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quarta-feira, 9 de março de 2011

No meio do caminho - Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Vocabulário
Retina: a mais interior das membranas do globo ocular e em que se formam as imagens.
Fatigada: cansada.

O ano era 1902 e a cidade, a pequena Itabira do Mato Dentro. No dia 31 de outubro veio ao mundo o nono filho do fazendeiro Carlos de Paula Andrade e de d. Julieta Augusta Drummond de Andrade. Quem diria que aquele menino cresceria para se tornar um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos? Itabira, a pequena cidade mineira, entrou para o cenário da Literatura mundial quando se tornou o berço do poeta Carlos Drummond de Andrade.

Alguns anos vivi em Itabira. / Principalmente nasci em Itabira. / Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro” escreveria ele, anos mais tarde, associando um comportamento ensimesmado ao minério de ferro que enriquecia a cidade onde nasceu. Sua educação, no entanto, é feita em um colégio interno em Belo Horizonte. Lá faz amigos aos quais será fiel por toda a sua vida: Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Mello Franco.

Em 1925 a participação dos mineiros na primeira geração modernista concretiza-se com a publicação de A Revista, em cujos três números Emílio Moira, Martins de Almeida, Gregoriano Canedo e o próprio Drummond propõem a reformulação dos padrões estético-literários brasileiros. Em 1928, Carlos Drummond de Andrade, até então desconhecido, lançou na Revista de Antropofagia o poema “No meio do caminho”.

O Modernismo, que eclodiu em São Paulo na Semana de Arte Moderna (1922), estava no auge da “fase heroica”. Fundada naquele ano de 1928, por Oswald de Andrade, A Revista de Antropofagia representava a vanguarda do movimento. O poema de Drummond, republicado dois anos depois em seu livro de estreia Alguma poesia (1930), causou escândalo: a literatura contava então com mais espaço social, uma novidade ainda podia escandalizar um considerável número de pessoas. Drummond subitamente se tornou conhecido: foi admirado ou ridicularizado – e até mesmo agredido – por causa de seu poema audacioso, e a “pedra” passou a representar por excelência a imagem de sua poesia.

“No meio do caminho” é um título carregado de alusões literárias ilustres. “No meio do caminho de nossa vida” (“Nel mezzo Del camin de nostra vita”) é o verso que inicia a grande viagem pelo inferno, purgatório e paraíso, em um dos maiores poemas da humanidade, a Divina comédia, de Dante Alighieri (1265-1321). No Brasil, era muito admirado o célebre “Nel mezzo Del camin...” soneto parnasiano do “príncipe dos poetas brasileiros”, Olavo Bilac (1865-1918), que começa assim: “Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada / E triste, e triste e fatigado eu vinha”...

O poemeto de Drummond soava como brincadeira irreverente, desrespeito não só para com a venerável tradição literária, mas até para com o leitor e a própria poesia. Um texto feito quase só de repetições, sem vírgulas, com fraseado vulgar: contra a gramática e a “boa linguagem”, o poeta escrevia tinha, e não havia; nunca me esquecerei que, e não de que. Tudo extremamente provocativo. Observe alguns comentários a seguir:

Homem! E não houve uma alma caridosa que pegasse nessa pedra e lhe esborrachasse o crânio com ela?” (Cândido da Fonseca)

Gostaram? Pois acabou aí. Quem quiser pode continuar. É só repetir que tinha uma pedra, uma pedra /.../.” (Godin)

Entre os admiradores, “No meio do caminho” provocou interpretações variadas: geralmente, entendeu-se pedra como símbolo do obstáculo e do cansaço existencial ( Mário de Andrade, Álvaro Lins), mas o poema também foi lido como expressão da poética (=concepção da poesia) das primeiras obras de Drummond, uma poética segundo a qual “a poesia surge quando o universo se torna insólito, enigmático embaraçoso – quando a vida já não é mais evidente” (José Guilherme Merquior).

Drummond colecionou, ao longo dos anos, críticas, comentários de jornal, ataques pessoais, paródias – um copioso material referente ao “poema da pedra”, que reuniu numa antologia publicada em 1967. “No meio do caminho” foi responsável por um grande alvoroço e pela fama do poeta, que ironicamente disse:

Passei boa parte da vida apontado como autor de um único poema de dez linhas (ou versos?) tido por pura maluquice, principalmente por pessoas de juízo que nunca o leram, pois ele corria de boca em boca deturpado, com palavras mais ou menos”.

Em outro diálogo...

Como podia eu imaginar que um texto insignificante, um jogo monótono, deliberadamente monótono, de palavras causasse tanta irritação, não só nos meios literários como ainda na esfera da administração, envolvendo seu autor numa atmosfera de escárnio? Professores de português, geralmente bacharéis de formação literária convencional, espalhavam pelo Brasil inteiro, nos ginásios, que o Modernismo era uma piada ou uma loucura, e como prova liam o poeminha da pedra.”

Repare que Drummond usa o termo Modernismo para se referir à geração de 22. Seu poema segue as propostas dessa geração: usa versos livres, é antirretórico, aproxima-se do poema piada. Perceba também que, apesar de chamá-lo de “texto insignificante”, Drummond inseriu esse poema na parte da Antologia poética dedicada à “interpretação do mundo”.

E continua o poeta a fazer novas revelações:

Mas o que mais me tocou nessa longa história de um poema que não chega a ser poema foi o que ouvi de uma amiga (...) Para distrair um seu sobrinho, que estava doente, ela repetia a cantilena do ´tinha uma pedra`, e esperava tirar disto um efeito cômico, que fizesse o menino rir. Ele não riu e observou: ´A senhora acha isso engraçado? Eu acho sério, me faz sentir uma coisa...` Não explicou que coisa era...”

Comentários sobre o poema

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“No meio do caminho” é um poema de dez versos livres (repetitivos e circulares), distribuídos através de duas estrofes heterogêneas ( quadra e sextilha respectivamente). Entre os vários recursos de estilo utilizados por Drummond no genial poema, é importante realçar a caprichosa disposição das palavras em cada verso. Observe, inicialmente, a colocação estratégica da palavra “pedra” (algo aparentemente banal, que parece ser o elemento mais importante no caminho do poeta, tem o seu destaque marcado justamente pelo ritmo do poema). Sobre a sílaba tônica “pé” se descarrega o ímpeto do fluxo rítmico e sonoro crescente formado pela sequência de nasais envolvendo e arrastando sons vocálicos fechados.

É na recorrência dos versos “ no meio do caminho tinha uma pedra” e “tinha uma pedra no meio do caminho” (quiasmo – cruzamento de grupos sintáticos paralelos), apresentados, que, imageticamente, quase de forma simétrica, o desenho do poema se faz, deixando de fato “uma pedra no meio do caminho”. Na comparação entre o poema em língua portuguesa e as suas traduções para outras línguas (francês, italiano, inglês, espanhol, húngaro, dinamarquês, holandês, latim etc.) é possível perceber tanto a persistência do ritmo como o desenho do poema.



Na 1.ª estrofe, o eu lírico atribui uma dimensão alegórica ao vocábulo “pedra”, que pode ser entendido como símbolo de dificuldades que o ser humano encontra na vida. Haroldo de Campos, que foi dos que mais esclarecedoramente analisaram o estranho texto, procurou desvendar o sentido, não de pedra, mas do modo de composição do poema, particularmente do papel que as repetições (redundâncias) nele representam.

Partindo da oposição redundância x novidade, Haroldo de Campos mostra que a repetição exagerada, por ser surpreendente, cria a novidade, a “informação estética”. Esse processo de transformação da redundância em informação, da repetição em novidade, ocorre em outras obras de arte modernas, como o quadro Quadrado branco sobre fundo branco (1918), do pintor russo Kasímir Malévitch. Mas isso não acontece só na arte: num campo de neve, por exemplo, impressiona a repetição incessante do branco, como num deserto a insistência interminável da areia. A frase “tinha uma pedra no meio do caminho”, obsessivamente repetida, carrega-se de um sentido inesperado.


Na 2.ª estrofe, observamos que o eu lírico deixa transparecer uma relação entre a “pedra” e os possíveis impasses da vida que o deixaram com as retinas tão fatigadas, pois sentiu uma forte resistência contra a qual todos os esforços foram inúteis para transpor (lutou contra algo que sempre se repetiu). A partir do terceiro verso, entende-se a dimensão dos obstáculos – por todos os lados – , criando um encadeamento como se não houvesse fim. A frase nova, que ocupa o centro do poema, apenas contrasta com a repetição para reforçá-la, reintroduzindo-a como registro indelével da memória (“nunca me esquecerei que no meio do caminho / tinha uma pedra...”). Assim a pedra, com sua dureza, irredutibilidade, está associada à significação de uma vida dura, cheia de decepções e frustrações. A “pedra no meio do caminho”: a luta da consciência para se chegar a um objetivo, a não-transcendência, o inesperado, a expressão do impasse, da dificuldade; o obstáculo que distancia o sujeito do objeto, o homem de seus sonhos... Todos esses sentidos estão presentes na indiferença da pedra. O texto pode ser visto como uma metáfora de que os obstáculos estarão sempre presentes na existência humana.


Provavelmente este é o mais polêmico poema da história do Modernismo, por sua concepção e sua estrutura revolucionárias: os versos se repetem, de modo circular, em torno da pedra (vai até a pedra e volta, sem ultrapassá-la). Por essa organização sintática, pelo radical coloquialismo da linguagem, pelas inúmeras leituras metafóricas que possibilita, este poema tornou-se um símbolo da poesia de Drummond e do Modernismo brasileiro. No meio do caminho, de poesia antipoética, de lírica antilírica, ilustra a travessia do poeta entre o individual e o social, o coração e o mundo.