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Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!
Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza.
Por mais que eu mesmo conhecesse o dano
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano;
Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura.
Vocabulário
Penhasco: pedra elevada.
Criara: criasse.
Cuidara: imaginaria.
Ocasião: motivo.
Penhas: rochas.
Terna: branda, meiga.
Empresa: empreendimento.
Ostentar: exibir, mostrar.
Mais se apura: torna-se mais concentrado.
O Arcadismo foi um estilo literário que perdurou pela maioria do século XVIII, tendo como principal característica o bucolismo, elevando a vida despreocupada e idealizada nos campos. Muitos dos participantes da Conjuração Mineira foram poetas árcades.
Cláudio Manuel da Costa, embora tenha toda sua formação no período barroco, escolhe o Arcadismo como forma de manifestação artística, tendo, inclusive, iniciado o movimento no Brasil, com a publicação de Obras Poéticas, em 1768. Apesar da escolha pela estética idealizadora da natureza, alguns de seus poemas refletem, ainda, certos aspectos barrocos (inversões, antíteses e conflitos interiores). Em suas poesias, os aspectos ligados à natureza fogem ao padrão europeu.
São inúmeras as referências ao “pátrio rio” (Ribeirão do Carmo) e a sua cidade (Mariana), com seus “penhascos”, “rochas íngremes” etc. Usou o pseudônimo de Glauceste (Alceste) Satúrnio. Foi o primeiro poeta do neoclassicismo brasileiro, de sólida cultura humanística.
Cláudio é considerado um dos maiores sonetistas da língua portuguesa, sendo avaliado por Manuel Bandeira, dentre os poetas do grupo mineiro, como “o mais correto na metrificação e na linguagem”.
Os sonetos, em número de cem, podem ser lidos e compreendidos tanto de maneira separada quanto “como partes constituintes de um poema maior”.
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O soneto XCVIII indica a tradição clássica a que pertence o poema, pois os versos são decassílabos e o esquema de rimas é regular (rimas opostas nos dois quartetos: ABBA ABBA e rimas alternadas nos dois tercetos: CDC DCD). Nele podemos perceber uma característica muito própria de Glauceste: um forte tom intimista. . A poesia escrita em primeira pessoa está centrada na constatação da força, da tirania do Amor; o eu lírico confessa-se um prisioneiro, um refém do Amor.
Na primeira estrofe, o eu lírico fala de sua terra natal (observe que as pedras – elemento típico da paisagem mineira – representam o berço do poeta.) e sobre a sua própria maneira de ser(traços da sua personalidade). Apresenta duas ideias opostas (antítese): afirma que nasceu em um lugar de pedras duras, mas que tem a alma terna. Os elementos que identificam o cenário dizem respeito ao campo, à natureza e não à cidade (penhascos, penhas duras). É o princípio do "fugere urbem" (expressão latina que significa fuga da cidade) adotado pelos árcades. A linguagem simples e clara também é uma característica do Arcadismo.
Na segunda estrofe, o poeta focaliza o´´ Amor``(o enfoque termina no fim do soneto), que aparece descrito no poema, como um ser muito forte com vida própria (um guerreiro capaz de vencer os tigres e quebrar a resistência das pedras) que produz sofrimento. Declara que o ´´Amor`` obstinou-se em vencê-lo. Observe que a palavra está grafada com inicial maiúscula porque, na mitologia, os sentimentos são personificados. Logo, esse recurso é uma característica do Neoclassicismo: à imitação dos antigos e, conseqüentemente, à presença da mitologia.
Na terceira estrofe, mesmo conhecendo os danos do amor, o poeta não consegue evitá-los (apresenta-se como derrotado). A expressão ´´cego engano`` é utilizada metaforicamente para representar o Amor (o Cupido, na mitologia, é cego).
Na última estrofe o eu lírico dirige-se às pedras, que, por serem tão duras, aguçariam a firmeza do amor em vencê-las, mas deixa uma advertência: contra o Amor não há resistência( uma pequena reflexão para aqueles que se julgam ´´de pedra`` e, portanto, resistentes à tirania do Amor).
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, d’ expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóis queimado. Tenho próprio casal, e nele assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte, Dos anos inda não está cortado: Os pastores, que habitam este monte, Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o próprio Alceste: Ao som dela concerto a voz celeste; Nem canto letra, que não seja minha, Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!
Mas tendo tantos dotes da ventura, Só apreço lhes dou, gentil Pastora, Depois que teu afeto me segura, Que queres do que tenho ser senhora. É bom, minha Marília, é bom ser dono De um rebanho, que cubra monte, e prado; Porém, gentil Pastora, o teu agrado Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!
Os teus olhos espalham luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve: Papoula, ou rosa delicada, e fina, Te cobre as faces, que são cor de neve. Os teus cabelos são uns fios d’ouro; Teu lindo corpo bálsamos vapora. Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora, Para glória de Amor igual tesouro. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!
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A poesia lírica é a parte mais conhecida da produção literária de Tomás Antônio Gonzaga. São popularmente conhecidos, principalmente na região de Minas Gerais, os amores entre Dirceu (pseudônimo pastoral de Gonzaga) e Marília. Até mesmo na literatura de cordel esse tema já foi explorado.
O longo poema de amor que é Marília de Dirceu acha-se dividido em pequenas unidades chamadas liras. Este nome, na antiguidade, era aplicado para designar o instrumento musical com que se entoava a melodia que acompanhava o poema. Em inglês, ainda hoje, o termo lyrics designa a letra de uma canção. Na literatura de língua portuguesa, o nome lira é usado praticamente só para os poemas líricos de Tomás Antônio Gonzaga.
A Lira I, que abre a obra Marília de Dirceu, é quase uma profissão de fé do poeta-pastor: aí está um indivíduo conformado com a sua sorte, convicto de seu papel, realizando o ideal da áurea mediocridade (um ideal de vida equilibrada, sem excessos e associada à natureza, conforme a concebeu o poeta latino Horácio: ´´fugere urbem ut vivere in áurea mediocritate``).
A primeira característica que chama a atenção logo no início do texto é a paisagem campestre evocada pelo poeta, que fala de vaqueiro, gado, ovelha etc. Observe que o poeta-pastor está inteiramente de dedicado à natureza. Por outro lado, é interessante notar que o poeta se ´´defende`` de alguma coisa. A posição defensiva foi mais de uma vez apontada como insegurança de Gonzaga quanto à sua posição social face a Marília (Maria Dorotéia), pertencente a uma das principais famílias de Minas.
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A linguagem busca um tom sereno, aproximando-se da expressão coloquial. Entretanto, os preceitos de metrificação não foram esquecidos. A estrutura do poema obedece a uma regularidade formal ao longo de todo o trecho: as estrofes são constituídas de dez versos, os oito iniciais decassílabos e os dois últimos (refrões ou estribilhos) hexassílabos, isto é, com seis sílabas métricas. O esquema rimático apresenta rimas alternadas e opostas (ABABCDDC) nos oito versos iniciais de cada estrofe, sendo que nos refrões há a conjugação de sons, ligeiramente desiguais. As palavras bela e estrela constituiriam uma rima imperfeita, porque a vogal e tem aí timbres diferentes: aberto em bela e fechado em estrela.
Embora se trate, como estamos vendo, de um poema regular, a quebra dos versos decassílabos através do refrão não só facilita a leitura, aproximando o texto de uma canção, ou seja, tornando-o musical, mas também instaura um momento lírico cuja repetição enfatiza o sentimento amoroso: sentimento que associa a imagem de Marília à de uma estrela.
Na primeira estrofe, o eu lírico faz um auto-retrato no qual se coloca como pastor, de acordo com as convenções arcádicas. Observe como o eu lírico, Dirceu, faz uma série de afirmações no sentido de estabelecer claramente a sua condição de superioridade social: ´´não sou vaqueiro que cuide do gado alheio, meu rosto não é grosseiro, nem queimado pela exposição às forças da natureza; tenho casa própria, moro nela, tenho bens de que me sustento (vinho, legume, fruta, azeite, leite, finas lãs)``, o que sugere tratar-se de ´´alguém``, um pastor abastado merecedor, portanto, do amor de Marília. Aqui encontramos a valorização dos bens materiais, conjugada com a presença da natureza como cenário poético. Quer dizer, a presença da ideologia burguesa, conjugada com o bucolismo e o pastoralismo que caracterizam o Arcadismo.
Na segunda estrofe, mantêm-se os elementos arcádicos (fonte, pastores, monte, cajado, sanfoninha (representa a lira do poeta). Além de afirmar sua juventude, Dirceu compara seus dotes artísticos aos dos outros pastores que habitam o mesmo monte (referência aos demais poetas árcades). O que Gonzaga sugere, nessa passagem, é muito claro: é melhor poeta que seus companheiros. Note que o tom comparativo do verso insinua, mais uma vez, a superioridade de seu talento literário. ´´Alceste``, no caso, seria Cláudio Manuel da Costa, já que esse é um dos pseudônimos árcades que adotou. O fato de despertar a inveja de Cláudio, a quem admirava, significa, para Gonzaga, o reconhecimento de sua competência poética.
Depois de deixar clara sua condição privilegiada, o eu lírico enfatiza outro aspecto importante: sem o amor de Marília (identificada como ´´gentil pastora``), de nada valem propriedades, juventude, talento. Se todos esses atributos são importantes, o ´´agrado`` de Marília vale mais que a riqueza (rebanho) ou o poder (trono).
Finalmente, a quarta estrofe é dedicada a Marília: a seus olhos de luz divina, as suas faces cobertas por papoila, ou rosa delicada, aos fios de ouro de seus cabelos, ao lindo corpo que vapora bálsamos...
Se o poeta primeiro aparece como ´´senhor``, na medida em que vai revelando o seu amor, vai passando de senhor a ´´servo``. Isso porque Marília (nome de pastora, de acordo com a mitologia clássica) incorpora também a imagem da ´´mulher-anjo``, a Senhora, a ´´estrela`` da tradição medieval, uma imagem a quem o poeta presta vassalagem amorosa, mas a quem, ao mesmo tempo, sabiamente procura convencer de suas qualidades.
As liras de Gonzaga refletem não apenas os amores de Marília e Dirceu, mas todas as suas experiências vividas em terras mineiras e o ideal de ´´áurea mediocritas``, o ideal de uma existência tranquila, sem extremos. Sobretudo na Parte II, correspondente às liras escritas no cárcere, avultam poemas, em que o poeta se torna o centro de suas preocupações, e, por outro lado, expressam uma forte confiança em sua própria conduta. Manifestação poética do gênero lírico, Marília de Dirceu reflete circunstâncias da própria vida do poeta, expressando o seu ´´eu``, que consiste numa revelação sincera e minuciosa de seu modo de ser. Nesse sentido, muitas vezes a figura de Marília aparece como pretexto, apenas, para Dirceu manifestar experiências pessoais. Assim, de uma certa forma, atinge a temática romântica. Gonzaga torna-se um poeta pessoal, e ´´mais do que cantor de Marília, ele é cantor de si mesmo``. E, assim, ´´a sua grande mensagem é construída em torno dele próprio``, conforme Antônio Candido em Formação da Literatura Brasileira.
A Cristo S. N. Crucificado, estando o poeta na última hora de sua vida.
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinqüido,
Vós tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
Vocabulário
Clemência: perdão, indulgência.
Desgarrada: perdida, pecadora.
Despido: despeço.
Delinguido: pecado.
Sobeja: é necessário.
Cobrada: recuperada.
Sacra História: as Sagradas Escrituras.
"O que vos parece? Suponhamos que um homem possua cem ovelhas e uma se extraviou. Não deixará ele as noventa e nove na montanha para ir buscar a ovelha que se extraviou?"
Mt 18:12
O exemplo mais conhecido de sua literatura sacra é o soneto A Jesus Cristo Nosso Senhor. Numa curiosa dialética, o poeta apela para a infinita capacidade de Cristo em redimir os piores pecadores, alegando que a ausência de perdão representaria o fim da glória divina. Trata-se, pois, de um poema simultaneamente contrito e desafiador, humilde e presunçoso.
Baseia-se numa passagem do Evangelho de S. Lucas, precisamente no capítulo 15, versículo 2 a 7, onde Jesus Cristo conta-nos a parábola (uma narrativa curta que transmite um conteúdo moral) da ovelha perdida e conclui dizendo que ´´há grande alegria nos céus quando um pecador se arrepende de seus pecados.``
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A estrutura formal desse soneto de Gregório de Matos apresenta o esquema derimas interpoladas nos quartetos (ABBA ABBA) e emparelhada nos tercetos(CDE CDE), com versos decassílabos (predominantemente heróicos). Decassílabos são os versos de dez sílabas poéticas, também chamado de ´´medida nova``, pois foi muito utilizado durante o Renascimento em oposição às redondilhas medievais, chamadas de ´´medida velha``. A estrutura do soneto permite escrever um modelo de tese e antítese, seguidas de uma conclusão, expressa no último terceto ou no último verso desse terceto, a chamada ´´chave-de-ouro``.
Gregório de Matos exemplifica de forma brilhante aquilo que chamamos de conceptismo barroco: através de uma tese, uma afirmação – a da consciência do pecado – a que se segue uma antítese, uma contradição à tese (Pequei, Senhor – tese; mas não porque hei pecado / Da vossa alta clemência me despido – antítese), o poeta chega à síntese, isto é, à unidade da tese com a antítese, provando que o fato de ser pecador deve garantir a ele o perdão de Deus.
Na primeira estrofe, por exemplo, o elo entre tese e antítese – consciência do pecado e busca da salvação – é a idéia de que quanto mais há pecados mais há empenho, da parte de Deus para o perdão. Por quê? A explicação está na segunda estrofe, onde o poeta coloca a questão fundamental para a compreensão do poema: trata-se do seu maior argumento, a do arrependimento. Através dele – “o gemido” do pecador – toda a ira de Deus se abranda, e conseqüentemente a mesma culpa que gerou tanta ira, transforma-se em motivo de salvação. Não podemos esquecer, entretanto, que este argumento é hipotético, é um argumento que no fundo questiona Deus, inclusive através da citação do Evangelho. (veja a terceira estrofe).
Finalizando, podemos dizer que, de acordo com o poema, se Deus é Deus, ou seja, se a Sacra História (perífrase = bíblia; o poeta constrói um intertexto ) é verdadeira, se a volta de uma ovelha desgarrada ( metáfora de pecador) é motivo de glória e prazer, o poeta identifica-se com a ovelha, merecendo, portanto, a salvação.
Os dois últimos versos não só concluem de forma excepcional as argumentações que verificamos, mas também chegam a usar como forma de persuasão a “chantagem”: Cobrai-a, e não queiras , Pastor divino ( perífrase = Cristo) / Perder a vossa ovelha a vossa glória, ou seja, só existe salvação se existir o pecador, se existir o que está perdido. O salvador também depende do pecador.
O poema é predominantemente conceptista, dada a estrutura lógico-argumentativa, o jogo de idéias e o emprego da parábola. Porém, as inversões sintáticas (hipérbato), as antíteses, o requinte vocabular e a sugestão sonora do ´´gemido`` também associam o texto ao cultismo.
Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e temendo perder por ousado
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara? Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares. Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Vocabulário
Florente: florescente, brilhante, esplendente.
Uniformar: converter em uma só forma coisas diversas.
Rama: ramos e folhagens de árvores.
Luzente: brilhante.
Idolatrar: adorar, amar cegamente.
Custódio: anjo da guarda, protetor.
Diabólico: funesto, terrível, satânico.
Azar: agouro, infelicidade, desgraça.
Galharda: garbosa, esbelta, elegante
Pesar: desgosto, mágoa, tristeza.
Tentar: provocar, seduzir, instigar para o mal.
James Amado, baseando-se em grande parte no códice de Manuel Pereira Rabelo (primeiro biógrafo – século XVIII), organizou um ciclo dos poemas endereçados a D. Ângela de Sousa Paredes Rabelo, segundo a evolução do relacionamento amoroso, que termina com Gregório sendo rejeitado em favor de outro.
O soneto transcrito (o sétimo poema do ciclo “Ângela”) revela muito do estilo cultista adotado por Gregório em suas composições. Desenvolve-se por meio do jogo de palavras e imagens: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”. Gregório segue uma tradição explorada por Shakespeare e Camões ao comparar a beleza da mulher à natureza.
Dica
Nesse soneto, nota-se um paradoxo, uma contradição que organiza o poema como um todo: a figura feminina é, ao mesmo tempo, anjo e flor, espírito e matéria. Essa oposição complementar atinge seu ápice no fechamento da última estrofe, em que o eu do poema afirma: "Sois anjo, que me tenta, e não me guarda". O feminino, portanto, eleva-se ao plano celestial, mas conserva em si a tentação como característica fundamental.
Pode-se dizer que a lírica de Gregório de Matos estabelece uma espécie de continuidade em relação à poesia amorosa que tem sua origem em Petrarca e Camões, principalmente no uso da forma soneto e na visão do amor como um sentimento marcado pela idealização da mulher amada. O estilo do poeta baiano traz em si o jogo entre a sensualidade e a espiritualidade reunidas em uma única forma ("Em quem, senão em vós, se uniformara"). Essa tradição da mistura de mulher sagrada e profana, sutil muitas vezes na poesia de Petrarca e de Camões, chega ao extremo na poesia lírica de Gregório.
Comentários sobre o poema
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O esquema rimático é: ABBA / ABBA / CDC / DCD. Quanto à disposição ou ligação entre os versos, nas quadras: rima interpolada entre o primeiro e o quarto versos (porque entre os dois versos que rimam há mais do que um de rima diferente) e emparelha entre o segundo e o terceiro versos (rimam dois a dois); nos tercetos, a rima é cruzada (porque entre os dois versos que rimam há apenas um de rima diferente). O tema central é o caráter contraditório dos sentimentos do poeta pela mulher, que é simultaneamente flor (metáfora da beleza) e objeto do desejo, e anjo (metáfora da pureza) e símbolo da elevação espiritual. Podemos, em primeiro lugar, observar o uso dos trocadilhos anjo (ângelus em latim, daí vem Ângela, angélico) / Angélica (do latim Angelicus, pura como um anjo e também o nome de uma flor que inspira sensualidade) na construção imagética do poema: trata-se de uma mulher de nome e feições angelicais, tão bela que se assemelha a uma flor. O poeta trabalha com essas duas entidades – flor e anjo – que se irmanam pela beleza, mas que se distanciam pela duração. A flor significa brevidade, enquanto que o anjo é ser eterno. Essa duplicidade emerge do nome da mulher amada, cuja beleza indiscutível lança o poeta em tensão. Na primeira e segunda estrofe, por exemplo, o eu lírico começa a esboçar uma imagem de mulher construída a partir de duas palavras, que associa ao seu nome e ao seu rosto: flor (´´Angélica na cara``) e anjo (´´Anjo no nome``). Aqui podemos perceber a presença de uma contradição, já que a mulher amada é anjo (plano espiritual) e flor (plano material): estas duas antíteses (recurso estilístico que busca a unidade entre elementos que se opõem) ao mesmo tempo em que marcam a dualidade, marcam também a tentativa de unificação. Tentativa cuja base é a beleza: beleza que quando associada à flor tende a ser breve, destruída (´´Quem veria uma flor, que a não cortara``), e quando associada a anjo, tende a ser idolatrada, glorificada, eternizada (´´E quem um Anjo vira tão luzente,`` /´´Que por seu Deus, o não idolatrara?``) No primeiro terceto o eu lírico já pronuncia o paradoxo que ele explicará no final do poema. Como a sua amada representa a figura de um anjo, a quem ele constantemente adora (´´Anjo sois dos meus altares``) o natural seria guardá-lo das tentações, auxiliá-lo, livrá-lo de ´´diabólicos azares``. A última estrofe começa com a conjunção adversativa ´´Mas`` dando prosseguimento ao raciocínio da estrofe anterior, deixando clara a contradição que há na condição de sua amada. E a dualidade inicial, que antes vacilava entre o metafísico e o botânico, reduz agora seu campo de alcance e se concentra num só ente: o anjo. Mas um anjo dual, que tenta e não guarda. Um anjo que não se identifica, apenas e necessariamente, com o bem. O toque barroco aparece no jogo de contradições revelado nos dois tercetos: se essa bela mulher é um anjo, como é possível que, em lugar de garantir proteção, cause apenas tentação ao eu lírico? A contradição entre o amar e o querer desemboca no paradoxo dos versos finais: “Sois Anjo que me tenta e não me guarda.” Assim, o soneto que se inicia com a louvação de uma beleza angelical, encerra-se como advertência contra uma tentação demoníaca. Esse é um bom exemplo do desenvolvimento da lírica amorosa na obra de Gregório, que mantém viva a tensão entre a imagem feminina angelical e a tentação da carne que atormenta o espírito.
Quis o poeta embarcar-se para a cidade e antecipando a notícia à sua senhora, lhe viu umas derretidas mostras de sentimento em verdadeiras lágrimas de amor.
Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!
Tu, que um peito abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.
Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! que andou Amor em ti prudente.
Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.
Vocabulário:
Porfia: insistência, perseverança, obstinação.
O texto apresentado é um soneto lírico de Gregório de Matos. Os versos, quanto ao número de sílabas, são decassílabos heróicos (sendo o primeiro verso decassílabo sáfico) e o esquema rimático obedece a seguinte formação: ABBA ABBA (rimas intercaladas nos quartetos) CDC DCD (rimas alternadas nos tercetos).
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Atividades propostas
1) Quais são os dois elementos da natureza
que se opõem e representam as
contradições que o sentimento amoroso desperta no eu lírico?
a) O que cada um deles simboliza no poema?
b) Nas duas primeiras estrofes, quais são as
imagens e metáforas utilizadas pelo eu lírico para fazer referência a esses
elementos?
2) Releia.
“Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:”
a) Qual é a figura de linguagem que indica a
tensão entre os opostos? Explique.
b) Há outros exemplos dessa figura no poema?
Quais?
c) O Barroco apresenta não apenas o confronto
dos opostos, mas também sua fusão ou aproximação. Como ela pode ser observada
nos versos transcritos?
3) Quem é o interlocutor a que o eu lírico se
refere na segunda e na terceira estrofe?
a) Como ele é caracterizado?
b)Qual é o questionamento feito pelo eu lírico
nesses versos?
4) No soneto, vemos a habilidade de Gregório
de Matos em trabalhar a linguagem para conciliar os opostos. Releia os versos a
seguir, observando os trechos destacados em negrito e em itálico.
“Se és fogo, como passa brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?”
“Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.”
a) No início do poema, o eu lírico apresenta a
oposição entre o calor e o frio, o fogo e a água, a paixão e a contenção (ou
refreamento). Explique de que maneira os
dois primeiros versos transcritos acima encaminham a fusão que ocorrerá entre
esses elementos opostos no fim do poema.
b)As expressões destacadas nos dois últimos
versos são paradoxos, construídos a partir da oposição dos mesmos elementos:
frio x calor; fogo x neve. Elas encerram o mesmo sentido? Por quê?
c) Considerando que a neve simboliza a
prudência/o controle e o fogo, a paixão, qual o significado no contexto do
poema, das expressões “neve ardente” e “chama fria”?
5) O eu lírico afirma que o Amor “temperou”
sua tirania. De que maneira isso foi feito? Por quê?
Neste poema está mais evidente a presença da contradição do sentimento amoroso para os poetas barrocos. O eu lírico aqui contrapõe principalmente dois elementos extremamente contraditórios por sua própria natureza, o fogo e o gelo, para falar do que sente pelo ser amado.
O poema se inicia mostrando a causa e o efeito de um conflito. Na primeira estrofe, o poeta caracteriza seus sentimentos. O sofrimento é nitidamente evidenciado ao colocar como sinônimo de amor ardor (fogo, paixão impetuosidade) e pranto( derramamento, fragilidade, tristeza). A causa – ´´ardor`` – nasce em firme coração, lugar seguro, impenetrável pela observação. No segundo verso, o efeito se exterioriza: ´´ Pranto por belos olhos derramados``. O exagero sentimental nesses dois primeiros versos se faz com a utilização da hipérbole.
Os dois versos que se seguem têm as palavras iniciais ´´incêndio``, que retoma ´´ardor``, e rio, que retoma pranto, e apresentam um jogo de oposições que revelam as contradições de um dado sentimento – uma relação interna de contrários denominada paradoxo: ´´Incêndio em mares de água disfarçado!``(que constitui também uma metáfora de lágrimas) e ´´Rio de neve em fogo convertido!``
Simetricamente aos dois primeiros versos do poema decorrem os dois primeiros versos do segundo quarteto. A causa é sempre oculta e vem expressa no adjetivo´´escondido`` (v.5) e o efeito vara o círculo da contenção interna para um caráter externo.O efeito concreto de uma causa oculta seria ´´em um rosto corres desatado.``
Os últimos versos do segundo quarteto condensam as ideias anteriormente expressas, repetindo o jogo de oposições: fogo, em cristais aprisionado; cristal, em chama derretido. No seu conjunto estes dois quartetos podem ser vistos como uma espécie de descrição de um sentimento contraditório. O poeta sente e descreve o que sente.
Os dois primeiros versos do primeiro terceto se abrem, significativamente, com uma condição Se és fogo (v.9) e Se és neve (v.10) e se fecham por um questionamento: ´´como passas brandamente?`` e ´´como queimas com porfia?``. Podemos dizer que o poeta passa a investigaras as contradições provocadas pelo sentimento amoroso. Ao questionar a contradição extrema que há entre estes dois versos, o eu lírico aproxima os elementos que se fundirão em uma única expressão.
O poeta conclui o soneto apresentando a razão da natureza contraditória do sentimento que o domina. A prudência, que para suavizar, ou melhor, disfarçar a tirania do Amor: ´´quis que aqui fosse a neve ardente, Permitiu, parecesse a chama fria``( um sentimento contido contra a paixão que ameaçava dominá-lo).
Embora sejam construídas a partir da oposição dos mesmos elementos, temos uma inversão na posição de cada um deles: ´´neve ardente``, em que o primeiro elemento refere-se ao frio e o segundo ao calor, em ´´chama fria``, temos primeiro a referência ao calor e depois ao frio. Ambos são paradoxos que encaminham a fusão completa entre os opostos.
A bipolaridade é uma técnica barroca: tomam-se dois elementos, complementares ou contrários, que vão sendo comentados até trazerem uma conclusão: o amor é comparado ao mesmo tempo ao fogo e à água. O fogo – retomado como ´´ardor, incêndio, abrasar, chamas, queimar, temperar, ardente`` – é contraposto, em cada verso, à água – retomada como ´´pranto, derramar, mares, rio, neve, lágrimas, fria``.
Gregório de Matos percebe o mundo principalmente através dos sentidos: o ardor é uma sensação térmica, assim como o fogo; a água e a neve também dão ideia de temperatura, embora oponham-se pelo tato (uma é líquida, a outra é sólida); o pranto e o mar, elementos que pelo tato percebemos serem líquidos e que pelo paladar percebemos serem salgados, opõem-se a rio e neve, que são insípidos. O processo de percepção sensorial e afetiva do universo é bastante comum na literatura barroca e recebe o nome de cultismo.
É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.
É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.
É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:
Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
Vocabulário:
Lisonjeado: agradado, satisfeito.
Airoso: gracioso, elegante.
Presumido: arrogante, vaidoso.
Soberba: orgulho desmedido.
Galeota empavesada: embarcação enfeitada.
Sulcar: cortar.
Ufano: que se sente orgulhoso, honrado.
Fênix: na mitologia, ave imortal que renasce das cinzas.
Galhardia: elogio, elegância.
Aprestar: preparar.
Alento: ânimo, coragem.
Penha: rocha, pedra.
Desatada: desprendida, solta.
Púrpura: cor vermelha.
Apresta: verbo aprestar, preparar rápido.
Alentos preza: gostar de receber elogios.
Nau: navio.
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Exemplar espelho da técnica cultista ( jogo de palavras), o poeta Gregório de Matos trabalha a temática dos estados contraditórios da condição humana e a vaidade da vida material. Na forma, percebe-se toda a herança do Renascimento: um soneto clássico de versos decassílabos (a ´´medida nova`´ dos renascentistas servindo de pano de fundo para o tema de reflexão moral), com rima em ABBA ABBA CDC DCD, no melhor estilo petrarquiano.
Começando pela análise do título (longo e explicativo), sabemos que o texto vai tratar das desesperanças da vida humana. Desengano é desilusão; desesperança. Somos desenganados quando sabemos que não resta mais nada a fazer para que algo ruim deixe de acontecer. Essas desilusões da vida humana serão abordadas de forma metafórica no texto.
O poeta usou nesse soneto três metáforas para a vaidade: ´´rosa``, ´´planta`` e ´´nau``. A metáfora (provém do grego meta: mudança, + phora: transporte) é uma figura de linguagem em que se emprega um termo por outro, mantendo-se entre eles uma relação de semelhança; é uma ´´comparação abreviada``.
Utilizando-se de disseminação e recolha (conceitos e palavras espalhados ao longo das estrofes e retomados na última), o eu lírico, em tom exortativo, dirige-se a um vocativo, ´´Fábio``, chamando-lhe a atenção para a efemeridade existencial; inútil a vaidade, pois, sendo esta, metaforicamente, rosa matinal, planta na primavera e barco, encontrará, respectivamente, e de modo inexorável, a tarde, o machado e o penhasco, índices inquestionáveis de sua destruição.
Logo no primeiro verso, uma figura de linguagem é apresentada através da inversão da ordem direta dos termos da oração (hipérbato): ´´É a vaidade, Fábio, nesta vida``. Na ordem direta, ficariam assim: Fábio, nesta vida, a vaidade é. A expressão ´´nesta vida`` (adjunto adverbial) define a circunstância sobre a vaidade: é uma desilusão da vida humana, terrena, desta vida e não da outra, eterna, celestial.
Primeiramente, são mostradas as qualidades de cada um desses elementos metafóricos através de uma gradação crescente. Como a rosa, a vaidade ´´rompe airosa``(elegante); como planta, favorecida pelo mês de abril (quando é primavera na Europa), ela segue rapidamente, feito uma ´´galeota empavesada``; e, como uma nau ligeira, preza alentos e galhardias (elogios e elegâncias).
No último terceto, o poeta lança uma adversidade, uma contrariedade, realçando o conflito existente no texto (emprego da conjunção adversativa ´´mas``). Retoma todos os elementos comparativos, dispostos agora na ordem inversa (gradação decrescente): a penha (pedra) destrói a nau, assim como o ferro (o emprego de ´´ferro`` por ´´machado``, isto é, a matéria pelo objeto: metonímia) destrói a planta, e a tarde (o tempo que passa) destrói a rosa.
Texto I
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A lição barroca é clara: de que adianta ao homem encher-se de vaidade, se a morte o aguarda, e diante da morte tudo vira nada? Observe que esse poema cristaliza o conflito barroco: de um lado estão os prazeres da vida e o desejo de gozá-los; de outro, a certeza da morte e do fim de tudo.
A conclusão a que se chega, portanto, é que a vaidade é frágil e efêmera. O poema, embora de natureza filosófica, acaba por levar a uma saída religiosa, não explícita: já que não tem valor o corpo, porque tudo passa e o corpo envelhece, o melhor é mesmo cuidar das coisas do espírito, da salvação.
Moraliza o poeta nos ocidentes do sol a inconstância dos bens do mundo
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se crê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
A poesia de Gregório de Matos guarda alguns traços marcantes da poética renascentista: trata-se de um soneto (14 versos, distribuídos em 2 quartetos e 2 tercetos), cuja temática está centrada na reflexão moral e filosófica – o título longo e explicativo da poesia , que é uma característica barroca, evidencia o caráter moralizante do texto.
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O esquema de rima é ABBA, ABBA, CDC e DCD. Os versos são decassílabos heróicos. Existe um outro tipo de verso decassílabo. Ele se chama sáfico e apresenta tonicidade na 4.ª, 8.ª e 10.ª sílabas. Seu esquema rítmico é 10 (4-8-10). Façamos uma releitura dos versos 2 e 3. Podemos verificar que esses dois versos oscilam sua acentuação: tanto podem ser considerados heróicos quanto sáficos, pois também poderíamos metrificá-los desta forma:
De / pois / da / LUZ / se / (SE) / gue a / NOI / te es/ CU / (ra)
Em/ tris / tes /SOM /bras/(MOR)/ re a /FOR / mo / SU / (ra)
O esquema rítmico, neste último caso, conservaria um acento secundário, menos forte, na 6. ª sílaba. Podemos dizer que nesses dois versos ocorre uma tensão métrica. O mesmo fato vai ocorrer no 1. º terceto, no verso 10. A tensão – que pode ocorrer no plano da métrica ou em outros planos – é um fenômeno que enriquece um poema, por ampliar seu campo de significação.
O texto trata da transitoriedade da vida, da efemeridade das coisas do mundo, tema bastante caro ao barroco. O poeta utiliza como exemplos da transitoriedade da vida o Sol que não dura mais que um dia, a noite que segue a luz, a beleza que acaba em tristes sombras e a alegria que se transforma em tristeza. É um poema predominantemente conceptista, argumentativo.
Logo na 1ª estrofe, o poeta trabalha com uma característica barroca: o pessimismo, isto é, uma visão negativa para as coisas do mundo e acentua os contrastes através de antíteses (Sol / noite; luz / sombra; alegria / tristeza). O poeta faz considerações sobre a condição humana, diante das instabilidades do mundo. O caráter aflitivo é representado pelos hipérbatos (inversões sintáticas que denotam a desordem do pensamento): ´´Depois da luz, se segue a noite escura``; ´´Em tristes sombras morre a formosura`` e ´´Em contínuas tristezas, a alegria`` (verso marcado pela elipse de um termo: morre, artifício muito comum durante a época barroca.).
Na 2ª estrofe, outra característica do estilo barroco é apresentada: a dúvida, a incerteza, marcadas pelo paralelismo construído através das interrogações – só contém perguntas sem respostas.
A consciência angustiante da fugacidade da vida, da brevidade das alegrias e da passagem do tempo que tudo destrói são expressas nas últimas estrofes por meio de paradoxos ( antítese levada ao extremo – ideias que se chocam, ideias aparentemente absurdas) , onde o poeta funde os opostos :´´E na alegria sinta-se tristeza `` (3ª estrofe) o que gera o verso-síntese: ´´A firmeza somente na inconstância``( 4ª estrofe).
Sendo assim, depois de demonstrar a efemeridade das coisas do mundo, o poeta afirma que a única coisa firme, constante, é o fato de nada ser constante.