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domingo, 1 de maio de 2011

Retrato - Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e morreu na mesma cidade em 1964. Tendo perdido prematuramente os pais ( o pai, três meses antes de ela nascer, e a mãe, quando tinha três anos), foi educada pela avó materna. Em decorrência dede fato, notamos, em suas poesias intimistas, muito presente a relação vida x morte, eterno x passageiro etc., além do aspecto “solidão”, tudo explorado com muito lirismo e leveza.

Segundo a própria escritora, “o meu interesse pelos livros transformou-se em vocação de magistério. Minha mãe tinha sido professora primária, e eu gostava de estudar em seus livros”. Diplomada em professora em 1917, atuou no magistério primário, enquanto estudava música e também escrevia para os principais jornais da imprensa carioca. Em 1919 publicou o seu primeiro livro de poemas, mas a consagração viria em 1938, com Viagem (obra publicada no ano seguinte), que conquistou o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. 


Fez várias viagens pelo mundo, como conferencista de literatura, educação e folclore, outro de seus campos de interesse. Quando morreu, em 1964, preparava um poema épico-lírico em comemoração ao quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro.

Cecília Meireles, por ter seguido um caminho muito pessoal, não pode ser enquadrada em um movimento ou em uma estética determinados. Seus versos, geralmente curtos, de conteúdo lírico tradicional e muito pessoais, têm raízes simbolistas e se caracterizam pela musicalidade, descritivismo e imagens sensoriais. Um dos pontos altos de sua obra é o Romanceiro da Inconfidência, que lhe custou pesquisas históricas e no qual, empregando o melhor de sua técnica, revela o seu amor à pátria, à liberdade, e a sua admiração pelos mártires da Inconfidência Mineira.

Sua estréia deu-se em 1919, com a publicação de Espectros, coleção de sonetos ainda filiados ao Parnasianismo e Simbolismo. Nunca mais... e Poemas dos poemas, assim como Baladas para El-rei refletem a ligação da poetisa com o grupo espiritualista da Revista Festa. Esses livros foram excluídos de sua Obra poética pela própria autora, que não os considerava representativos de sua poesia. 


Cecília preferiu considerar como marco inicial da sua trajetória poética o livro Viagem (1939), no qual demonstrava maturidade poética. Neste livro, mantém-se dentro dos padrões tradicionais e ultrapassa o primeiro momento do Modernismo brasileiro (anedótico e nacionalista). Ao gosto pela tradição, soma-se uma visão filosófica e universalizante. As indagações sobre a brevidade da vida, o sentido da existência, a solidão e a incompreensão humana, presentes em Viagem, estão em quase toda a sua obra, perpassada por um sentimento de pessimismo e desencanto.


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A atmosfera de dor existencial que emana dos poemas de Cecília Meireles é centrada na percepção de que tudo passa e de que o fluir do tempo dissolve as ilusões e os amores, o corpo e mesmo a memória. Um exemplo desta visão sofrida está no poema “Retrato”. Quanto à forma poética, o texto, em parte, liga-se ao Modernismo pela ausência de rimas, que confere uma fluidez mais coloquial à linguagem. No entanto, a estrofação regular (quatro versos) e a métrica, também regular ( os versos maiores variam entre 8 e 9 sílabas, e os menores, com exceção do 4.º verso, têm 4 sílabas), indicam uma poesia vinculada ao tradicional ( resquícios da poesia simbolista). O poema explora a musicalidade através da aliteração do som nasal, sugerindo, neste caso, um lamento frente à situação presente.


Na 1.ª estrofe, a efemeridade da vida é constatada quando o eu lírico descreve o seu próprio rosto. Entretanto, ele não mais o reconhece como sendo seu, conforme afirma no verso inicial. A ideia é intensificada pelo advérbio de negação e pelo pronome demonstrativo, que sugere a passagem do tempo, a transitoriedade da vida: “ Eu não tinha este rosto de hoje”. Perceba que os adjetivos ( palavras que modificam o substantivo indicando-lhes uma característica, qualidade, aparência ou modo de ser) "calmo", "triste", "magro" e "amargo" descrevem as características físicas e psicológicas relacionadas ao envelhecimento. As expressões “olhos tão vazios” e “lábio amargo revelam sofrimento e certo desencanto frente a situações que foram vivenciadas.


Na 2.ª estrofe, o eu lírico observa as transformações ocorridas em suas mãos, caracterizadas como sem força, paradas, frias e mortas. São partes significativas e simbólicas do corpo, que outrora traduziam força e luta pela vida. Em seguida, descreve seu coração, metáfora para os seus sentimentos, que, antes, eram expostos e atualmente estão retraídos, escondidos (“eu não tinha este coração/que nem se mostra”). É a composição de um “retrato” interior, de si mesma, mostrando-se fechada e sem energia, sem dinamismo em relação à vida.


Na 3.ª estrofe, logo no primeiro verso, o eu lírico percebe e assume que mudou fisicamente e interiormente. Três adjetivos modificam o substantivo mudança” (simples, certa, fácil), com a finalidade de reforçar o caráter inexorável do passar do tempo. Além dessa percepção, questiona em que momento da vida a sua juventude foi emoldurada pela imobilidade, como acontece nos álbuns de família.


O título “Retrato” se encaixa perfeitamente ao poema. É uma das formas de registro do tempo porque simboliza algo estático, eternizado. O espelho é o instrumento do qual o eu lírico tomou conhecimento das mudanças que lhe ocorreram. Refletidas exprimem sucessões, antecipações, lembranças, instabilidade. Enfim, reflete o próprio tempo que sempre preocupou o homem, pois pensá-lo significa ocupar-se da fugacidade e da efemeridade da vida e da inexorabilidade da morte.

sábado, 2 de abril de 2011

Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


“A poesia cria o mito do homem, enquanto o prosador traça seu retrato.”
(Sartre)

Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902. Descendente de família ligada às tradições dos povoadores, mineradores e fazendeiros de sua região, cedo deixou a cidade natal (1916) para estudar na capital do estado. Formado em farmácia, dedicou-se ao jornalismo e ingressou no funcionalismo público. Em Belo Horizonte, pertenceu ao grupo de renovação modernista e dirigiu sua efêmera publicação, A Revista (1925). Posteriormente, fixou-se no Rio de Janeiro, abandonando a militância cultural e dedicando-se à vida de funcionário público e à elaboração de suas poesias e crônicas (estas últimas, publicadas em grandes jornais, o fizeram muito lido e conhecido). Morreu no Rio de Janeiro, em 1986.

Estreando em livro aos 28 anos, Drummond compôs até seus 60 anos (1962) a parte mais importante de sua obra (dez livros de poesia): Alguma poesia (1930), Brejo das almas (1934), Sentimento do mundo (1940), José (1942), A rosa do povo (1945), Novos poemas (1948), Claro enigma (1951), Fazendeiro do ar (1954), A vida passada a limpo (1959), Loção de coisas (1962). Todos esses livros foram coligidos, em 1969, no volume Reunião. Drummond publicou depois várias outras coletâneas de poesias (com relevo para Boitempo & A falta que ama, 1968; As impurezas do branco, 1973; A paixão medida, 1980). Ao todo, 19 livros, que hoje se acham agrupados em Nova reunião (2 volumes).

Além dessa grande obra poética, Drummond publicou volumes de prosa (Contos de aprendiz, 1951, e várias coleções de crônicas). Essa prosa, embora lúcida, penetrante, não tem a inventividade e a tensão de sua poesia; é amena, agradável, apreciada pelo humor, elegância e agudeza. Drummond criou uma linguagem poética própria, original não só no panorama da literatura brasileira, mas também no da literatura internacional de nossa época. Como ocorre com a maioria dos poetas, sua obra apresenta desníveis, mas não é exagero afirmar que, em seus grandes momentos, ela coloca Drummond entre os maiores poetas do mundo.

Devido à vastidão e à complexidade da obra de Carlos Drummond de Andrade, é importante levantar alguns aspectos mais significativos de seus poemas. Os temas que aparecem com mais frequência em sua obra poética são: o desajustamento do indivíduo, a monotonia da vida, a nostalgia do passado, os obstáculos que a vida oferece, a preocupação sociopolítica, a angústia diante da morte, a própria poesia e a falta de perspectiva do homem.

O ´´desajustamento do indivíduo`` é um tema fundamental na obra do poeta. Ele se sente um ser marginalizado, desajustado, um ser deslocado de seu tempo ( um eu todo retorcido). É a fase gauche representada pelas primeiras obras, Alguma poesia e Brejo das almas. A palavra ´´gauche``, de origem francesa (pronuncia-se gôch ), significa lado esquerdo. Aplicada à dimensão humana, significa o ser às avessas, o torto, aquele que não consegue estabelecer uma comunicação com a realidade circundante. São comuns a essa fase da poesia drummondiana certos traços, como o pessimismo, o individualismo, o isolamento, a reflexão existencial, além de certas atitudes permanentes, que se estenderão por toda a obra, como a ironia e a metalinguagem.

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O Poema de Sete Faces marca o início de uma trajetória poética das mais peculiares em língua portuguesa. De cunho totalmente autobiográfico, nele o poeta se define como um gauche: espécie de bandeira para todo o tipo de verso que doravante fizer, já que tudo se permite a um ser marginalizado, avesso ao contato, calado em suas observações. As sete faces correspondem a sete estrofes, como se fosse um retrato em sete partes. Poema tipicamente modernista, de ruptura com as convenções( descontínuo, inesperado, coloquial). Escrito em versos livres e com estrofes heterogêneas, apresenta elementos que indicam influência das correstes de vanguarda européia: a fragmentação cubista, a falta de pontuação futurista; certas imagens surpreendentes que lembram o Surrealismo (“o bonde passa cheio de pernas”). Há uma aparente desconexão entre as várias estrofes, como se o poeta registrasse flashes da realidade. A ideia básica de cada uma delas é a seguinte:


Na 1.ª estrofe, temos o nascimento do poeta, marcado pela presença de um anjo. É comum, em várias passagens bíblicas, o aparecimento de um anjo para um ser humano (em sonho ou em estado de vigília), com o objetivo de orientá-lo em relação ao futuro. Um exemplo é a presença do anjo Gabriel a José, ordenando-lhe que fugisse de Jerusalém com o menino Jesus. Geralmente são anjos bons, prenunciam coisas boas e auxiliam as pessoas a encontrar o melhor caminho. Enfim, são ´´anjos de luz``. O anjo que aparece ao eu lírico é o contrário disso: é ´´torto``, vive ´´na sombra`` e lhe prediz um futuro gauche. A ironia do poeta nesta estrofe consiste na inversão das características do anjo e da predestinação( uma espécie de paródia da imagem religiosa do anjo).


Na 2.ª estrofe, o mundo exterior ( as casas, os homens, as mulheres, a tarde, o céu azul) é discutido na óptica de um indivíduo gauche: um mundo vazio, superficial, onde as relações humanas parecem ser medidas apenas pelo desejo. Como em toda a obra drummondiana, o desejo amoroso é problematizado, tratado como algo incompreensível, que transfigura o mundo e o sujeito. O fato da existência de tantos desejos impede a tranquilidade e a beleza dos dias. Observe que o eu lírico atribui uma ação própria dos seres humanos – espiar – a seres inanimados, “as casas”, personificando-as. A esse recurso estilístico chamamos prosopopéia.


Na 3.ª estrofe, o eu lírico mostra-se espantado diante desse mundo externo que ele não compreende ( mistura das raças, o movimento da cidade, o bonde – elemento que representa a velocidade). É uma “praça de convites” que o atrai (“Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração”), mas ele, altivo, nega-se a fazer parte desse mundo (“Porém meus olhos não perguntam nada”). É o desajustamento entre a realidade interior e a exterior, aliado à percepção da sensualidade.

Observe também o uso do recorte metonímico ("pernas brancas pretas amarelas"). A metonímia é uma figura de linguagem que consiste em identificar um objeto por meio de uma parte de seu todo: no poema, "pernas" se referem, metonimicamente, às pessoas que estão no bonde. Ainda nesse verso, a ausência de vírgulas é um recurso utilizado para criar a justaposição rápida de imagens e, com isso, sugerir a simultaneidade.

Na 4.ª estrofe, o eu lírico evidencia a oposição entre o que é visto e o que é sentido. Neste contexto, o tema do desajustamento é reforçado pela incomunicabilidade com o “outro”. O homem que está atrás do bigode e dos óculos, por sua seriedade e isolamento, parece esconder-se atrás dessa “máscara” para evitar a convivência com as outras pessoas e, com isso, disfarçar a sua própria intimidade. Esse “homem” pode muito bem ser o próprio poeta, como está sugerido também na 1.ª estrofe, tornando o poema inequivocadamente autobiográfico.


Na 5.ª estrofe, outra imagem religiosa ganha destaque; lembra de novo um aproveitamento bíblico: a passagem em que Cristo, em momento de fraqueza, dirige-se ao Pai e reclama de seu abandono e desamparo (Eli, Eli, lamma sabachthani? Isto é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" – Bíblia, Mateus 27:46). Existe uma semelhança entre ambos quanto ao seu relacionamento com o mundo: ambos se sentem vítimas de seu próprio destino gauche, que envolve contradições com a realidade. Note que o apelo do eu lírico é ainda mais dramático do que o do próprio Cristo porque, de acordo com o verso “se sabias que eu não era Deus”, Cristo era Deus e sabia que sua morte era necessária para a causa que defendia. O gauche, porém, é apenas um fraco que não vê perspectivas para o seu confronto com o mundo.


Na 6.ª estrofe(famosa pelo humor que contém), o gauche supõe a possibilidade de chamar-se Raimundo (um nome que contém a palavra mundo – um jogo de palavras). No entanto, ele afirma que tal fato levaria apenas a uma rima, não a uma solução para o desencontro com a realidade. Orgulhoso e individualista, o eu lírico sente-se superior em relação ao mundo que considera errado. Sua postura, contudo, é apenas de distanciamento ( o gauche prefere resguardar-se a ceder em seus pontos de vista sobre o mundo).


Na 7.ª estrofe, é introduzido um interlocutor, até então ausente, identificado pelo pronome “te”. Sem dúvida, há várias possibilidades de interpretação. Quem é? O mundo ou o Cristo? Alguma pessoa amada ou “homem atrás do bigode? Ou seria o próprio leitor? Suponho, até por ser mais coerente com o poema, que seja o leitor, mas...

Discussões à parte, essa última estrofe encerra o poema como um disfarce: ao sentir-se “flagrado” em seu extravasamento emotivo (que se manifesta principalmente na estrofe anterior –"mais vasto meu coração"), o eu lírico delega essa mesma emoção à lua e ao conhaque, como se estivesse envergonhado de assumi-la ("mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo"). Ao assumir o fruto da bebedeira e, talvez, da solidão, o gauche torna-se mais gauche ainda quando é desmitificado, revelando-se sentimental, apesar de tudo.

O Poema de Sete faces é significativo da primeira fase da poesia de Drummond, onde o poeta se coloca como um “gauche”, um desajeitado, cujo coração – mais vasto que o mundo – transborda. Mas transborda com ironia, com humor desencantado, sarcástico, com uma espécie de secura que represa a emoção.

quarta-feira, 9 de março de 2011

No meio do caminho - Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Vocabulário
Retina: a mais interior das membranas do globo ocular e em que se formam as imagens.
Fatigada: cansada.

O ano era 1902 e a cidade, a pequena Itabira do Mato Dentro. No dia 31 de outubro veio ao mundo o nono filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de d. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Quem diria que aquele menino cresceria para se tornar um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos? Itabira, a pequena cidade mineira, entrou para o cenário da Literatura mundial quando se tornou o berço do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Alguns anos vivi em Itabira. / Principalmente nasci em Itabira. / Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro” escreveria ele, anos mais tarde, associando um comportamento ensimesmado ao minério de ferro que enriquecia a cidade onde nasceu. Sua educação, no entanto, é feita em um colégio interno em Belo Horizonte. Lá faz amigos aos quais será fiel por toda a sua vida: Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Mello Franco.

Em 1925 a participação dos mineiros na primeira geração modernista concretiza-se com a publicação de A Revista, em cujos três números Emílio Moira, Martins de Almeida, Gregoriano Canedo e o próprio Drummond propõem a reformulação dos padrões estético-literários brasileiros. Em 1928, Carlos Drummond de Andrade, até então desconhecido, lançou na Revista de Antropofagia o poema “No meio do caminho”.

O Modernismo, que eclodiu em São Paulo na Semana de Arte Moderna (1922), estava no auge da “fase heroica”. Fundada naquele ano de 1928, por Oswald de Andrade, A Revista de Antropofagia representava a vanguarda do movimento. O poema de Drummond, republicado dois anos depois em seu livro de estreia Alguma poesia (1930), causou escândalo: a literatura contava então com mais espaço social, uma novidade ainda podia escandalizar um considerável número de pessoas. Drummond subitamente se tornou conhecido: foi admirado ou ridicularizado – e até mesmo agredido – por causa de seu poema audacioso, e a “pedra” passou a representar por excelência a imagem de sua poesia.

“No meio do caminho” é um título carregado de alusões literárias ilustres. “No meio do caminho de nossa vida” (“Nel mezzo Del camin de nostra vita”) é o verso que inicia a grande viagem pelo inferno, purgatório e paraíso, em um dos maiores poemas da humanidade, a Divina comédia, de Dante Alighieri (1265-1321). No Brasil, era muito admirado o célebre “Nel mezzo Del camin...” soneto parnasiano do “príncipe dos poetas brasileiros”, Olavo Bilac (1865-1918), que começa assim: “Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada / E triste, e triste e fatigado eu vinha”...

O poemeto de Drummond soava como brincadeira irreverente, desrespeito não só para com a venerável tradição literária, mas até para com o leitor e a própria poesia. Um texto feito quase só de repetições, sem vírgulas, com fraseado vulgar: contra a gramática e a “boa linguagem”, o poeta escrevia tinha, e não havia; nunca me esquecerei que, e não de que. Tudo extremamente provocativo. Observe alguns comentários a seguir:

Homem! E não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela?” (Cândido da Fonseca)

Gostaram? Pois acabou aí. Quem quiser pode continuar. É só repetir que tinha uma pedra, uma pedra /.../.” (Godin)

Entre os admiradores, “No meio do caminho” provocou interpretações variadas: geralmente, entendeu-se pedra como símbolo do obstáculo e do cansaço existencial ( Mário de Andrade, Álvaro Lins), mas o poema também foi lido como expressão da poética (=concepção da poesia) das primeiras obras de Drummond, uma poética segundo a qual “a poesia surge quando o universo se torna insólito, enigmático embaraçoso – quando a vida já não é mais evidente” (José Guilherme Merquior).

Drummond colecionou, ao longo dos anos, críticas, comentários de jornal, ataques pessoais, paródias – um copioso material referente ao “poema da pedra”, que reuniu numa antologia publicada em 1967. “No meio do caminho” foi responsável por um grande alvoroço e pela fama do poeta, que ironicamente disse:

Passei boa parte da vida apontado como autor de um único poema de dez linhas (ou versos?) tido por pura maluquice, principalmente por pessoas de juízo que nunca o leram, pois ele corria de boca em boca deturpado, com palavras mais ou menos”.

Em outro diálogo...

Como podia eu imaginar que um texto insignificante, um jogo monótono, deliberadamente monótono, de palavras causasse tanta irritação, não só nos meios literários como ainda na esfera da administração, envolvendo seu autor numa atmosfera de escárnio? Professores de português, geralmente bacharéis de formação literária convencional, espalhavam pelo Brasil inteiro, nos ginásios, que o Modernismo era uma piada ou uma loucura, e como prova liam o poeminha da pedra.”

Repare que Drummond usa o termo Modernismo para se referir à geração de 22. Seu poema segue as propostas dessa geração: usa versos livres, é antirretórico, aproxima-se do poema piada. Perceba também que, apesar de chamá-lo de “texto insignificante”, Drummond inseriu esse poema na parte da Antologia poética dedicada à “interpretação do mundo”.

E continua o poeta a fazer novas revelações:

Mas o que mais me tocou nessa longa história de um poema que não chega a ser poema foi o que ouvi de uma amiga (...) Para distrair um seu sobrinho, que estava doente, ela repetia a cantilena do ´tinha uma pedra`, e esperava tirar disto um efeito cômico, que fizesse o menino rir. Ele não riu e observou: ´A senhora acha isso engraçado? Eu acho sério, me faz sentir uma coisa...` Não explicou que coisa era...”

Comentários sobre o poema

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“No meio do caminho” é um poema de dez versos livres (repetitivos e circulares), distribuídos através de duas estrofes heterogêneas ( quadra e sextilha respectivamente). Entre os vários recursos de estilo utilizados por Drummond no genial poema, é importante realçar a caprichosa disposição das palavras em cada verso. Observe, inicialmente, a colocação estratégica da palavra “pedra” (algo aparentemente banal, que parece ser o elemento mais importante no caminho do poeta, tem o seu destaque marcado justamente pelo ritmo do poema). Sobre a sílaba tônica “pé” se descarrega o ímpeto do fluxo rítmico e sonoro crescente formado pela sequência de nasais envolvendo e arrastando sons vocálicos fechados.

É na recorrência dos versos “ no meio do caminho tinha uma pedra” e “tinha uma pedra no meio do caminho” (quiasmo – cruzamento de grupos sintáticos paralelos), apresentados, que, imageticamente, quase de forma simétrica, o desenho do poema se faz, deixando de fato “uma pedra no meio do caminho”. Na comparação entre o poema em língua portuguesa e as suas traduções para outras línguas (francês, italiano, inglês, espanhol, húngaro, dinamarquês, holandês, latim etc.) é possível perceber tanto a persistência do ritmo como o desenho do poema.



Na 1.ª estrofe, o eu lírico atribui uma dimensão alegórica ao vocábulo “pedra”, que pode ser entendido como símbolo de dificuldades que o ser humano encontra na vida. Haroldo de Campos, que foi dos que mais esclarecedoramente analisaram o estranho texto, procurou desvendar o sentido, não de pedra, mas do modo de composição do poema, particularmente do papel que as repetições (redundâncias) nele representam.

Partindo da oposição redundância x novidade, Haroldo de Campos mostra que a repetição exagerada, por ser surpreendente, cria a novidade, a “informação estética”. Esse processo de transformação da redundância em informação, da repetição em novidade, ocorre em outras obras de arte modernas, como o quadro Quadrado branco sobre fundo branco (1918), do pintor russo Kasímir Malévitch. Mas isso não acontece só na arte: num campo de neve, por exemplo, impressiona a repetição incessante do branco, como num deserto a insistência interminável da areia. A frase “tinha uma pedra no meio do caminho”, obsessivamente repetida, carrega-se de um sentido inesperado.


Na 2.ª estrofe, observamos que o eu lírico deixa transparecer uma relação entre a “pedra” e os possíveis impasses da vida que o deixaram com as retinas tão fatigadas, pois sentiu uma forte resistência contra a qual todos os esforços foram inúteis para transpor (lutou contra algo que sempre se repetiu). A partir do terceiro verso, entende-se a dimensão dos obstáculos – por todos os lados – , criando um encadeamento como se não houvesse fim. A frase nova, que ocupa o centro do poema, apenas contrasta com a repetição para reforçá-la, reintroduzindo-a como registro indelével da memória (“nunca me esquecerei que no meio do caminho / tinha uma pedra...”). Assim a pedra, com sua dureza, irredutibilidade, está associada à significação de uma vida dura, cheia de decepções e frustrações. A “pedra no meio do caminho”: a luta da consciência para se chegar a um objetivo, a não-transcendência, o inesperado, a expressão do impasse, da dificuldade; o obstáculo que distancia o sujeito do objeto, o homem de seus sonhos... Todos esses sentidos estão presentes na indiferença da pedra. O texto pode ser visto como uma metáfora de que os obstáculos estarão sempre presentes na existência humana.


Provavelmente este é o mais polêmico poema da história do Modernismo, por sua concepção e sua estrutura revolucionárias: os versos se repetem, de modo circular, em torno da pedra (vai até a pedra e volta, sem ultrapassá-la). Por essa organização sintática, pelo radical coloquialismo da linguagem, pelas inúmeras leituras metafóricas que possibilita, este poema tornou-se um símbolo da poesia de Drummond e do Modernismo brasileiro. No meio do caminho, de poesia antipoética, de lírica antilírica, ilustra a travessia do poeta entre o individual e o social, o coração e o mundo.