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domingo, 20 de maio de 2012

Orações coordenadas – Período composto por coordenação



Período é um enunciado lingüístico formado por uma ou mais orações. A sua estrutura segue os padrões sintáticos da língua.

Em relação às orações que o estruturam, o período pode ser:

Simples – é constituído de apenas uma oração, isto é, há, no período simples, apenas um verbo ou locução verbal:

Durante as suas viagens,
percorreu todo o Sul do Brasil.
O lugarejo foi invadido pelas águas.
Obs.: a oração única do período simples chama-se absoluta.

Composto – é constituído de duas ou mais orações que, enquanto estrutura sintática, podem ser dependentes de uma outra (subordinadas) ou independentes entre si (coordenada). Observe os exemplos:

O comandante garante /que a tropa chegará a tempo.

O período acima é composto de duas orações. A segunda oração é subordinada porque depende sintaticamente da primeira. Nesse caso, portanto, o período é composto por subordinação.


As orações do período composto podem apresentar as mais variadas relações ( orações em sequência de modo que uma ou várias possam exercer uma função sintática da outra). Neste caso, podemos encontrar os seguintes tipos de oração:

1) oração coordenada;
2) oração principal (aquela que possui uma subordinada);
3) oração subordinada (aquela que exerce uma função sintática de outra oração).

Exemplo:

Ele chegou perto de mim e perguntou se eu trouxera o livro.

1.ª oração: ele chegou perto de mim(coordenada à segunda).
2.ª oração: e perguntou (coordenada sindética aditiva à primeira e principal da terceira).
3.ª oração: se eu trouxera o livro (subordinada à segunda oração porque é objeto direto dela).

Observe agora este exemplo:

“Deus quer, /o homem sonha,/ a obra nasce.” (Fernando Pessoa)

Nesse período há três verbos, portanto são três orações. Trata-se de um período composto por coordenação, já que as três orações são sintaticamente independentes.

A coordenação entre orações independentes pode ser estabelecida através de um conectivo (uma conjunção coordenativa), ou simplesmente por mera justaposição de uma oração a outra, sem o auxílio da conjunção, que cede vez a uma pausa (geralmente representada por vírgula ou ponto e vírgula).

Exemplos:

“Pela amanhã bebi o café enjoativo, comi um pedaço de pão sem manteiga.” (Graciliano Ramos)

Uma vertigem escureceu-lhe a vista; seus ouvidos cessaram de ouvir; seu pensamento adormeceu...” (Monteiro Lobato)

Conforme a ausência ou presença do conectivo, classificam-se, pois, as orações coordenadas em assindéticas ou sindéticas, respectivamente.

Exemplos:

“Papai lia jornais, mamãe cerzia meias.” (Carlos Drummond de Andrade)
(coordenada assindética – ausência de conectivo)

“Havia uma galinha, mas não havia ninho.” (Machado de Assis)
(coordenada sindética – presença de conectivo / conjunção coordenativa “mas”)

Por sua vez, as orações coordenadas sindéticas subdividem-se em cinco grupos, classificadas, de acordo com a conjunção que as introduz, em: aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas, explicativas.

Coordenada sindética aditiva – aquela que estabelece uma relação de adição, de soma. As principais são: e, nem, mas também, mas ainda,...

“A menina largou disfarçadamente os talheres e sumiu.” (Monteiro Lobato)
Não só estuda, mas também trabalha. (ou seja: estuda e trabalha)
“Eles não quiseram saltar o abismo, nem parecia uma boa ideia”.
( nem: para adição de orações com valor negativo)

Coordenada sindética adversativa – aquela que estabelece uma relação de contradição, de adversidade, de oposição. As principais são: mas, porém, todavia, contudo, entretanto,...

“É apenas um sino, mas é de ouro.” (Fernando Sabino)
Trabalhei bem, porém fui rejeitado.

Coordenada sindética alternativa – aquela que estabelece uma relação de alternância. Alternância é uma relação tal que a opção por um implica a recusa do outro. As principais são: ou... ou, ora... ora, já... já, quer... quer, seja... seja,...

“Decífra-me ou devoro-te.” ( Machado de Assis)
Ora ajeitava o cabelo, ora arrumava a gola do casaco.

Coordenada sindética conclusiva – aquela que estabelece uma relação de conclusão. Conclusão é o ato de explicitar um dado pressuposto num dado anterior. As principais são: logo, portanto, pois, então, ...

“Penso, logo existo.” (Descartes)
Analisei o material, portanto posso falar sobre ele.

Coordenada sindética explicativa – aquela que estabelece uma relação de explicação. Explicação, aqui, deve ser entendida como confirmação do que se disse na oração anterior. As principais são: pois, porque, que, ...

“Sai de baixo, que eu sou professor.” (Chico Buarque, Ruy Guerra)
Dei-lhe um presente, pois era seu aniversário.

Oração coordenada reduzida

A oração coordenada aditiva pode apresentar-se reduzida, com o verbo flexionado no gerúndio. Caracteriza-se por trazer a sequência do acontecimento anterior.

“Meu pai se abaixou, lavando as mãos na água clara.” (Orígenes Lessa)
( e lavou as mãos na água clara)



A polissemia conjuntiva e a oração coordenada

• A conjunção pois pode caracterizar as seguintes orações:
a) conclusiva – não introduz a oração, aparece entre vírgulas ou separada da oração por uma vírgula:

O homem está doente; devemos, pois, visitá-lo.

b) explicativa – introduz a oração; pode ser substituído pelas conjunções explicativas porque e que:

“Não ouças mais, pois és juiz de direito.” (Camões)
(porque és juiz de direito)



• A conjunção e (aditiva) pode assumir valor adversativo:

“Chamei vários nomes e nenhum teve sentido.” (Orígenes Lessa)
(mas nenhum teve sentido)

• A conjunção mas (adversativa) pode aparecer com valor aditivo:
Era um homem trabalhador, mas principalmente honesto.
(e principalmente honesto)

Oração intercalada ou oração interferente

É aquela, sintaticamente independente, que se interpõe a outra a título de esclarecimento, ressalva, advertência, opinião ( vem isolada por meio de vírgulas, travessões ou parênteses).

“Note-se – e este ponto deve ser tirado à luz, – note-se que os dois gêmeos continuavam a ser parecidos...” (Machado de Assis)

“Acredito também (e isso aconteceu a muitos) que o choque de novembro tenha produzido no seu espírito uma descarga.” (Cyro dos Anjos)


Exercícios

1) Transforme o período abaixo em um período composto por coordenação, sendo a primeira oração assindética e a segunda sindética adversativa:

“embora achasse graça na birutice de Pio, (Zanine) acabou saturado.”

2) Classifique as orações destacadas, de acordo com o código abaixo:
A) coordenada sindética aditiva;
B) coordenada sindética adversativa;
C) coordenada sindética explicativa;
D)coordenada sindética conclusiva;
E) coordenada assindética

1 ( ) “ De outras ovelhas cuidarei, que não de vós.” ( Garrett)
2 ( ) “José entendeu os testes, portanto pode fazer as provas.”
3 ( ) “ Você não pode desanimar, pois, afinal de contas, tudo anda muito bem.”


3) Assinale a sequência de conjunções que estabelecem, entre as orações de cada item, uma correta relação de sentido.

1 - Correu demais, __________ caiu.
2 - Dormiu mal, _________os sonhos não o deixaram em paz.
3 - A matéria perece, __________ a alma é imortal.
4 - Leu o livro, ______ é capaz de descrever as personagens com detalhes.
5 - Guarde seus pertences, ________podem servir mais tarde.

a) porque, todavia, portanto, logo, entretanto.
b) por isso, porque, mas, portanto, que
c) logo, porém, pois, porque, mas
d) porém, pois, logo, todavia, porque
e) entretanto, que, porque, pois, portanto

4) Divida os períodos seguintes em orações e classifique-as.

a) “A canoa deslizava brandamente, entrava na boca do rio Canumã e despertava as sardinhas meio adormecidas entre as águas, nenhum pássaro cantava, as vozes noturnas da floresta haviam-se calado, mas nós estávamos alerta.” (Inglês de Sousa)

b) Luciana tira sempre boas notas, porém estuda muito pouco, logo é muito inteligente ou se serve de meios ilícitos.

5) Classifique as orações coordenadas abaixo:

a) “Ele não mandava, senão estaria me obedecendo.” (Clarice Lispector)
b) Vestiu-se rapidamente, saindo a seguir.
c) Todos já o avisaram; então, não fale mais nada.
c) “... quis, mas não pôde atender a dois chamados, pois o coração e as pernas não ajudavam.” (José Geraldo Vieira)
d) “Estendi os braços, procurando agarrar alguma coisa.” (Érico Veríssimo)
e) “O tempo não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém.”
f) “Desta vez, disse ele, vais para a Europa.” (Machado de Assis)

6) Em “ A eleição, no entanto, só passou a ser secreta mais de dois séculos depois...” a expressão destacada no entanto pode ser substituída, sem alteração de sentido, por:
a) enquanto
b)embora
c)todavia
d)logo
e)conquanto

7)Analise o trecho abaixo.

“João, Francisco, Antônio desde pequenos vêm sendo construtivos: enfrentam as maiores dificuldades, ajudam os pais, amparam os irmãos, realizam breves alegrias entre mil sombras.”

Do ponto de vista da construção sintática, é correto afirmar que esse período é composto por:
a) subordinação, apresentando três orações.
b) coordenação, apresentando quatro orações.
c) coordenação, apresentando cinco orações.
d) subordinação, apresentando quatro orações.
e) coordenação e subordinação, apresentando mais de cinco orações.

8) Em relação a “ Eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos jovens.” (Belchior), é correto afirmar:
a) é um período composto por coordenação, em que a 3.ª oração é sindética.
b) é um período composto só por coordenação
c) é um período composto somente por orações assindéticas.
d) é um período composto por coordenação e subordinação, em que a 3.ª oração é subordinada.
e) a segunda oração é subordinada à primeira.

9) “Podemos falar qualquer coisa: estou absolutamente calmo.”
Os dois pontos do período acima poderiam ser substituídos pela conjunção:
a) e
b) portanto
c) logo
d) pois
e) mas

10) Leia o trecho de uma letra de música de Chico Buarque

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta-feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta-feira sempre desce o pano
[...]

Releia o terceiro verso da canção.
a) Esse verso é formado por três orações coordenadas pela conjunção e. Que relação existe entre essas orações?
b) Que sentido a repetição da conjunção acrescenta ao poema?






terça-feira, 24 de abril de 2012

Motivo - Cecília Meireles



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Vocabulário
Fugidias: fugazes, efêmeras, passageiras.

Primeira mulher a alcançar destaque no cenário da poesia brasileira, Cecília Meireles escreveu vários livros de poesia em que desenvolveu as tendências da corrente espiritualista da segunda geração, sob a influência dos poetas que formariam o grupo da revista Festa, de inspiração neossimbolista. Depois, afasta-se desses artistas, sem, contudo, perder as características intimistas, de introspecção, numa permanente viagem para dentro de si mesma.

Suas reflexões conduzem a poesia a uma busca pelo eterno, não propriamente em seu sentido divino, mas sim ligado a um desejo de transcendência do espírito pela matéria, canto que procura a essência da experiência de existir:

“E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.”

A produção literária de Cecília Meireles ocupa um lugar à parte na literatura brasileira, pois ao contrário das intenções nacionalistas e das inovações na linguagem encontradas nos modernistas, manteve-se presa ao lirismo de tradição portuguesa, mas com uma expressão bem pessoal. Através da depuração da linguagem musical e cadenciada do Simbolismo, transformou em belos poemas a sua melancolia e o sentimento da saudade e do tempo, que tudo devora:

“Quando um vulto humano se arrisca,
fogem pássaros e borboletas;
e a flor que se abre, e a folha morta,
esperam, igualmente transidas,
que nas areias do caminho
se perca o vestígio de sua passagem.”

Sua sensibilidade manifestava-se na valorização da intuição e da emoção como formas de interpretar o mundo. Para isso, parte de certo distanciamento do real imediato e dirige os processos imagéticos para a sombra, o indefinido, o sentimento da ausência e do nada. Nas palavras da própria Cecília “a poesia é grito, mas transfigurado”. A transfiguração se faz no plano da expressão.

O lirismo delicado que caracteriza suas obras está intimamente ligado a imagens da natureza ( a água, o mar, o ar, o vento, o espaço, a rosa, etc.) e do infinito, compondo uma atmosfera de sonho e fuga. Dedicou-se ao desenvolvimento de temas como o amor, o tempo, a transitoriedade da vida e a fugacidade das coisas, como evidencia o poema “Motivo”( parte integrante do livro Viagem). Sobre ele, assim declarou Mário de Andrade:

“Uma adequação extraordinária do sentimento lírico ao texto versificado (...) impressão de adequação absoluta, pela simplicidade, pelo acordo, pelo tamanho do pensamento expresso, sem palavras demais”.


Vale a pena reiterar que um dos aspectos fundamentais da poética de Cecília Meireles é a sua consciência de que tudo é transitório; por isso mesmo, o tempo é personagem central de sua obra: o tempo passa, é fugaz, fugidio. Numa entrevista a autora fala da transitoriedade da vida, dando uma espécie de chave para melhor compreensão de sua poesia:

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência. Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.”


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Psicologia de um vencido - Augusto dos Anjos


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


Vocabulário


Rutilância: qualidade de rutilante, muito brilhante, resplandecente.
Hipocondríaco: em sentido figurado, triste, melancólico.
Carnificina: grande quantidade de corpos mortos; matança.
Carbono: composto orgânico presente em todos os vegetais e animais.
Amoníaco: gás que se encontra nas matérias em decomposição.
Epigênesis: teoria da geração dos seres por estágios graduais. No texto, pode significar origem.


Paraibano, nascido em 1884, no engenho do Pau d’ Arco, filho de pequenos proprietários rurais, Augusto dos Anjos testemunhou a ruína financeira da família, resultado da decadência do sistema latifundiário, que nos primeiros anos do século XX foi substituído pelas grandes usinas.

Iniciou seus estudos no Liceu Paraibano, em 1900, e já nesse ano publicava seu primeiro trabalho, o soneto “Saudade”, no Almanaque do Estado da Paraíba. No ano seguinte, inicia colaboração no jornal O Comércio, publicando aí seus poemas até 1908.

Cursou Direito em Recife, sem nunca ter advogado; porém foi neste ambiente acadêmico que Augusto familiarizou-se com a ciência da época. Absorveu de tal modo os termos científicos, que passa a empregá-los na linguagem oral e escrita.

Durante toda a sua vida foi professor de Português e Literatura Brasileira, seja em bons estabelecimentos de ensino, como em aulas particulares.

Paralelamente as suas atividades como professor, sempre colaborou em jornais, publicando seus poemas. Em busca de melhores condições financeiras, Augusto foi para o Rio de Janeiro, passando sérias dificuldades para sustentar a esposa e os filhos.

Tudo isso agravou seu estado de íntima revolta, fazendo-o descrer do mundo e ver em tudo podridão física e moral.

Em 1912, com a ajuda do irmão, edita a sua coletânea de poesias com o título Eu. O livro provocou escândalo entre os leitores da época que, acostumados à elegância parnasiana, depararam com uma obra cuja linguagem ainda hoje pode ser considerada de caráter original, paradoxal e até mesmo chocante.

Essa foi a única obra, pois veio a falecer dois anos depois dessa publicação, aos trinta anos de idade, vítima de pneumonia. Estava, então, no interior de Minas Gerais, para onde fora transferido a fim de exercer a função de diretor de um grupo escolar.


Seu único livro é composto de cinquenta e oito poemas, escritos quase todos em versos rimados e decassílabos. Tradicional do ponto de vista técnico, o Eu aborda, porém, a temática da podridão, da decomposição, do terror, da morte e do sofrimento. Posteriormente, a obra foi republicada com o acréscimo de outros textos, passando a ser chamada Eu e outras poesias.

Augusto dos Anjos é um poeta que não se encaixa nos moldes de nenhuma corrente literária, autor de uma poesia pessimista, mórbida, de imagens impactantes. É parnasiano na forma (soneto, métrica e rima), naturalista no vocabulário (uso de terminologia científica), simbolista na sonoridade áspera de seus versos, decadentista no pessimismo de suas constatações, expressionista pelas distorções e exagero, mas essas classificações não conseguem apreender toda a complexidade de sua poesia. A influência de estéticas do século XIX aproximou-o dos demais autores pré-modernistas, mas a ausência de referências ao Brasil de sua época diferenciou-o deles.

Os poemas de Augusto dos Anjos tematizam a dor de existir e a inevitabilidade da morte. Não se trata, porém, de uma poesia espiritualista, que reflete sobre o destino da alma. Pelo contrário, fixa-se na matéria e no processo de decomposição do corpo. O eu lírico afirma a incondicional podridão para a qual se dirige todos os homens, destino que desqualifica a existência. Seguindo o pensamento do filósofo alemão Schopenhauer, de grande repercussão no período, Augusto dos Anjos via a dor como a essência do mundo e os momentos de prazer, apenas como sua suspensão temporária.


Para expressar sua visão negativa, o eu lírico desestabiliza a própria poesia, recorrendo a termos e a imagens incomuns no campo poético, como se lê em “Psicologia de um vencido”.

O poema descreve as ações do eu e do verme. O eu somatiza o drama existencial, enquanto o verme arquiteta silenciosamente a destruição final do eu. O vocabulário científico, tomado principalmente à química e as imagens repulsivas reforçam a natureza perecível e finita do homem.

Para explicar o procedimento poético de Augusto dos Anjos, o crítico Anatol Rosenfeld usou a expressão exogamia linguística, que significa a introdução de um elemento estranho no fluxo histórico de uma língua. No caso da poesia pré-modernista, o elemento estranho não eram os estrangeirismos, mas sim o vocabulário científico, os coloquialismos e os termos relacionados à deterioração do corpo, que, ao lado de palavras consideradas comuns em poemas, resultam em uma combinação insólita e provocativa, que dessacralizou o poema e lhe deu um novo vigor.

Comentários sobre o poema
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Embora o título contenha a palavra “Psicologia”, o poema (soneto, composto de versos decassílabos, com esquema rímico ABBA ABBA CCD EED) detém-se a tratar da matéria, das substâncias químicas que formam o “eu”, evitando maior introspecção. Apesar disso, é possível constatar o negativismo interior do eu lírico, que se considera “vencido” em virtude da fragilidade física do ser humano e da força implacável da morte.

Na primeira estrofe, o eu lírico se remete a um fato da infância que se estende até o presente. Profundamente pessimista em relação à vida, ele tem em si mesmo a visão de ser apenas um conjunto de substâncias químicas (“Eu filho do carbono e do amoníaco”) cujo destino, através do desenvolvimento do poema, é a morte e a decomposição.


Essa concepção trágica da existência em Augusto dos Anjos, essa dor de existir tão caracteristicamente simbolista assume, como em Cruz e Sousa, uma dimensão cósmica: “Sofro, desde a epigênesis da infância, / A influência má dos signos do zodíaco”. Perceba que estes versos, além de revelarem certa angústia moral, abordam a miséria da existência humana desde o momento de sua constituição mais elementar.



Na segunda estrofe, o eu lírico apresenta o seu desagrado em relação ao ambiente que vive. Palavras como “hipocondríaco”, “ânsia” e “cardíaco” exprimem a concepção do homem como um ser mórbido e doentio.



A partir da terceira estrofe, o eu lírico projeta suas expectativas para o futuro. Para isso, utiliza o maior símbolo da degenerescência e da podridão da matéria humana: “o verme”. Observe que o poeta utiliza o recurso da metáfora “operário das ruínas” para caracterizá-los. “As ruínas” seriam o corpo humano sem vida, com os vermes, em seu trabalho de decomposição, comparados a operários.


Na última estrofe, o eu lírico trata a morte friamente, como se a pressentisse e se preparasse para vivê-la. A rudeza é evidenciada nas imagens do “sangue podre das carnificinas”, do roer dos olhos pelo verme e da permanência exclusiva dos cabelos.


O pessimismo verificado em “Psicologia de um vencido” está presente em quase toda a obra de Augusto dos Anjos. Mas, se na visão do poeta as forças da matéria conduzem apenas ao mal e ao nada, o que resta a esse eu que guarda em si toda a angústia do mundo?


A linguagem do poema surpreende e modifica uma tradição poética brasileira, constituída em grande parte com base em sentimentalismos, delicadezas, sonhos e fantasias (desvinculação da arte com o conceito de beleza). “Carbono”, “amoníaco” e “epigênesis”, por exemplo, são vocábulos empregados poeticamente por Augusto dos Anjos que tradicionalmente seriam considerados antipoéticos (os mesmos provêm da ciência, particularmente da Química).

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O "adeus"de Teresa - Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus…
E amamos juntos… E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala…

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite… entreabriu-se um reposteiro…
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus…
Era eu… Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa…

E ela entre beijos murmurou-me “adeus!”

Passaram tempos… sec’los de delírio
Prazeres divinais… gozos do Empíreo…
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — “Voltarei!… descansa!…”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei… era o palácio em festa!…
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!… Ela me olhou branca… surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!…

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Vocabulário
Co’a: com a.
Reposteiro: cortina.
Alcova: quarto.
Sec’los: séculos.
Empíreo: morada dos deuses, segundo a mitologia grega.
Volvi: voltei.
Era: estava
Arquejar: arfar; estar ofegante.

Antonio Frederico Castro Alves nasceu em Curralinho, na Bahia, em 1847. Filho de médico, fez seus estudos secundários no Ginásio Baiano de Abílio César Borges. Cursou Direito em Recife e São Paulo, onde suas ideias de liberdade tomaram consciência. Vítima de um acidente de caça, sofreu amputação num pé. Depois, atacado de tuberculose, morreu em pleno fulgor da vida e da carreira, em 1871, em Salvador.

Castro Alves, através de sua eloquente poética, destacou-se como:

a) Poeta social – intérprete da liberdade, da justiça e do progresso. Defendeu sobretudo os escravos, como em Vozes d'Africa , Navio negreiro, A mãe do cativo, A cruz da estrada, A canção do africano e Saudação a Palmares, entre outros poemas.

A poesia, até então expressão subjetiva de um sentimentalismo exacerbado, torna-se, com Castro Alves, o instrumento de uma causa social (a libertação dos escravos) e faz com que o poeta assuma para si a tarefa de denunciar, a seus leitores, as injustiças que percebe na sociedade:

Na Senzala, úmida, estreita,
Brilha a chama da candeia,
No sapé se esgueira o vento.
E a luz da fogueira ateia.
Junto ao fogo, uma africana,
Sentada, o filho embalando,
Vai lentamente cantando
Uma tirana indolente,
Repassada de aflição.

b) Poeta lírico-amoroso – sem o sentimentalismo dos poetas do “mal do século”, escreveu inspirado em sua vivência amorosa (como com Idalina, sua primeira amante, ou com Eugênia Câmara, atriz portuguesa quarentona, grande paixão do poeta). É esse essencialmente o caráter de Espumas flutuantes, único livro que publicou em vida.

O amor idealizado, cuja concretização era impossível, e que só se imaginava em cenários oníricos não faz parte da poesia de Castro Alves. Nela, o que identificamos são relacionamentos reais, que tematizam muitas vezes a dificuldade encontrada pelos amantes para se separarem após uma noite de amor:

Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio...
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

c) Poeta da natureza – pintando e cantando a paisagem brasileira, como em A cachoeira de Paulo Afonso. O gosto pelos passeios a cavalo e pelas caçadas na mata reflete-se na poesia descritiva da natureza:

O Poeta trabalha!... A fonte pálida
Guarda talvez fatídica tristeza...
Que importa? A inspiração lhe acende o verso
Tendo por musa – o amor e a natureza!

Em todos os aspectos, Castro Alves usou versos inflamados, ousadas metáforas, hipérboles e apóstrofes, com muita arte e expressividade.



Comentários sobre o poema
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“O adeus de Tereza” é constituído por quatro estrofes de cinco versos, separadas por um só verso (monóstico). Possui métrica regular em decassílabos e apresenta rimas do tipo emparelhadas (1.º e 2.º, 4.º e 5.º versos) e rimas do tipo interpoladas (3.º e 6.º versos).

Perceba que o poema apresenta afinidades com a produção lírico-amorosa do ultrarromantismo, como se vê pela utilização da natureza para expressar os sentimentos, pela visão idealizada do amor e da mulher, pela linguagem exclamativa e repleta de adjetivos etc. Entretanto, lendo-o com atenção podemos perceber que aqui o amor e a mulher adquirem maior concretude e veracidade, tornando-se, portanto menos fantasistas e puramente imaginários.


No texto, há forte presença de cromatismo como recurso expressivo: a cor vermelha e a cor branca estão associadas, respectivamente, com os temas do encontro e do desencontro amoroso. Observe, ainda, como se organiza o enredo do poema: a primeira e a última cena se aproximam, na medida em que têm um baile por cenário; entretanto, enquanto na cena inicial o sujeito poético e sua amada dançam, na final ele a surpreende com outro homem.


Na primeira estrofe, o eu lírico narra seu primeiro encontro com Teresa ( o contato físico se dá através da valsa). Encontramos uma atmosfera de paixão e arroubo que os envolveu e o início da relação amorosa. A busca de paralelos entre sentimentos e aspectos da natureza está presente no verso “Como as plantas que arrasta a correnteza” (hipérbato).


Na segunda estrofe, o eu lírico revela a concretização do amor entre os dois (mostra-nos o momento em que, saindo do quarto da amante, dela se despede entre beijos). Há a descrição de ambos na alcova, espaço frequentado somente por um homem que desfrutasse da intimidade de uma mulher no século XIX. O verso “Inda beijando uma mulher sem véus...” revela a ausência da pureza por parte da figura feminina.


Na terceira estrofe, assiste-se a dolorosa separação dos amantes. O eu lírico, embora tendo que partir, pede (implicitamente) que a amada o espere: “Partindo eu disse –“ voltarei... descansa!...”. A intensidade da relação amorosa havida entre os dois pode ser contemplada através de três hipérboles: sec’los de delírio, “prazeres divinais”, “ gozo do Empíreo”.

A última estrofe surpreende o leitor ao apresentar Teresa nos braços de outro homem, marcando a desilusão final do eu lírico(o verso “Foi a última vez que eu vi Teresa!...” estabelece a separação definitiva). Note que a imagem construída de amante ardorosa e devotada, subitamente, transfigura-se na de uma mulher vulgar, volúvel e indigna.

Além da sensualidade que percorre todo o poema, podemos destacar cinco campos lexicais: o prazer (prazeres, gozos, empíreo, delírios, festa); as reações emotivas (corando, soluços, arquejando, tremer, surpresa); o espaço físico (alcova, reposteiro, sala, lares, palácio)e o tempo (séculos, arrasta a correnteza).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Canção da Primavera - Mário Quintana

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!

Jornalista, tradutor e escritor, Mário Quintana(1906 – 1994) nasceu na cidade de Alegrete (1906), no Rio Grande do Sul.

“Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton!”.

Após frequentar algumas escolas em sua cidade natal, é matriculado no Colégio Militar de Porto Alegre(1919), onde começou a produzir seus primeiros trabalhos na revista Hyloea, editada pelos próprios estudantes. Em 1924, deixa o referido colégio e emprega-se na Livraria do Globo (editora de renome nacional), onde trabalha por três meses com Mansueto Bernardi.

O talento para a literatura se manifestou cedo. Aos 20 anos, venceu um concurso promovido pelo jornal gaúcho “Diário de Notícias" com o conto “A Sétima Personagem”.

Em 1929 ingressou no jornal O Estado do Rio Grande. Após ter participado da Revolução de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro. Retornou, em 1936, para a Livraria do Globo, em Porto Alegre, onde trabalhou sob a direção de Érico Veríssimo. Traduziu Charles Morgan, Rosamond Lehman, Lin Yutang, Proust, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, Maupassant, Balzac, Gram Greene, Conrad, dentre outros. Com certeza, foi um dos responsáveis pelo acesso do povo brasileiro às obras da literatura internacional.

Seu primeiro livro de poesias, A Rua dos Cataventos, que reúne sonetos de influência parnasiana, é publicado em 1940 ( coletânea que passou a ser inserida em diversos livros escolares). Entre suas principais obras, estão Aprendiz de feiticeiro (1950), Antologia poética (1966), Caderno H (1973) e A vaca e o hipogrifo (1977). Dentre os livros que escreveu para crianças, destacam-se Pé de Pilão (1966), Lili inventa o mundo (1983) e Nariz de vidro (1984).

A poesia de Quintana é marcada pelo lirismo, pelo bom humor e pela crítica voltada à massificação característica das sociedades contemporâneas. Focalizando temas aparentemente simples (como o amor, a vida, a morte, a velhice e a religiosidade) seus poemas incorporam a fantasia e o universo da infância.

Com excepcional capacidade de cativar leitores( talvez porque soubesse extrair reflexões e sentidos de eventos do dia a dia, quase banais, com leveza, ternura e sutil ironia), Quintana era também admirado por poetas como Drummond, Vinícius e Cecília Meireles. De Manuel Bandeira, recebeu elogios:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares

Quinta essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Em uma entrevista, chegou a dizer que a sua vida estava descrita nos seus poemas:

"Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão".

Em 1960, foi publicada a sua “Antologia poética”, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, com mais de 60 poemas inéditos. A obra teve boa repercussão no meio editorial e recebeu o Prêmio Fernando Chinaglia como melhor livro do ano.

Despreocupado em relação à crítica, faz poesia porque "sente necessidade", segundo suas próprias palavras.

O poeta candidatou-se três vezes à Academia Brasileira de Letras, mas nunca lhe deram a vaga. Depois da terceira recusa, ele ironizou os imortais com seu conhecido “Poeminha do Contra”:

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

O poeta recebeu inúmeras homenagens durante a vida, mas morreu negando as reverências:

Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de autossuperação. Um poeta satisfeito não satisfaz.

Em 1980 recebe da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. Em 1981, foi agraciado com o prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano.

O Príncipe dos Poetas Brasileiros (como era conhecido) faleceu com quase 90 anos.

"Amigos, não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira".

Comentários sobre o poema

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Canção da Primavera” é um texto que se apresenta na forma de três quartetos e um dístico final, mostrando-nos a intenção deliberada do autor de fazer um poema que celebrasse a chegada da Primavera, em versos heptassílabos.

O eu lírico passa-nos a ideia da chegada suave da nova estação, a estação da vida, da florescência e do amor. No primeiro verso, o substantivo rio, contribui para realçar os conceitos de vida (água = fonte da vida) e da passagem do tempo (simbolizada no correr das águas). Este ressurgimento de novas esperanças de vida é realçado também pelo sonho, fonte de fruição dos desejos (“o sonho que tu sonhas”).

Repare que o ritmo e as sonoridades da primeira estrofe acentuam o caráter lírico da composição. No primeiro verso, temos a aliteração do “r” (“Primavera cruza o rio”), a anáfora com o segundo verso (cruza/cruza), ao que se soma a metonímia encontrada no terceiro verso ("cidade adormecida") e o hipérbato (aqui desfeito): “Primavera vem chegando na cidade adormecida”.

Logo em seguida, o eu lírico descreve as transformações ocorridas com a chegada da Primavera e a reação das pessoas. É um momento de festa, de liberdade e de não interdição, simbolizada no enlouquecimento do catavento e na igualdade dos homens, que se encontram sem diferenças sociais, o que é expresso pelo coletivo bando, e que, dançando em torno do catavento, parecem cúmplices da sua loucura. Enfatizando esse aspecto, temos a repetição no uso do gerúndio (girando, girando), aproximando a loucura do catavento à dos homens.

Todos são convocados para esta dança de sagração da Primavera: as amadas, os mortos, os amigos. E, já que todos sabem o motivo desta dança ( a chegada da estação do amor, das flores e da esperança), devem dançar até a extenuação, ou até que os muros (as interdições, as proibições e os obstáculos construídos pelos homens) estejam plenamente floridos graças ao espírito da Primavera.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Consoada - Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Vocabulário
Consoada: refeição noturna
Coroável: carinhosa, amável
Iniludível: a quem não pode iludir
Sotilégios: mistérios

Acompanhar a trajetória de Manuel Bandeira é ter oportunidade de contato com etapas realmente significativas da evolução poética do século XX. Sempre pensando que morreria cedo, por causa de sua pouca saúde, acabou vivendo muito e legando uma das mais densas heranças humanísticas da nossa literatura. Seu primeiro livro, A cinza das horas, de 1917, evidencia traços parnasianos e simbolistas, e revela a marca registrada de toda a sua poesia futura: sentimentalismo mesclado de amargura.

“A vida é amarga. O amor, um pobre gozo...
Hás de amar e sofrer incompreendido,
Triste lírio franzino, inquieto, ansioso,
Frágil e dolorido...”

Carnaval (obra que marca o início da libertação das formas fixas), de 1919, inaugura sua entrada no movimento modernista (do qual foi chamado "O São João Batista do Modernismo" por Mário de Andrade). Mas ele nunca participou ativamente do grupo paulista, apesar de ter enviado um poema para a Semana de Arte Moderna: Os Sapos (um dos mais vaiados pelo público que compareceu ao Teatro Municipal de São Paulo, declamado por Ronald de Carvalho).

"Pouco me deve o movimento; o que eu devo a ele é enorme. Não só por intermédio dele vim a tomar conhecimento da arte de vanguarda na Europa ( da literatura e também das artes plásticas e da música), como me vi sempre estimulado pela aura de simpatia que me vinha do grupo paulista. " (Manuel Bandeira, Itinerário de Pasárgada.)


Em Ritmo dissoluto (1924), os poemas de Bandeira associam grande maturidade técnica e um lirismo impregnado de descobertas do cotidiano, poeticamente transfiguradas.

Muitos críticos consideram que seu ponto alto como modernista se dá no livro Libertinagem(1930), quando desenvolve plenamente a renovação: a fuga do “belo” tradicional em poesia, a incorporação da linguagem coloquial e popular(a temática do dia-a-dia, com poemas tirados de notícias de jornal, de frases corriqueiras, orientados, como os demais, por tom irônico e, às vezes, trágico) a evocação da infância e a morte, sempre presente, velha confidente. Esses elementos prosseguirão em Estrela da manhã (1936) e estarão presentes nas obras seguintes.

Retomando certos motivos já explorados por poetas românticos (a saudade, a infância, a solidão) e procurando estreitar os laços entre poesia e cultura popular, Manuel Bandeira mantém, de fato, alguns pontos de contato com o Romantismo, mas é um poeta essencialmente modernista. Jamais cai, por exemplo, num sentimentalismo piegas ao lembrar-se da infância: uma fonte inesgotável de emoção poética. A infância que evoca é uma experiência vivida e concreta, não idealizada, que, contrastada com o presente, acentua-lhe a condição trágica.

A solidão, que levava os poetas ultrarromânticos a buscarem na morte a saída para os problemas da existência, em Manuel Bandeira toma outra direção – a da paixão do poeta pela vida:

“O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que adoro em ti, é a vida.”

É inegável que a convivência com a possibilidade de morrer colocada desde cedo diante do poeta (Bandeira tinha apenas 17 anos quando descobriu a doença e, naquela época, a tuberculose era uma doença com poucas chances de cura) imprimiram a sua poesia uma capacidade única de captar as emoções do cotidiano. Desenganado várias vezes pelos médicos, foi impedido de continuar os estudos na área de engenharia, em função das muitas viagens que teve que fazer para tratamento(casas de saúde situadas em estações climáticas do Brasil e da Europa).

“Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!”



Mesmo morrendo após os 80 anos, a moléstia fez com que Manuel Bandeira convivesse continuamente com a morte (muitas vezes com angústia e uma espécie de resignação, mas algumas vezes com ironia e irreverência ) e se voltasse mais para dentro de si mesmo, deixando que isso transbordasse em muitos de seus versos. Ele sempre acreditou que morreria cedo e que não teria tempo para construir uma vida familiar e profissional. Refugiava-se, então, nas lembranças do passado, diante da imaginada impossibilidade do futuro.

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Consoada é uma pequena ceia noturna; pode também significar “ceia de Natal” e, em português mais antigo, “presente de Natal”. É para essa ceia que o eu lírico espera a morte, através de um eufemismo (“a indesejada das gentes”), que pode chegar dura ou “coroável” ( a palavra vem de “caro” e que dizer “amigável, favorável”, até mesmo “querida”). Essa atitude diante da Morte(Alô, iniludível!) não é de medo ou pessimismo. É como se ele a recebesse para um jantar, a fim de compartilhar com ela uma refeição amistosa, sem nada de trágico ou doloroso.

Tal disposição, aparentemente contraditória, de coragem e descaso, é traduzida por outros recursos estilísticos (pois o texto é predominantemente metafórico), como por exemplo:

No uso da antítese (“não sei se dura ou coroável”, “o meu dia foi bom, a noite pode descer”) e o uso do subjuntivo e da palavra talvez, indicando o clima constante de dúvida (“talvez eu tenha medo” — repare que todos os termos, aqui, foram empregados em seu sentido próprio,denotativo).

Mas, surpreendentemente, este clima de incerteza é logo desfeito: as metáforas dos últimos versos(a mesa e as particularidades da casa, por exemplo, são metáforas das “coisas da vida”) deixam perceber que o eu lírico está pronto para a morte, já que sua vida foi adequadamente cumprida.

A simplicidade da linguagem é impressionante; a intensidade lírica também (o encontro com a morte é tranquilo, transmitindo-nos forte sensação de completude, de satisfação com a própria existência). Conclui-se que a atitude do eu lírico diante da morte é de quem espera uma visita certa, íntima, amiga e por isso digna de fraterna recepção.


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Amor de perdição - Camilo Castelo Branco

Amor de perdição é a mais famosa novela passional de Camilo Castelo Branco. Embora tenha relacionado a história à vida atribulada de um parente (seu tio Simão Botelho), Camilo incorporou à obra muito de suas próprias experiências na prisão(escrita na Cadeia da Relação do Porto) e de seu relacionamento proibido com Ana Plácido, mulher casada.

Nascido em Lisboa, casa-se aos 16 anos com uma aldeã de 15, mas logo deixa esposa e filha e vai para o Porto, estudar na Escola Médica e Acadêmica Politécnica, que abandonara mais tarde. É no Porto que toma contato com a vida citadina e as atividades artísticas e literárias(uma trajetória atormentada e boêmia, que muitas vezes serviu de inspiração para seus enredos sentimentais). Foge com Ana Plácida, mulher casada com um rico comerciante brasileiro. Por crime de adultério, os amantes são presos. Neste ínterim, publica “Amor de perdição”(1862). Finalmente absolvido, liga-se definitivamente a Ana Plácido e com ela se casa após a morte do marido. A partir daí dedica-se a escrever livros como forma de sobreviver.

Camilo Castelo Branco foi um escritor de enorme produção. Sua obra inclui poemas, peças teatrais, cartas, textos jornalísticos, exemplos de historiografia e crítica literária e, principalmente, novelas e romances. Essa produtividade se explica pelo fato de Camilo dedicar-se exclusivamente ao ofício de escritor (produzindo ora de acordo com uma inspiração e autenticidades particulares, ora apenas seguindo a moda dominante), daí obtendo toda a sua renda. Torna-se o escritor mais lido em Portugal.

Apesar disso, desgostos na família (dificuldades financeiras, a loucura de um filho) e a ameaça de cegueira irreversível ( em conseqüência da sífilis, que adquirira na juventude) levam-no cada vez mais ao desespero. Sem possibilidade de cura, suicida-se. Perceba que essa “história” não é um enredo de nenhum romance romântico, mas a síntese da biografia de Camilo Castelo Branco (1825 – 1890), um dos mais fecundos escritores da literatura portuguesa.

As novelas de Camilo Castelo Branco incluem temas históricos, aventuras, mistérios, sátiras e paixões. Essa variedade gerava grande interesse no público, já acostumado à tradução dos folhetins franceses e ingleses receptivos ao Romantismo, graças à produção de Almeida Garrett e Alexandre Herculano. A obra de Camilo corresponde à segunda etapa do movimento em Portugal.

Em linhas gerais, a novela (do italiano novella, ou seja, pequenas histórias, como as de Boccaccio em Decameron) é a representação de um acontecimento, sem a amplidão do romance no tratamento das personagens e do enredo. Como característica, apresenta o condensamento da ação, do tempo e do espaço, bem como um ritmo apressado no desenvolvimento da sua intriga. A história é linearmente contada, as descrições são rápidas, não há praticamente análise psicológica de personagens.

Escrita em terceira pessoa, esta obra caracteriza-se por um narrador onisciente, isto é, um narrador que desvenda o universo interior dos personagens. Dividida em vinte capítulos, mais a introdução e a conclusão, Amor de perdição segue uma sucessão temporal rigidamente cronológica. A síntese das principais ações mostra a presença de ingredientes romanescos de que Camilo invariavelmente se utiliza, em suas novelas passionais: o amor irrealizado e alimentado à distância, a proibição da sociedade à realização do sentimento amoroso e o final trágico dos protagonistas.

“Amor de perdição” narra as desventuras de amor relacionadas a dois jovens de famílias inimigas(à moda Romeu e Julieta, de Shakespeare), que fazem da separação de ambos uma questão de honra ( as questões de honra, aliás, podem ser consideradas como um dos principais motivos do romance camiliano). O episódio mais representativo ocorre no seu desfecho, quando o tema da “morte por amor” atinge o seu clímax.

O drama desenvolve-se em Viseu. Simão Botelho, jovem impetuoso, apaixona-se pela vizinha Tereza de Albuquerque, de 15 anos. Depois de todos os obstáculos sucessivamente colocados à realização amorosa dos apaixonados, a solução em seu favor vai se tornando impossível. O pai de Teresa, Tadeu de Albuquerque, deseja casar a filha com um primo, Baltazar Coutinho, recusado por ela. A partir deste momento, Teresa é ameaçada de ir para um convento. Ela mantém-se fiel a Simão, que fora estudar em Coimbra.

Enfurecido com as investidas de Baltazar, Simão retorna a Viseu . Na tentativa de rever Teresa, através de um encontro noturno, Simão tem de matar dois criados de Baltazar para não morrer. Sai, porém, ferido. Refugia-se na casa de um ferreiro (João da Cruz), cuja filha Mariana, ao cuidar do ferimento, é tomada de forte paixão.

Com a insistência de Teresa em se negar ao casamento e a obedecer às ordens de seu pai, acaba senso enviada para um convento local. A partir daí, os namorados se comunicam por cartas, na maior parte das vezes levadas e trazidas por uma mendiga, que consegue passar despercebida durante quase todo o tempo. As cartas trocadas pelos amantes são importantes para a compreensão da trama. Contribuem para a consolidação da atmosfera emocional da novela.

Simão não desiste de sua amada e decide resgatá-la do convento. Essa tentativa coincide com o momento em que lá também estão o pai dela e Baltazar. Interpõe-se, aí, o obstáculo definitivo aos amores do par desventurado; Simão e Baltazar discutem, agridem-se. Simão, disparando contra Baltazar, fere-o mortalmente, à vista de Teresa, e entrega-se à justiça, sem nenhuma decisão de atenuar o crime. Preso na cadeia da Relação da cidade do Porto, Simão passa os dias em desespero, tendo ao lado a fiel companhia de Mariana. Condenado à morte, seu pai, o magistrado José Correia Botelho de Mesquita e Meneses, obtém comutação da pena para dez anos de degredo na Índia.

Simão vai sendo consumido pouco a pouco pelo sofrimento. O mesmo acontece com Teresa, já em outro convento, em Mochique, dirigido por uma parenta que lhe dá os últimos lenitivos. A história termina com a morte de Teresa, quando ela vê, das grades do convento, partir o navio que levará o seu amado ao exílio. No navio, acompanhado por Mariana, Simão sabe da morte de Tereza, através do capitão. Mais tarde, morre delirando, vítima de uma febre repentina. Seu corpo é atirado ao mar, junto com as cartas de Tereza. No decorrer de inúmeras peripécias, há também o suicídio de Mariana, amiga e dedicada companheira de Simão em todas as desgraças. Amando-o silenciosamente durante todo o tempo, lança-se às águas para morrer abraçada com o amado.

É verdade que Amor de perdição, ao chegar a seu clímax, tinge-se de um certo exagero. Mas o exagero que se reveste o romance passional não é uma invenção nem de Camilo, nem do Romantismo. Ele já era cultuado muitos séculos antes, no teatro clássico dos gregos, sobretudo em Eurípides.

Fragmento ( Conclusão )
Ao romper da manhã apagara-se a lâmpada. Mariana saíra a pedir luz, e ouvira um gemido estertoroso. Voltando às escuras, com os braços estendidos para tatear a face do agonizante, encontrou a mão convulsa, que lhe apertou uma das suas, e relaxou de súbito a pressão dos dedos.
Entrou o comandante com uma lâmpada, e aproximou-lha da respiração, que não embaciou levemente o vidro.
— Está morto! — disse ele.
Mariana curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro beijo. Ajoelhou depois ao pé do beliche com as mãos erguidas, e não orava nem chorava.
Algumas horas volvidas, o comandante disse a Mariana:
— Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo... É ventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrela. Passe a senhora Mariana ali para a câmara que vai ser levado daqui o defunto.
Mariana tirou o maço das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma caixa buscar os papéis de Simão. Atou o rolo no avental, que ele tinha daquelas lágrimas dela, choradas no dia da sua demência, e cingiu o embrulho à cintura.
Foi o cadáver envolto num lençol, e transportado ao convés.
Mariana seguiu-o.
Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou às pernas com um pedaço de cabo. O comandante contemplava a cena triste com os olhos úmidos, e os soldados que guarneciam a nau, tão funeral respeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.
Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia estupidamente encarar aqueles empuxões que o marujo dava ao cadáver, para segurar a pedra na cintura.
Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pôde segurar Mariana, que se atirara ao mar.
A voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana.
Salvá-la!...
Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O comandante olhou para o sítio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no cordame, o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que os marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondência de Teresa e Simão.
Da família de Simão Botelho vive ainda, em Vila Real de Trás-os-Montes, a senhora D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco, a irmã predileta dele. A última pessoa falecida, há vinte e seis anos, foi Manuel Botelho, pai do autor deste livro.

O texto apresenta algumas características típicas do ultrarromantismo: O sofrimento amoroso que leva à morte (todos são “mártires do amor”); a servidão amorosa, o primeiro beijo de Mariana em Simão...morto, o clima de tragédia. Para um romântico da segunda geração, é impossível viver sem a pessoa amada.

O inusitado triângulo amoroso formado por Simão, Teresa e Mariana, tão docemente dedicada ao amado, que não se importa que ele ame outra, era uma inovação bem ao gosto dos folhetins passionais, em que o amor se encontra fora do alcance da razão.

É interessante notar que temos, em pleno mar, a representação da união de dois casais: Mariana abraçada ao cadáver de Simão; as cartas de Teresa atadas as cartas de Simão, num único rolo.

Por fim, a ideia de morrer por amor era um dos ideais do ultrarromantismo, capaz de emocionar e promover a catarse do leitor, levando-o a admirar a tragédia amorosa e, ao mesmo tempo, respirar aliviado por ela não ter acontecido com ele próprio.