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domingo, 29 de agosto de 2010

A lírica trovadoresca (Cantigas de amigo e de amor)

O Trovadorismo (período que se estendeu do séc. XII a meados do sec. XIV), primeiro movimento literário português, conviveu historicamente com o Feudalismo, onde as relações entre os homens eram estipuladas pelos laços e vassalagem. Nesta época havia grande influência da cultura teocêntrica, que apelava para a vida em função dos preceitos religiosos. Assim, temos uma sociedade marcada pelas Cruzadas, pelo culto à Virgem. Filosoficamente, encontramos um homem com uma concepção maniqueísta, segundo a qual o universo está dividido em duas partes: o Bem e o Mal.


Durante a fase trovadoresca, desenvolveu-se uma espécie de composição poética, sempre acompanhada por instrumentos musicais (alaúde, flauta, viola, gaita etc.), que ficou conhecida como cantiga. As cantigas medievais desempenharam um importante papel, registrando manifestações sentimentais do homem da época. Existe, então, uma hierarquia de músicos medievais: os trovadores, compositores nobres, os segréis, compositores profissionais, os jograis, músicos que participavam de companhias teatrais e divulgavam as cantigas, através dos reinos e os menestréis, músicos de menor valor que viviam sob a proteção de algum nobre e trabalhavam para ele.


As cantigas chegaram até nós por meio dos Cancioneiros, conjunto de coleções (reuniões) de poemas de vários tipos e produzidos por muitos autores. Seu estudo permite constatar a fecundidade poética desse período, do qual ficaram registrados cerca de duas mil composições poéticas e duzentos poetas. Os cancioneiros mais importantes são: o Cancioneiro da Ajuda (o mais antigo, provavelmente compilado no séc. XIII), o Cancioneiro da Vaticana (pertence à Biblioteca do Vaticano, provavelmente compilado no séc. XV) e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional ou Cancioneiro Colocci-Brancutti (compilado provavelmente no séc.XIV).


Escritas e cantadas no idioma galego-português (comum a Portugal e Galiza, pois o português propriamente dito ainda não se desenvolvera), podemos reconhecer dois grandes grupos de cantigas: as cantigas líricas e as cantigas satíricas. Do ponto de vista literário, maior interesse tem para nós o primeiro grupo, pois as cantigas satíricas eram feitas para satirizar ou ridicularizar alguém, numa linguagem bem simples, popular e muitas vezes obscena. As líricas, por outro lado, pela beleza e arte que atingiram, formam a própria base da poesia lírica portuguesa e até brasileira, sendo lidas até hoje com prazer. A poesia lírica apresenta dois tipos de cantigas: as cantigas de amigo e as cantigas de amor. Caracteriza-se por uma linguagem afetiva ou sentimental e trata predominantemente de relações amorosas. Sobressai na lírica a função emotiva da linguagem.


A origem da cantiga de amigo está relacionada com a tradição popular da Península Ibérica. Cronologicamente, são mais antigas que as cantigas de amor, porém não eram escritas (com a entrada das cantigas provençais e o desenvolvimento da arte poética é que se caracterizaram em textos). Nela, os trovadores exprimiam os sentimentos que supunham ter as amadas, ou que desejavam que elas por eles tivessem (esse fenômeno reflete o tipo de sociedade patriarcal que marca todo o período medieval).


Mais populares, não se ambientam em palácios, e sim em lugares mais simples, como campo, as igrejas etc. Mostram, muitas vezes, cenas do cotidiano, em que a moça vai lavar roupa, vai a uma romaria ou freqüenta uma festa. A temática destas composições versa sobre a saudade, ciúme, ressentimento, ansiedades, desconfianças e a reivindicação da liberdade de amar perante a intervenção materna.


Entre os esquemas literários de sua composição, convém lembrar a existência do refrão, parte final que se repete em cada estrofe; o leixa-pren (´´deixa-toma``), que é a retomada do 2º verso da 1ª estrofe, como 1º na 3ª estrofe, depois do 2º da 2ª estrofe, como 1º na 4ª, e o paralelismo, conseguido pela retomada quase total dos versos com poucas variações por sinônimos ou inversão de palavras.


Da cantiga de amigo, poderíamos dizer que se caracteriza por constituir a fala de uma donzela sobre seu problema amoroso (é a mulher quem sofre por se ver separada do amigo – amante ou namorado). Esta fala tanto se apresenta à maneira de monólogo íntimo como de abertura da alma a um confidente: mãe, irmãs, amigas ou algum elemento da natureza como flores, árvores, ondas do mar, cervos etc. Reveste-se de aspecto folclórico na medida em que reflete o ambiente rústico e seus costumes, impregnando de espontaneidade a expressão do sentimento amoroso da burguesia. Conforme a maneira como o assunto é tratado e conforme onde se dá o encontro amoroso, as cantigas de amigo recebem denominações especiais:


Alvas ou albas (quando se passam ao amanhecer, que muitas vezes surpreende os amantes);

´´Levantou-s`a velida, ( a bela)

levantou-s` à alva; (de madrugada)

e vai lavar camisas

e no alto: (no rio)

vai-las lavar à alva.``

(D. Dinis)


Bailias ou bailadas ( quando seu cenário é uma festa onde se dançam, principalmente das moças que esperamos namorados);

´´E no sagrado, em Vigo, (local sagrado, possivelmente em frente da igreja)

bailava corpo velido; (uma linda moça)

amor ei!`` (já tenho namorado)

(Martim Codax)


Romarias (sobre visitas a santuários, enquanto as ´´madres queymam candeas``);

´´Pois nossas madres van a San Simon

de Val Prados candeas queimar ( pagar promessas)

nós, as meninhas, punhemos d`andar.`` (vamos passear)

(Pedro de Vivães)


Barcarolas ou marinhas (falam do temor de que o ´´amigo`` vá às expedições marítimas; do perigo de ele não voltar mais);

´´Vi eu, mia madr`, andar

As barcas e no mar,

E moiro-me d`amor!``

(Nuno Fernandes Torneol)


Pastorelas (quando seu cenário é o campo, próximo a rebanhos)

´´ oi`eu ua pastor a cantar, (ouvi)

Du cavalga per ua ribeira, (de onde / ao longo da margem)

E o pastor estava i senlheira, (sozinha)

E ascondi-me póla escuitar...

(Airas Nunes de Santiago)


Os esquemas de composição apresentam artifícios poéticos que se revelam através de uma terminologia da qual convém citar:

Cobra – estrofe;

Desacordo – cantiga em forma de diálogo;

Cantiga de refrão – com versos que se repetem ao final de cada cobra;

Cantiga de maestria – sem refrão.


Cantiga de amigo (Barcarola)

Ondas do mar de Vigo,

se vistes meu amigo?

E ai Deus, se verra cedo!


Ondas do mar levado,

se vistes meu amado?

E ai Deus, se verra cedo!


Se vistes meu amigo,

o por que eu sospiro?

E ai Deus, se verra cedo!


Se vistes meu amado,

por que ei gram coidado?

E ai Deus, se verra cedo!


Tradução

Ondas do mar de Vigo,

acaso vistes meu amigo?

Queira Deus que ele venha cedo!


Ondas do mar agitado,

acaso vistes meu amado?

Queira Deus que ele venha cedo!


Acaso vistes meu amigo

aquele por quem suspiro?

Queira Deus que ele venha cedo!


Acaso vistes meu amado,

por quem tenho grande cuidado (preocupado) ?

Queira Deus que ele venha cedo!


Nessa cantiga de amigo, o eu lírico feminino (leve em conta as expressões ´´meu amigo`` / ´´meu amado``, cujos sentidos seriam equivalentes a meu namorado) dirige-se às ondas do mar (vocativo) para expressar sua ansiedade com relação à volta do amado. Observa-se uma apelação ao mar como se a ele fosse possível confortá-la. Preocupada, ansiosa, angustiada, sofrendo muito; a fórmula "ai Deus", reforçada pela interjeição revela o sofrer da donzela e reflete a sua espiritualidade.


Observe o esquema de elaboração da cantiga. Os dois primeiros versos das duas primeiras estrofes são paralelos: começam iguais, havendo pequena variação no final: ´´de Vigo`` para ´´levado``. O mesmo ocorre com os dois segundos versos, sendo a variação ´´amigo`` para ´´amado``(gradação). Estes, consequentemente, passam a ser os primeiros versos nas estrofes três e quatro. O terceiro verso de cada estrofe, sempre repetido, recebe o nome de refrão ou estribilho. A todo este esquema de construção dá-se o nome de paralelismo, pois os versos são conduzidos dois a dois (aa ' R / a ' a ' R / b ' b ' R…). Aplicando a terminologia da época medieval, a cantiga interpretada, constituída de 4 cobras, é cantiga de refrão.


Enquanto a cantiga de amigo é de origem galaico-portuguesa, a cantiga de amor é oriunda da Provença, região do sul da França, tendo chegado a Portugal por meio das relações entre os reinos da Europa meridional, casamentos, um intenso comércio entre Portugal e França, romarias e peregrinações (Santiago de Compostela, na Galiza), pelo movimento das Cruzadas, mas sobretudo pela ação dos jograis. A cantiga de amor se caracteriza principalmente por ser a fala de um homem a uma senhora, sempre da nobreza, respeitadas as convenções sociais de mesura e etiqueta .


´´Guisado teen de nunca perder

meus olhos coyta e meu coraçon,

e estas coytas, senhos, mias son;

mays los meus olhos, por alguen veer,

choran e cegan, quand' alguen non veen,

e ora cegan por alguen que veen.``

(João Garcia de Guilhade)

De acordo com o ideal amoroso dessas cantigas, chamado amor cortês (que tanto influenciou as cantigas de amor em Portugal), o amante (eu lírico masculino) é aquele que vive em constante coita (sofrimento amoroso) por não ser correspondido, mas, apesar disso, demonstra paciência, submissão e fidelidade à mulher amada, como se ele fosse um vassalo, e ela, o seu suserano. Trata-se, portanto, de um jogo amoroso cujas regras refletem o refinamento cultural da cavalaria francesa e as relações da sociedade feudal. A mulher, sempre idealizada, é inalcançável, ou porque ostenta condição social superior, ou porque já é comprometida, ou ainda pela espiritualidade que domina o poeta e o impede de possuir a amada. Torna-se fácil reconhecer uma cantiga de amor pela ausência de repetições constantes e pela presença de expressões como: mia senhor, mia pastor, fremosa senhor, fremosa pastor etc.


Cantiga de amor

Quer’eu em maneira de proençal

fazer agora um cantar d’amor

e querrei muit’i loar lmia senhor

a que prez nem fremosura nom fal,

nem bondade; e mais vos direi ém:

tanto a fez Deus comprida de bem

que mais que todas las do mundo val.


Ca mia senhor quizo Deus fazer tal,

quando a faz, que a fez sabedor

de todo bem e de mui gram valor,

e com tod’est[o] é mui comunal

ali u deve; er deu-lhi bom sém,

e desi nom lhi fez pouco de bem

quando nom quis lh’outra foss’igual


Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.


Tradução

Quero eu na maneira de um provençal

fazer agora um cantar de amor,

e quererei muito aí louvar minha senhora

a quem boas qualidades e formosura não faltam

nem bondade; e ainda vos direi isto:

Deus a fez tão cheia de qualidades

que ela mais que todas do mundo.


Pois minha senhora quis Deus fazer de tal maneira

quando a fez, que a fez conhecedora

de todo bem e de muito grande valor,

e além de tudo isto é muito sociável

quando deve; também deu-lhe bom senso

e além disso não lhe fez pouco bem,

quando não quis que nenhuma outra lhe fora igual


Pois em minha senhora nunca Deus pôs mal,
mas pôs nela honra e beleza e mérito
e capacidade de falar bem, e de rir melhor
que outra mulher ; além disso é muito
leal. e por isso eu não conheço hoje quem
possa perfeitamente no seu bem
falar, pois não há, além do seu bem, qualquer outro.

(D. Dinis)


A cantiga de amor de D. Dinis é interessante porque registra, logo nos primeiros versos, a influência provençal: ele compõe uma cantiga de amor à maneira dos provençais para louvar a sua senhor. A Provença localiza-se na região da Occitânia, que corresponde ao sul da França atual. Aproximadamente no séc. XII, esta região conheceu um movimento poético de grande intensidade, a lírica provençal. Os poetas da Provença desenvolveram uma refinada arte poética, caracterizada por técnicas de composição e versificação muito apuradas – a chamada ´´ Gaia Ciência`` – e por uma temática centrada no amor cortês: o poeta dirige-se à mulher amada, escondendo-lhe o nome e colocando-se diante dela como um servo humilde diante do seu senhor.


Outro aspecto a destacar é a completa e absoluta idealização da mulher amada, desde os dotes físicos (formosa, perfeita) até a inteligência, sabedoria e bondade; enfim, tanto bem possui essa mulher que o poema termina afirmando que não se conhece quem seja capaz de falar adequadamente dos atributos físicos e espirituais dessa dama. Diríamos que Deus a fez e jogou fora a receita porque não queria outra mulher igual a ela. A mulher (assim como todas as outras coisas) é fruto da criação de Deus: assim se manifesta o teocentrismo no Trovadorismo.


Quanto ao esquema de composição (forma), o texto de D. Dinis é uma cantiga de mestria, ou seja, uma cantiga que, por não apresentar refrão, indica a mestria do poeta – que podemos entender como o domínio técnico que lhe permitia dispensar a repetição de versos. O esquema de rimas é o mesmo nas três estrofes (ABBACCA).



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Este Inferno de Amar - Almeida Garrett




Este inferno de amar — como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida — e que a vida destrói —
Como é que se veio a atear,
Quando — ai quando se há de apagar?

Eu não sei, não me lembra; o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… — foi um sonho —
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Que fez ela? Eu que fiz? — Não no sei
Mas nessa hora a viver comecei…


Vocabulário
Alenta: anima, encoraja.
Consome: devora, destrói, extingue, aniquila.
Atear: acender, incendiar, tornar-se mais intenso.
Formoso: magnífico, brilhante, esplêndido.
Ardentes: cheios de paixão, apaixonados, vivos.

Considera-se a publicação do poema ´´Camões``, de Almeida Garrett, em 1825, o marco inicial do Romantismo em Portugal. Todavia, a nova estética literária só viria a firmar-se uma década depois, acompanhando a evolução política e a vitória do liberalismo burguês. 

Os anos compreendidos entre 1838 e 1865 assinalaram o período de maior vigor da produção literária romântica em Portugal. É comum, aliás, se reconhecerem dois grandes momentos no Romantismo português:
a)  uma primeira geração, caracterizada por autores que começaram ainda presos a certos princípios clássicos, mas que foram responsáveis pela consolidação do novo estilo; neste primeiro momento destacam-se Almeida Garrett e Alexandre Herculano;
b) uma segunda geração, representante do chamado Ultrarromantismo, quando as características românticas são levadas ao exagero, como na obra de Camilo Castelo Branco.

Nascido no Porto, no ano de 1799 (morreu em Lisboa, no ano de 1854), João Batista Leitão de Almeida Garrett cresceu em uma sociedade abalada por uma crise político-econômica desencadeada em Portugal pela guerra entre Inglaterra e França. Pela sua origem, Garrett é filho da burguesia portuguesa que prosperou graças ao mercado brasileiro e aderiu às reformas pombalinas. Pela obra que escreveu, é um homem claramente situado entre dois mundos: um de influência clássica, em que se criou e lhe deu referências artísticas; outro de inspiração romântica, a que aderiu por afinidade intelectual e espiritual.

A maturidade poética de Garrett como um autor romântico chega somente em seu último livro de poemas, Folhas caídas. Este é um livro (coletânea onde se encontra o melhor de sua lírica) em que o poeta consegue libertar-se finalmente da influência clássica. São poemas inspirados na paixão que ele, já no fim da vida, sentiu por Rosa de Montufar (Viscondessa da Luz), mulher casada, e que lhe tornou a vida um ´´Inferno de amar``.

Comentários sobre o poema

Para receber o conteúdo completo (análise do poema), entre em contato através do e-mail:
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Atividades propostas

1. Aponte três características românticas do texto; exemplifique com palavras ou expressões nele presentes.

2. Mencione uma antítese presente no texto.

3. O texto trabalha com o presente e passado.
a) Que estrofe (s) você relacionaria ao presente?
b) Que estrofe (s) você relacionaria ao passado?
c) Apenas um verso faz referência ao futuro; transcreva-o.

4. Como é caracterizada a vida no passado?

5. E no momento presente?


6.A que grande conclusão nos leva o texto?

O poema compõe-se de estrofes de seis versos ou sextilhas. O esquema de rimas é o seguinte: ABCBDD, ou seja, o segundo verso rima com o quarto, e o quinto verso rima com o sexto. O primeiro e o terceiro não rimam. Isto significa que Garrett rompeu, aqui, com a regularidade da rima clássica. Em compensação, o poeta adotou um esquema rítmico bastante regular: todos os versos são novessílabos (ou eneassílabos) com acentos tônicos na terceira, sexta e nona sílabas, formando pausas (como se constituísse um pequeno diálogo do eu lírico consigo mesmo). Os românticos usaram muito esse tipo de verso martelado e sonoro. Quando bem utilizado — como faz Garrett —, corresponde ao estado de angústia, uma certa respiração ofegante que o poeta quer transmitir.

Uma das características da poesia romântica é o subjetivismo. Algumas marcas lingüísticas denotam essa característica no poema transcrito. A pontuação, marcada por reticências, a presença de várias expressões interjetivas (´´Oh! ``, ´´Ai de mim``), além, é claro, da utilização da primeira pessoa nos verbos e pronomes.


O texto trabalha com o presente e com o passado. O passado está caracterizado na segunda e terceira estrofe (notar verbos no pretérito): ´´Era um sonho``, ´´doce era aquele sonhar``, ´´Eu passei``. O presente está caracterizado na primeira estrofe: ´´Este inferno de amar — como eu amo!``.O único verso que faz referência ao futuro é o último da primeira estrofe: ´´Quando — ai quando se há de ela apaga?``.


Na primeira estrofe, o eu lírico define o sentimento amoroso como contraditório: ´´Esta chama que alenta e consome, / Que é vida — e que a vida destrói — ``(antíteses). O amor é uma força, a um só tempo, construtiva e destrutiva (amor é vida, mas quando se frustra ou se transforma em paixão, pode levar à destruição, à infelicidade). O presente é o tempo da tormenta, da falta de harmonia, de inquietação, de questionamento.


Na segunda estrofe, o desespero do eu lírico é demonstrado pelo fato de afirmar que a vida, antes de o amor tocá-lo, era um sonho sereno e doce do qual foi despertado. No verso ´´Era um sonho talvez... — foi um sonho —`` vale a pena ressaltar que a dúvida cede o lugar para a certeza, através da mudança do aspecto verbal, que deriva da passagem do pretérito imperfeito do indicativo, reforçado pela presença do advérbio de dúvida (´´talvez``), para o pretérito perfeito. O poema transmite de uma forma espontânea e convincente um estado emocional. A linguagem coloquial, o ritmo dos versos, a musicalidade do texto contribuem para a criação de um efeito de sinceridade do sentimento apresentado pelo eu lírico.


Apesar de considerar sua vida anterior uma espécie de sonho de tranquilidade, na terceira estrofe o eu lírico prefere a vida atual (um momento marcado por emoções fortes de uma intensa luta entre contrários), de apaixonado atormentado (desejo por uma mulher sensual: ´´olhos ardentes``). Afinal, é ele mesmo que afirma que só começou a viver de fato depois de ter conhecido o amor num dia em que o sol dava muita luz. Assim, ao final do poema, a grande conclusão é apresentada: Só se começa a viver quando se começa a sofrer de amor.


No poema ´´Este inferno de amar`` o amor é sinônimo de sofrimento, mas também é a razão maior da própria vida. Esta, sem o amor, equivale apenas a um sonho distante e insípido. O uso dos pontos de exclamação (cinco) e de interrogação (cinco) indica o predomínio da emoção e da sensibilidade sobre a razão, traço que caracteriza o Romantismo.