicida-se, deixando-se picar por uma serpente venenosa pela fidelidade amorosa a Cacambo e para fugir da desonra. Sabendo da aproximação das forças aliadas, os indígenas abandonaram o aldeamento, ateando-lhe fogo. O exército entra no templo.
Canto V: Descrição do Templo. Perseguição aos índios. Prisão de Balda. O poeta dá por encerrada a tarefa e despede-se. Expressa suas opiniões a respeito dos jesuítas, colocando-os como responsáveis pelo massacre dos índios pelas tropas luso-espanholas. Eram opiniões que agradavam ao Marquês de Pombal, o todo-poderoso ministro de D. José I. Nesse mesmo canto ainda aparece a homenagem ao general Gomes Freire de Andrade que respeita e protege os índios sobreviventes.
O trecho mais famoso desse poema é A morte da índia Lindóia, no Canto IV, uma espécie de pausa lírica no movimento narrativo da epopéia. . De todas as heroínas épicas, que foram mortas por amor, na linha de Inês de Castro, só a ela, por antecipação, a morte lhe roubara o ser amado. Em função disso, aindígena preferiu morrer, deixando-se picar por uma serpente, a casar-se com o inimigo:
´´Parte de antigo bosque, escuro, e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins, e rosas.
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.``
Há, nos versos acima apresentados, ao lado da adjetivação elegíaca (observar a anteposição do adjetivo: hipérbato), a sugerir sempre a presença da morte (escuro, negro, cavernoso, triste, fúnebre, melancólico), antíteses, harmoniosas e sugestivas (morrer, contrastando com cansada de viver).A impressão de horror diante do trágico pelos polissíndetos com efeito acumulativo confere dignidade e beleza a esse texto de grandeza comovedora. Embora haja o envolvimento de Lindóia com a natureza, é preciso observar que esta difere do ambiente bucólico árcade. No fragmento em estudo, percebe-se a existência de uma natureza sombria, triste e escura; para os árcades a natureza é campestre, simples e pastoril.
´´Fogem de a ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e quem apresse no fugir a mortes
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco faz voar a aguda seta,
Que toca o peito da Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo côa ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.``
E tão nobre é a sua condição humana, que o irmão dela (Caitutu, chefe guerreiro), numa figura clássica, três vezes vacila entre a ira e o temor, para afinal vibrar a seta que vai deixar no tronco vizinho a boca e os dentes da serpente, sem tocar o peito da irmã. Mas ela já estava morta, sendo esta a novidade surpreendente do episódio.
´´Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, aos ecos tantas vezes
Cotou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutú não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!``
O trecho dado é o segmento final do episódio do suicídio de Lindóia. Como se vê, há a ideologia subjacente do ´´bom selvagem`` (´´O homem nasce bom. A sociedade o corrompe``, de Rousseau) e a idealização da mulher e da pureza de seu amor. Os jesuítas são os vilões em O Uruguai. Essa exaltação do amor, que leva a atitudes extremas como a morte, o morrer de e por amor, pode ser considerada uma característica pré-romântica no poema de Basílio da Gama. . O verso final: ´´Tanto era bela no seu rosto a morte``, exprimindo a beleza da heroína, mesmo depois de morta, é um dos mais expressivos do poema.
O maior de nossos arcádicos, Tomás Antônio Gonzaga, por ser simultaneamente o autor de Marília de Dirceu e das Cartas Chilenas, já desvenda, pela inquietação latente de seu lirismo, pelos versos repassados de ternura e emoção amorosa, pelas estâncias bucólicas de acentuado cunho realista, ser não apenas o maior vulto do setecentismo brasileiro, mas também admirável expressão antecipada do nosso romantismo (pré-romantismo presente em suas obras, seja pela ideia do tempo fluindo, seja pelo passadismo ou saudosismo, ou, até mesmo, pelo que norteia toda a confecção de Marília de Dirceu: a declaração do amor constante, em qualquer circunstância).
Esta é uma das mais significativas liras de Gonzaga: além de ser uma apologia da mocidade, é também um alerta quanto ao passar do tempo (tema já bastante explorado pela estética barroca). Observe também que os versos são decassílabos (dez sílabas), com exceção do quinto e oitavo de cada estrofe (heróicos quebrados ou hexassílabos – seis sílabas). As rimas são opostas (ABBA) e alternadas (CDED). O poeta evita, nos versos longos, rimas agudas, equilibrando com os decassílabos sons agudos de versos heróicos quebrados obtendo, assim, com sílabas graves e agudas extraordinário grau e poder de precisão métrica dificilmente repetidos, o que conduz à beleza da linha melódica e uma imagística do melhor quilate poético.
Comentários sobre o poema
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Atividades propostas 1. O poema de Gonzaga tem como assunto a inconstância do destino. a) Como essa inconstância é apresentada nos primeiros quatro versos do poema? b) A fim de sustentar sua visão da sorte instável, o eu do poema propõe uma comparação na primeira estrofe. Que comparação é essa? 2. A forma do poema sugere um diálogo. Que elementos sustentam essa ideia? 3. Na segunda estrofe, há uma referência à falta da sorte mesmo depois da morte. Que fatalidade pode ocorrer com os restos mortais enterrados, segundo o poema? 4. Na terceira e na quarta estrofe, o eu do poema sugere uma maneira de lidar com as reviravoltas do destino: fazer os dias mais felizes. A qual lugar-comum da poesia árcade esse trecho do poema se associa?
O poema desenvolve o tema do carpe diem: colher o dia, ou seja, aproveitar o dia presente. Trata-se de uma expressão latina, proveniente da Ode XI, do livro I das Odes de Horácio. O sentido é de que devemos apro
veitar as ocasiões quando elas se apresentam. O ser humano não deve se inquietar com o amanhã, cujo saber pertence aos deuses. Enquanto nos preocupamos com o que não nos cabe saber, o tempo foge. Devemos, portanto, saber reconhecer quais as ocasiões favoráveis para aproveitá-las. Logo, a vida é breve e devemos gozar dela sem desperdiçar o tempo.
Na 1ª estrofe, o eu lírico assinala a inconstância das coisas (os prazeres da vida vêm, sempre seguidos da desventura), pois o destino humano é incerto (´´A sorte deste mundo é mal segura``). Ressalta que os próprios deuses estão sujeitos ao ´´ímpio Fado`` (impiedoso destino). Curiosamente, o tema da estrofe é a inconstância da sorte. É como se o encurtamento do verso, alternado com o verso mais longo, imitasse os altos e baixos do destino.
A referência ao deus grego Apolo (exilado no país de Admeto, rei da Tessália, onde pastoreou os rebanhos e dirigiu os pastores) é típica do Arcadismo, escola que pretendia uma espécie de retorno ao tempo mitológico da Grécia clássica. Em uma das muitas versões míticas, Apolo foi destituído por Zeus de seus poderes, virtudes e atributos, passando assim, de uma total soberania e esplendor, para a condição de servo de reis e pastor de rebanhos.
Para o Arcadismo, a vida do pastor, singela e próxima da natureza, é bela e pura. No entanto os versos ´´Apolo já fugiu do céu brilhante / já foi pastor de gado`` criam uma imagem dentro da qual estar no céu é o polo positivo (felicidade) e ser pastor é o polo negativo (degradação). Portanto, a imagem contida nos versos é surpreendente quando percebemos que ela subverte o tema árcade da vida pastoril como ideal a ser buscado (locus amoenus). Dentre as inúmeras características árcades presentes no poema, destacam-se: a valorização da mitologia e do paganismo.
Na 2ª estrofe, o poeta tece considerações sobre a Morte: a morte tudo destrói; mesmo na ´´triste campa``, o homem está sujeito à inconstante sorte. Observe a personificação e a tonalidade quase surreal da combinação devorante mão.
Nas duas primeiras estrofes, são feitas duas colocações de que decorrem os outros versos.
Na 3ªestrofe, ´´Destinos impiedosos`` retoma ´´ímpio Fado``. Ora, assim como os deuses estão sujeitos ao ´´ímpio Fado``, os homens estão ao ´´Destino impiedoso``. E, uma vez que ´´A sorte deste mundo é mal segura``, a única atitude perante a própria vida é aceitar o convite amoroso, tornando os breves dias mais felizes (“façamos sim, façamos, doce amada, / os nossos breves dias mais ditosos”).
Na 4ª estrofe, o eu lírico enfatiza o ideal de felicidade campestre e a presença de elementos que remetem a um ambiente pastoril .A presença do bucolismo, da valorização da vida simples está expressa em trechos, como em ´´Ornemos nossas testas com as flores; / E façamos de feno um brando leito (...)``. Surge a visão epicurista ( sensual) da vida (´´Gozemos do prazer de sãos Amores``) .
A valorização do ´´carpe diem`` devido à consciência da fugacidade do tempo está presente na 5ª estrofe (premissa dos versos iniciais). O fluir do tempo deixa marcas, em seu caminho. O corpo perde a sensibilidade (´´E se entorpece o corpo já cansado``) O poeta compara duas etapas da vida, mocidade e velhice utilizando, em certo momento, exemplos da própria natureza (´´Triste o velho cordeiro está deitado / E o leve filho sempre alegre salta``).
O homem está sujeito à morte, destino impiedoso, fluir do tempo, velhice. Surge um questionamento na 6ª estrofe: ´´Que havemos de esperar, Marília bela?`` A observação das constantes mudanças do mundo (carregadas de uma conotação negativa, de degenerescência) faz com que o eu lírico conclua ser necessário aproveitar o momento valorizado pela juventude (´´Aproveite o tempo, antes que o faça``), a vida presente (filosofia do carpe diem), antes que a velhice roube ´´ ao corpo as forças e ao semblante a graça``.
O sensualismo velado de Marília de Dirceu, a transmitir sempre fidelidade diante do amor e da vida, não parece desaparecido com os amargores da Inconfidência, o exílio africano e o casamento distante. O mito Marília, doce e meiga, a noiva ideal que todos os homens anseiam, continuará vivo porque permanente símbolo de beleza, de um amor interrompido no tempo, e portanto eterno. Viverá enquanto existir o semblante e graça de uma adolescente que a lira de um grande poeta eternizou em seu infortúnio, a comover em todos os séculos gerações de língua portuguesa.
Tu não verás, Marília, cem cativos
Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,
Ou da minada serra.
Não verás separar ao hábil negro
Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os granetes de ouro
No fundo da bateia.
Não verás derrubar os virgens matos;
Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;
Lançar os grãos nas covas.
Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.
Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grande livros,
E decidir os pleitos.
Enquanto revolver os meus consultos.
Tu me farás gostosa companhia,
Lendo os fatos da sábia mestra história,
E os cantos da poesia.
Lerás em alta voz a imagem bela,
Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
Gostoso tornarei a ler de novo
O cansado processo.
Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
Que tens quem leve à mais remota idade
A tua formosura.
Vocabulário
Cativos: escravos.
Minada: escavada
Esmeril: resíduo de minerais pesados.
Granetes: pequenos grãos.
Bateia: gamela de madeira usada para a lavagem de areia ou cascalho que contenha minerais preciosos.
Capoeiras: mato nascido nas áreas em que se faz a derrubada de matas virgens.
Pleito: expressão jurídica para designar litígio, conflito.
Fastos: registros públicos de fatos ou obras memoráveis.
Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Portugal. Tendo passado parte de sua infância e adolescência no Brasil, formou-se depois em Coimbra e voltou para o Brasil já homem feito. Influenciado pelo Iluminismo que empolgava a Europa, membro da elite intelectual de Vila Rica, chegou a tomar parte na Conjuração Mineira.
O poeta árcade usava um nome artístico que lembrava a tradição greco-latina: Dirceu. Sua obra maior é, inclusive, intitulada Marília de Dirceu, coletânea de poemas ( liras) em que o autor, personificado como Dirceu, dirige-se à amada pastora Marília, quer para confessar sua paixão, quer para falar da vida em geral, quer para filosofar sobre a existência.
Marília de Dirceu se divide em três partes. A primeira, escrita em liberdade, caracteriza-se pelo tom de plena felicidade, contendo confissões amorosas, descrições da amada e da paisagem mineira, o ideal otimista de vida do ´´pastor``. Na segunda, o eu lírico, fragilizado pela prisão e pela incerteza de seu destino, revela sofrimento físico e moral; predomina um tom trágico, de desalento, de revolta e amargura (passa a usar Marília como um pretexto para falar mais de si próprio, atitude que os críticos consideram pré-romântica). Na terceira, provavelmente após o degredo, fala de amores, desenganos e traições, porém a figura da pastora não mais se encontra presente com tanta intensidade (são dedicadas não apenas a Marilia, mas também a outras pastoras).
Vila Rica era o centro de uma verdadeira ´´civilização do ouro`` que se desenvolveu no século XVIII, na região das Minas Gerais. Foi Gonzaga, entre os poetas mineiros, quem primeiro experimentou introduzir nos seus versos a ousadia de certas expressões muito particulares ao cotidiano como, por exemplo, bateia, capoeira, cascalho, expressões que ajudaram a fornecer a sua poética um timbre caracteristicamente local, particularmente realista e sobretudo de fácil trânsito entre diversos extratos sociais
A Lira III, uma das mais bonitas, apresenta elementos a partir de dois planos. O ambiente que aparece na primeira parte (quatro estrofes iniciais) é exterior, enquanto que o da segunda (quatro estrofes finais) é interior. O ambiente da primeira parte contrasta muito com o da segunda.
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O poema se compõe de 8 estrofes, de 4 versos cada uma, portanto, de 8 quartetos. Aparecem versos de dois tipos: os três primeiros versos da estrofe são decassílabos; o último verso é hexassílabo (de 6 sílabas). Quanto à rima, ela aparece nos versos pares (versos 2 e 4; versos 6 e 8; etc).
Nas primeiras estrofes (começadas por ´´não verás``) predomina o trabalho dos escravos em algumas atividades econômicas da região como: aexploração aurífera através da mineração (´´minada serra`` – montanha escavada pela busca do ouro) e da garimpagem, (´´granetes de oiro / No fundo da bateia``) presentes na 1ª e 2ª estrofe; a agricultura ( o trabalho braçal no campo em ´´Lançar os grãos nas covas``), na 3ª estrofe e otrabalho pré-industrial na produção do fumo e do açúcar( ´´ enrolar negros pacotes / espremer entre as dentadas rodas ``, na 4ª estrofe).
Nas outras (começadas por ´´verás``) predomina o elogio da vida equilibrada e a atividade amena do letrado, do intelectual na presença da ´´pastora Marília``. A antecipação desse convívio benfazejo é indicada pela exploração de verbos no futuro, presentes em todo o poema. O poeta faz referência, nesse sentido, ao trabalho na magistratura (5ª estrofe) e à vida tranquila que levará no lar, podendo se dedicar à cultura, em concomitância com as suas obrigações (6ª e 7ª estrofes). A felicidade conjugal está evidenciada na ´´gostosa companhia``, ou seja, o contentamento e o prazer que a amada levaria ao eu lírico, enquanto este se dedicasse ao seu ofício
(´´Gostoso tornarei a ler de novo / O cansado processo``).
Uma característica de estilo presente no poema é o largo uso do adjetivo, que na função sintática de adjunto adnominal, ocorre quase sempre anteposto ao nome, como em ´´ricaterra``, ´´hábil negro`` e ´´cansado processo``. Trata-se de um caso de leve inversão ou anástrofe, muito freqüente nas poesias árcade e clássica. Em Gonzaga, tal vezo sintático não perturba o notável coloquialismo dos seus poemas.
Na última estrofe, diante da promessa de total dedicação a sua amada, o poeta propõe que a beleza de Marília seja eternizada por sua lira. No ambiente irreal da vida de casados (pois o casamento ainda não se realizou), o poeta não apenas enaltece Marília, mas também a si mesmo.