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domingo, 17 de julho de 2011

Memórias sentimentais de João Miramar - Oswald de Andrade

Nascido em São Paulo, em 1890, de família rica (fazendeiros de café), José Oswald de Sousa Andrade durante muitos anos foi um bom vivant. Cursou Direito na faculdade do Largo de São Francisco e ingressou na carreira jornalística. Viajou desde cedo para a Europa, onde entrou em contato com movimentos de vanguarda. Em 1917, conheceu Mário de Andrade e, juntos, criaram o chamado grupo dos cinco, formado pelos Andrade mais Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti Del Picchia. O grupo manteve intensa amizade no início dos anos 20 e foi responsável por influências mútuas que marcaram a obra desses artistas.

Em 1924, publicou o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e, em 1928, o Manifesto Antropófago, duas das mais fecundas propostas literárias da fase heroica de nosso Modernismo. Em 1929, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque e a crise do café, Oswald, praticamente falido, aderiu ao Partido Comunista Brasileiro e recolheu material para a peça de teatro O rei da vela (expressão usada para designar os agiotas da zona bancária paulistana), publicada em 1937.

Em 1945, Oswald afastou-se da militância política e tornou-se um sério e grave acadêmico da Universidade de São Paulo, onde defendeu teses (A Arcádia e a Inconfidência, A crise da filosofia messiânica, A marcha das utopias), e lecionou como professor livre-docente. Sua morte ocorreu em 1954. A obra de Oswald de Andrade talvez seja a única, dos modernistas da primeira fase, a reunir todas as características que marcaram a produção literária do período. Ele escreveu poesias, romance, teatro, crítica e, em todos os gêneros, deixou marcada sua vocação para transgredir, para quebrar as expectativas, para criar polêmicas.

Na Semana de Arte Moderna, Oswald de Andrade leu trechos do romance Alma, que mais tarde faria parte da trilogia Os condenados. Nesse romance ainda há fortes resquícios passadistas, apesar de já se notarem alguns elementos inovadores. A verdadeira revolução na forma de narrar Oswald produziria com Memórias sentimentais de João Miramar, publicado em 1924, e com Serafim Ponte Grande, livro terminado em 1928 e publicado em 1933. Também os romances Marco Zero I: a revolução melancólica e Marco Zero II: chão, publicados na década de 40, apresentam recursos narrativos interessantes, porém sem o radicalismo do João Miramar e do Serafim Ponte Grande.

Memórias sentimentais de João Miramar combina técnicas de vanguarda para contar cinematograficamente a história de um rico paulista (João Miramar). O “enredo”(baseado em muitas das experiências do próprio Oswald de Andrade) se inicia na infância do narrador, sugerida pela linguagem propositalmente infantil dos primeiros capítulos, ou melhor, episódios curtos. Depois de um certo tempo de estudo no Brasil ( ainda adolescente, e com grande inclinação para a boêmia ), viaja à Europa, a bordo do navio Marta. O romance assume, a partir daqui, a forma de um verdadeiro Diário de Viagem, que acentua o cosmopolitismo dos pontos turísticos da Europa. De volta ao Brasil, por causa do falecimento de sua mãe, João Miramar casa-se com Célia, sua prima, e divorcia-se, depois de muitas aventuras entre os familiares e as pessoas de sua classe ( mantém, durante o casamento, um romance com a atriz Mlle. Rolah). Chega a ser fazendeiro e logo pede falência, por má administração de seus bens. Nos últimos fragmentos, notamos o amadurecimento de João Miramar que, retrospectivamente, redige as Memórias que o leitor está lendo – a narração predominantemente em primeira pessoa é importantíssima num texto como esse, tão pessoal. Ela ajuda a dar um tom intimista.

Linguagem telegráfica, ironia, sarcasmo, humor, paródia, inversão verbal, a frase sincopada, as elipses que devem ser preenchidas pelo leitor e outras inovações fazem das Memórias uma obra revolucionária para sua época. Há uma ênfase muito grande no elemento visual e muitas das descrições adotam técnicas de composição cubista (aproximação de elementos distanciados, como a pintura de um olho sobre uma perna, por exemplo), que visam a apresentar fragmentos justapostos da realidade, numa tentativa de captá-la na sua totalidade. Com ousadas metáforas, o autor critica a literatice e a eloquência balofa dos reacionários. É na prática o que em teoria está expresso no Manifesto da Poesia Pau-Brasil – abolir as fronteiras entre poesia e prosa.

Logo de início, o leitor é surpreendido com um prefácio de um certo Machado Penumbra, que depois aparecerá como personagem em vários episódios do livro. O prefácio lembra, pelo seu pedantismo, a “Carta pras Icamiabas”, um dos capítulos do Macunaíma de Mário de Andrade.

Torna-se lógico que o estilo dos escritores acompanhe a evolução emocional dos surtos humanos. Se no meu foro interior um velho sentimentalismo racial vibra ainda nas doces cordas alexandrinas de Bilac e Vicente de Carvalho, não posso deixar de reconhecer o direito sagrado das inovações, mesmo quando elas ameaçam espedaçar nas suas mãos hercúleas o ouro argamassado pela idade parnasiana. VAE VICTIS!

A sátira realizada por Oswald em Memórias sentimentais visa principalmente os intelectuais de província, adeptos do linguajar empolado e pomposo que a literatura modernista criticava implacavelmente.

O romance é formado por 163 episódios curtos. A leitura dos dois primeiros nos permite perceber que não se trata propriamente de capítulos – aproximam-se, na verdade, de flashes ou instantâneos que, numa técnica narrativa semelhante à que muitas vezes o cinema utiliza, acabam contando uma história pela sucessão de imagens. Essa sucessão não estabelece uma sequência cronológica rígida: os instantâneos, efetivamente, sucedem-se uns aos outros por contiguidade, isto é, são vizinhos uns dos outros. As relações de causa e efeito entre eles têm de ser operadas pelo leitor, que deve ser capaz de “desmontar” as analogias estabelecidas pelo narrador. No caso dos dois primeiros instantâneos, cabe a nós, leitores, perceber que o segundo indica a marcação do espaço em que a história se vai inicialmente desenvolver – após as primeiras lembranças do narrador-personagem, ele nos insere diretamente na cidade em que os fatos ocorreram.

1- O pensieroso

Jardim desencanto

O dever e processões com pálios
E cônegos
Lá fora
E um circo vago e sem mistérios
Urbanos apitando noites cheias
Mamãe chamava-me e conduzia-me para dentro do oratório de mãos grudadas.
- O anjo do Senhor anunciou à Maria que estava para ser a mãe de Deus.
Vacilava o morrão do azeite bojudo em cima do copo. Um manequim esquecido avermelhava.
- Senhor convosco, bendita sois entre as mulheres, as mulheres não tem pernas, são como o manequim de mamãe até embaixo. Para que nas pernas, amém."

Em “ O pensieroso” (pensieroso é uma palavra italiana e significa “pensativo”), temos uma sequência de recordações fragmentárias da infância do personagem: o jardim, o dever, as obrigações religiosas, um circo, guardas-noturnos (“urbanos”) e as orações ensinadas pela mãe, que acabam se confundindo com o manequim usado para as costuras dessa própria mãe, numa curiosa “oração” em que pecado e culpa se misturam no desejo pelas mulheres e também pela figura materna. Estamos diante de um nítido elemento da psicanálise freudiana – o chamado complexo de Édipo. Nota-se na parte final desse primeiro episódio um tom irônico e humorístico que contaminará praticamente todo o livro.

2- Éden

A cidade de São Paulo na América do Sul não era um livro que tinha cara de bichos esquisitos e animais de história.
Apenas nas noites dos verões dos serões de grilos armavam campo aviatório com os berros do invencível São Bento as baratas torvas da sala de jantar.

O segundo instantâneo começa com um nome irônico: São Paulo não é o “Éden”, o Eldorado tropical que muitos europeus acreditavam ter encontrado quando se descobriu a América, mas sim uma metrópole. E, nas recordações do narrador, “nas noites dos verões dos serões de grilos armavam campo aviatório com os berros do invencível São Bento as baratas torvas da sala de jantar”.

Para compreendermos essa sequência de imagens, temos que entender como foi organizada: nos serões das noites quentes de verão, os grilos, com seu ruído, junto com os berros em torno dos jogos do São bento (time de futebol da época), armavam “ um canto aviatório” para as “baratas torvas da sala de jantar”. O narrador nos fornece um quadro sintético em que se combinam elementos visuais e sonoros, uns superpondo-se aos outros. Isso cria uma linguagem concisa, um estilo que se pode chamar de telegráfico, porque reduz a frase ao essencial, como temos que fazer nos telegramas.

Ao mesmo tempo, essa superposição sensorial cria o chamado simultaneísmo, a sensação de que se consegue reconstruir a realidade desconstruída pelo olhar do artista expondo-lhe toda a complexidade, pois essa mesma realidade é captada por vários sentidos e de vários pontos de vista simultaneamente (técnica muito utilizada pelos cubistas).

O título dos textos de Oswald de Andrade em geral tem a função que extrapola a finalidade ilustrativa ou atrativa. Quase sempre ele integra o próprio conteúdo do texto, orientando ou completando a sua significação. Repare também que os episódios curtos(instantâneos) emprestam à narrativa características da linguagem cinematográfica, como se representassem uma sequência de cenas encadeadas que compõem um imenso mosaico em que a realidade nacional é flagrada em rápidos flashes:

146 – Verbo crackar

Eu empobreço de repente
Tu enriqueces por minha causa
Ele azula para o sertão
Nós entramos em concordata
Vós protestais por preferência
Eles escafedem a massa
Sê pirata
Sede trouxas
Abrindo o pala
Pessoal sarado.

Oxalá que eu tivesse sabido que esse verbo era irregular.

A conjugação do verbo “crackar”, como se percebe da leitura do trecho é uma referência irônica à quebra da bolsa de Nova York (conhecida como o “crack” da bolsa) e suas consequências no cenário nacional. O poema-piada que o autor cria propositalmente remete à terminologia específica da falência, como por exemplo “escafeder a massa”, que quer dizer “falência fraudulenta”, e “abrindo o pala”, que significa “escapando”. A persistência do humor advém do igualamento da ilegalidade de sua situação financeira e o caráter “irregular” do verbo. É assim, com essa irreverência e agilidade lingüística (inventa um signo inspirado num estrangeirismo que é uma onomatopéia), que Oswald de Andrade revoluciona a prosa brasileira.

É preciso lembrar, no entanto, que a primeira redação deste romance, testemunhada pela publicação de alguns fragmentos na revista O Pirralho (1917), mostrava um autor ainda enquadrado dentro de processos narrativos convencionais. Oswald reescreveu o romance em 1923, quando estava na Itália. O texto definitivo é publicado no ano seguinte, transformando-se em violenta crítica aos bons sentimentos burgueses e às formas pernósticas de linguagem utilizadas para expressá-los. Em tom frontalmente sarcástico, Oswald incorpora ao livro a agitada atmosfera de tantas experiências novas recolhidas durante as viagens à Europa.

63- Idiotismos

Um crayon de um arquiteto de Paris que tínhamos visto antes do casamento dera-nos a inveja desesperada de uma calma existência a dois, com pijama e abatjours, sob a guarda dos antigos deuses do home.

Iríamos em tournée à Europa. E pela tarde lilás do Bois, ela guiaria a nossa Packard 120 H. P. Sairíamos nas férias pelos caminhos sem mata-burros nem mamangavas nem taturanas e faríamos caridade e ouviríamos a missa dos bons curas nas catedrais da Média Idade. E prosseguiríamos por hotéis e hotéis, olhos nos olhos, etc.

(...)

Este fragmento alude, de forma bastante irônica, à lua-de-mel romântica. O título do fragmento é um trocadilho com a palavra idiota. Idiotismo é algo próprio de um idioma e não tem a mesma raiz de idiota, é claro (a sua raiz é idyós = próprio de). Percebemos que determinados elementos podem ser considerados como uma crítica ao comportamento burguês: “faríamos caridade e ouviríamos a missa dos bons curas nas catedrais da Idade Média”; “prosseguiríamos por hotéis e hotéis, olhos nos olhos”.

Oswald de Andrade é o autor das obras que realizaram a maior ruptura modernista com as tradições passadistas e acadêmicas. Querendo sempre incomodar os acomodados, foi um guerrilheiro cultural anarquista, inconformista, inquieto, regido pelos signos da devoração e da mobilidade permanentes. Nesse sentido, sua vida e suas obras são um constante exercício contra a mediocridade pequeno burguesa, em todas as formas de expressão. Devorá-las antropofagicamente, isto é, recriando novas linguagens e novas estruturas de pensamento, na maior parte das vezes utópicas, constituiu a palavra de ordem dessa personalidade que congregou outros talentos jovens e desencadeou a Semana da Arte Moderna.