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segunda-feira, 29 de março de 2010

Análise do poema: À instabilidade das cousas do mundo



Moraliza o poeta nos ocidentes do sol a inconstância dos bens do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se crê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

A poesia de Gregório de Matos guarda alguns traços marcantes da poética renascentista: trata-se de um soneto (14 versos, distribuídos em 2 quartetos e 2 tercetos), cuja temática está centrada na reflexão moral e filosófica – o título longo e explicativo da poesia , que é uma característica barroca, evidencia o caráter moralizante do texto.

Comentários sobre o poema

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O esquema de rima é ABBA, ABBA, CDC e DCD. Os versos são decassílabos heróicos. Existe um outro tipo de verso decassílabo. Ele se chama sáfico e apresenta tonicidade na 4.ª, 8.ª e 10.ª sílabas. Seu esquema rítmico é 10 (4-8-10). Façamos uma releitura dos versos 2 e 3. Podemos verificar que esses dois versos oscilam sua acentuação: tanto podem ser considerados heróicos quanto sáficos, pois também poderíamos metrificá-los desta forma:

De / pois / da / LUZ / se / (SE) / gue a / NOI / te es/ CU / (ra)
Em/ tris / tes /SOM /bras/(MOR)/ re a /FOR / mo / SU / (ra)

O esquema rítmico, neste último caso, conservaria um acento secundário, menos forte, na 6. ª sílaba. Podemos dizer que nesses dois versos ocorre uma tensão métrica. O mesmo fato vai ocorrer no 1. º terceto, no verso 10. A tensão – que pode ocorrer no plano da métrica ou em outros planos – é um fenômeno que enriquece um poema, por ampliar seu campo de significação.

O texto trata da transitoriedade da vida, da efemeridade das coisas do mundo, tema bastante caro ao barroco. O poeta utiliza como exemplos da transitoriedade da vida o Sol que não dura mais que um dia, a noite que segue a luz, a beleza que acaba em tristes sombras e a alegria que se transforma em tristeza. É um poema predominantemente conceptista, argumentativo.

Logo na 1ª estrofe, o poeta trabalha com uma característica barroca: o pessimismo, isto é, uma visão negativa para as coisas do mundo e acentua os contrastes através de antíteses (Sol / noite; luz / sombra; alegria / tristeza). O poeta faz considerações sobre a condição humana, diante das instabilidades do mundo. O caráter aflitivo é representado pelos hipérbatos (inversões sintáticas que denotam a desordem do pensamento): ´´Depois da luz, se segue a noite escura``; ´´Em tristes sombras morre a formosura`` e ´´Em contínuas tristezas, a alegria`` (verso marcado pela elipse de um termo: morre, artifício muito comum durante a época barroca.).

Na 2ª estrofe, outra característica do estilo barroco é apresentada: a dúvida, a incerteza, marcadas pelo paralelismo construído através das interrogações – só contém perguntas sem respostas.

A consciência angustiante da fugacidade da vida, da brevidade das alegrias e da passagem do tempo que tudo destrói são expressas nas últimas estrofes por meio de paradoxos ( antítese levada ao extremo – ideias que se chocam, ideias aparentemente absurdas) , onde o poeta funde os opostos :´´E na alegria sinta-se tristeza `` (3ª estrofe) o que gera o verso-síntese: ´´A firmeza somente na inconstância``( 4ª estrofe).

Sendo assim, depois de demonstrar a efemeridade das coisas do mundo, o poeta afirma que a única coisa firme, constante, é o fato de nada ser constante.

domingo, 21 de março de 2010

Décima: antologia de humor e sátira

Décima (lat. décima) é cada uma das dez partes que se pode dividir alguma coisa.Designa o poema ou estrofe de dez versos. Largamente empregada, sobretudo como estrofe, nos séculos XVII e XVIII, a décima foi menos apreciada pelos românticos, mas os parnasianos repuseram-na em circulação. Em vernáculo, podem-se encontrar exemplos desde a Fênix Renascida (séc. XVII) até Alberto de Oliveira (séc. XIX e XX). Os cantadores nordestinos utilizaram-na com frequência. A rima usual é ABBAACCDDC.


Também chamada ´´pequeno soneto``, a décima, graças à condensação de efeito que alcança, adapta-se eficazmente aos temas epigramáticos e satíricos. De Gregório de Matos, que cultivou a décima como poema isolado, transcrevemos os poemas a seguir:


A um livreiro, que havia comido um canteiro de alfaces com vinagre


Levou um livreiro a dente

De alface todo um canteiro,

E comeu, sendo livreiro,

Desencadernadamente.

Porém, eu digo que mente

A quem disso o quer tachar;

Antes é para notar

Que trabalhou como um mouro,

Pois meter folhas no couro

Também é encadernar.


Vocabulário


Levou a dente: devorou.

Couro: termo da gíria; bucho, barriga.

Trabalhar como um mouro: trabalhar como os mouros trabalhavam em Portugal e Espanha, para poderem pagar os pesados impostos com que eram carregados por estas duas nações. Daí o verbo mourejar. Ainda há o adágio: ´´servir como um mouro``.


O jogo de palavras, o trocadilho, importante característica barroca, é o recurso estilístico que otimamente se aplica ao espírito satírico, à ironia, a ponto de o próprio padre Antônio Vieira constantemente usá-lo com este fim, nos seus sermões.



A sátira de Gregório de Matos busca, então, a graciosidade, nestes versos, jogando com expressões, tais como desencadernadamente, folhas no couro, encadernar. Este gênero popular apresenta uma linguagem simples, com vocabulário cujo sentido possa ser imediatamente compreendido.


Os versos são curtos, conduzindo à ligeireza rítmica. Estes são de 7 sílabas (heptassílabos/ redondilha maior).


Le / vou / um / li /vrei / ro a /den / te

De al / fa /ces / to / do um /can / tei /ro


Nos quatro primeiros versos do poema, Gregório de Matos retrata a gulodice do livreiro, que devorou um canteiro de alface. O poeta cria uma palavra desencadernadamente, em que a palavra encadernada, acrescida do prefixo des e do sufixo mente, fixa a sugestão de grandeza, do exagero, em relação ao indivíduo glutão, a sua voracidade, além, talvez, de sugerir um sentido injurioso, como se estivesse dizendo desavergonhadamente.


No verso "De alfaces todo um canteiro", percebemos que há uma inversão sintática (anástrofe, figura caracterizada pela anteposição do determinante ao determinado). A ordem direta seria: Todo um canteiro de alfaces.

Na parte final do poema (do verso seis ao dez), Gregório salienta que o livreiro não tinha somente o defeito da gula (´´Antes é para notar``);também era preguiçoso, ´´vagabundo``, satirizado pela expressão ´´Que trabalhou como um mouro``, ou seja, como um escravo para poder ´´meter folhas no couro`` (encher a barriga), como se fosse um objeto de trabalho (´´Também é encadernar``).

Logo, a sátira polemiza as habilidades de sobrevivência do livreiro da seguinte forma: era mais importante comer do que encadernar.

Ironia, deboche, humor e irreverência são marcas na sátira deste poeta. A alcunha ´´Boca do Inferno`` foi dada a Gregório por sua ousadia em criticar a Igreja Católica, muitas vezes ofendendo padres e freiras.

Esta décima (estrofe com dez versos, com rima usual ABBAACCDDC, versos de sete sílabas—heptassílabos comumente chamados de redondilha maior) foi dedicado a uma freira que publicamente, resolveu satirizar o poeta pela fisionomia delgada e um nariz saliente, chamando-lhe de ´´Pica-Flor``(passarinho, o mesmo que beija-flor). Gregório, não deixou por menos e lhe respondeu em versos:

A uma freira que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor".

Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteis a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.

Neste poema, percebe-se claramente a manobra adotada por Gregório, que fragmenta o termo ´´pica-flor`` extraindo os lexemas que o compõem, para conferir-lhes novas significações . Observa-se que estes versos têm uma conotação erótica, pois o poeta utiliza expressões que remetem ao ato de cópula. Tratado pela freira por "Pica-flor" o mesmo diz aceitar a alcunha desde que esta tenha um lugar para guardá-lo. Ao ocorrer tal possibilidade, permite que ela assim o chame.



sábado, 13 de março de 2010

Análise do poema: Epílogos



Conhecido também como ´´ Boca do Inferno``, em razão de suas sátiras, Gregório de Matos representa uma das veias mais ricas e ferinas de toda literatura satírica em Língua Portuguesa. A exemplo de certos trovadores da Idade Média, o poeta não poupou palavrões em sua linguagem nem críticas a todas as classes da sociedade baiana de seu tempo. Criticava o governador, o clero, os comerciantes, os negros, os mulatos, os colonos, os bacharéis, os degradados lusos que vinham para o Brasil e aqui enriqueciam etc.

O poder corrupto não escapou à mira do poeta: crítica, de forma impiedosa, a incompetência, a promiscuidade e a desonestidade, sem perder a noção do jogo com as palavras, característica, afinal do Barroco.

Quando retorna ao Brasil, já quarentão, em 1682, Gregório de Matos encontra uma sociedade em crise (principalmente com a fome que se abatia sobre a cidade). A decadência econômica torna-se visível: o açúcar brasileiro enfrenta a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas e seu preço desaba. Além disso, uma nova camada de comerciantes (em sua maioria, portugueses) acumula riquezas com a exportação e importação de produtos. Esta nova classe abastada humilha aqueles que se julgam bem nascidos, mas que, dia após dia, perdem seu poder econômico e seu prestígio.

Em ´´Epílogos``, ele retrata a paisagem moral de Salvador, Bahia, nossa capital na época colonial. Mudando a palavra cidade para país, teremos a paisagem moral atual em alguns dos versos do poeta:


Torna a definir o poeta os maus modos de obrar na governança da Bahia, principalmente naquela universal fome, que padecia a cidade.
Epílogos

Que falta nesta cidade?................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?.............Ambição
E o maior desta loucura?...............Usura.

Notável desventurade um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?....Pretos
Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda?.............Bastarda
É grátis distribuída?.....................Vendida
Que tem, que a todos assusta?.......Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia?..................Simonia
E pelos membros da Igreja?..........Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?.........Freiras
Em que ocupam os serões?............Sermões
Não se ocupam em disputas?.........Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?..................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu
Logo já convalesceu?.....................Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?...................Não pode
Pois não tem todo o poder?...........Não quer
É que o governo a convence?........Não vence.

Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

Vocabulário

Socrócio – emplastro, alivio, bálsamo ( o poeta usou-o no sentido antitético, irônico).
Círios – sacos de farinha (a grafia correta é sírios).
Simonia – venda de coisas sagradas.
Unha – roubalheira, avareza, tirania, opressão.
Caramunha – lamentação experiente.
Manqueiras – vícios, defeitos.


Comentários sobre o poema

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Poema constituído de estrofes que lembram a tradição medieval, na medida em que possuem sete sílabas métricas (redondilha maior). Cada estrofe inicia-se com perguntas retóricas, isto é, falsas perguntas, ironicamente respondidas pelo próprio poeta. Esse procedimento parece dar um certo didatismo ao poema, didatismo reforçado pelo processo de disseminação e recolha, muito comum na poesia barroca.

Primeiro, as palavras se disseminam, se dispersam nos versos para depois serem recolhidas , reunidas num mesmo verso. Assim, há um tom conclusivo no final das estrofes. Conclusão que abrange desde valores morais (verdade, honra, vergonha) abstratos até os motivos concretos da degradação destes valores ( negócio, ambição, usura) e seus principais agentes: pretos, mestiços,meirinhos, guardas, sargentos (observe que a leitura vertical dos três primeiros versos iguala-se a leitura horizontal do sétimo, criando um mecanismo sucessivo até o final do poema).

Além dos tipos sociais, Gregório de Matos denuncia as instituições: começando por El-Rei, que nos dá de graça uma ´´justiça`` corrompida, a ponto de andar bastarda, vendida, injusta, e terminando com a Igreja a quem acusa de simonia ( tráfico de coisas sagradas, espirituais), inveja, unha (roubalheira). Também é implacável com os frades, que a seu ver se ocupam de freiras, sermões e putas...Como vemos, do alto da pirâmide social à ralé, dos ´´donos do poder`` aos mestiços, todos são responsáveis, ninguém é poupado.

As estrofes se assemelham do ponto de vista formal, indicando a regularidade do poema, o que também ocorre do ponto de vista das rimas (nos três primeiros versos. rimas horizontais; nos quatro restantes, rimas verticais — ABBA) e de sua disposição gráfica: estrofes de três versos seguidas de estrofes de quatro versos, sendo o último uma condensação do conjunto de sete versos que compõe cada esquema duplo de estrofes.

Em termos de conteúdo, as estrofes também se assemelham: do abstrato para o concreto (verdade, honra, vergonha... negócios, ambição, usura), dos tipos sociais às instituições, do povo néscio a El-Rei, da Santa Fé aos frades. Gregório de Matos vai decompondo a organização de uma sociedade que nos parece tão barroca quanto o poema: ´´os jogos`´ de todos, que se nivelam ´´por baixo``. Seu ´´juízo anatômico`` reflete-se nas antíteses utilizadas: desonra/honra; grátis/vendida; cai/cresce; baixou/subiu; nobre/mísera e pobre.

A coloquialidade da linguagem, o uso de termos considerados ´´de baixo calão``, o tom de oralidade e principalmente a arrasadora crítica que faz às desigualdades, às imposturas, às vilanias, projetam no tempo este ´´trovador``, lançam-no às nossas atuais perplexidades, causando a impressão incômoda de que não é tão distante o barroquismo da sua indignação, e da situação social e política que a deflagra com tanta veemência.

Gregório de Matos, ao abrir espaço para a paisagem local e a língua do povo, talvez seja a primeira manifestação nativista de nossa literatura e o início de um longo despertar da consciência crítica nacional, que levaria ainda um século para abrir os olhos.

domingo, 7 de março de 2010

Pe. Antônio Vieira

Nasceu em Lisboa, a 6 de fevereiro de 1608. Aos 6 anos de idade já está no Brasil; Cristóvão Vieira Ravasco, seu pai, fora nomeado para um cargo da Relação da Bahia. Estudou no Colégio dos Jesuítas e, embora sofrendo oposição da família, passou para o seminário, vindo a ordenar-se em 1634, após brilhantes estudos. Foi redator da Carta Ânua. Lecionou humanidades no Colégio de Olinda.


Apesar de conhecer a tradição antiga de Sêneca e Quintiliano, Vieira desenvolve a oratória através da arte de pregar e a manifesta, pela primeira vez, em São Luís do Maranhão, num sermão onde apresenta conceitos sobre a pregação, atestando um genial poder de expressão. Já nesta época, seus sermões circulavam em Portugal, Espanha e Itália, e, em muitos deles, apregoou detestar o rebuscamento formal. Valorizava o jogo claro das idéias e os engenhosos raciocínios. Tornou-se, assim, primeiro grande exemplo de eloqüência, filiando-se à corrente conceptista. Em 1640 se notabilizou pelo Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, pregado na Bahia.


Os sermões seguem os moldes forjados pela Idade Média e apresentam a seguinte estrutura:

a) Tema: extraído do texto bíblico e em latim;

b) Intróito: apresentação do plano do sermão, com as idéias que serão desenvolvidas;

c) Invocação: pedido de inspiração;

d) Argumentação: momento de exposição de exemplos;

e) Peroração: conclusão e persuasão.


Em 1641, em Portugal, aderiu a D. João IV, recomendando ao rei uma política fundada no poder econômico da burguesia mercantil, o que significava certa aceitação aos cristão-novos e uma conseqüente oposição ao Santo Ofício. Por estar ao lado de D. João IV, Vieira sofreu oposição da Companhia de Jesus.


Exerce missões diplomáticas em Paris, Haia e Roma, sem êxito. Contemporâneo de Descartes, não seguiu o racionalismo em suas atividades, mantendo-se fiel aos ditames tridentinos da Contra-Reforma.


Em 1652 está em São Luís do Maranhão, ocupa-se da catequese dos índios, denuncia a escravização, do púlpito e em cartas ao rei Afonso VI. Aconteceu em São Luís do Maranhão o Sermão do Santo Antônio aos peixes, no qual ridiculariza, por meio de alegorias e comparações, os vícios dos colonos.


Um dos mais importantes sermões de Vieira. O Sermão da Sexagésima foi proferido na Capela Real em 1655.Nesse sermão, Vieira define uma estética de simplicidade na arte da oratória; para ele, o pregador deve optar por uma única matéria, defini-la, reparti-la, confirmá-la com a Sagrada Escritura e com razão``, deve utilizar sempre exemplos e rejeitar argumentos contrários, de modo a concluir e persuadir.


Novamente em Lisboa em 1661. Já visitado pelo Tribunal Inquisitorial, desde que pregara tolerância religiosa, sua situação complicou-se com a divulgação que fez das idéias sobre o Quinto Império do Mundo. É encarcerado e posteriormente confinado a uma casa de sua ordem, impedido de pregar.


Em 1669 está em Roma, onde a rainha Cristina, exilada da Suécia, o tem como confessor. Aí chegou a pregar em italiano. Advogou junto ao papa Clemente X a causa dos judeus portugueses´´ injusta, tirânica e barbaramente perseguidos pela Inquisição.``


Em 1675 o vemos ainda em Lisboa, mas afastado dos assuntos públicos, por ordem de D.Pedro II, regente. Retira-se definitivamente para a Bahia, em 1681, dedicando-se à edição dos Sermões, iniciada em 1679. Morre em 18 de junho de 1697.


O estilo de Vieira é predominantemente conceptista, embora apresente traços gongóricos em sua obra.


Obras: Sermões — (15 volumes, 13 publicados entre 1679 e 1690, e 2 entre 1710 e 1718)

Cartas — (3 tomos entre 1735 e 1746)

História do futuro — (1718)

Esperanças de Portugal — (1856-1857)

Clavis Prophetarum — (obras inéditas)


Versam sobre variada temática, além de assuntos tipicamente religiosos, abordam a prisão dos índios, problemas da Inquisição, a Independência Portuguesa e a Restauração.


Sermão da Sexagésima


Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há de haver três concursos: há de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?


Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra o semeador, uma parte se logrou e três se perderam. E porque se perderam estas três? -- A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira, porque a pisaram os homens e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva, ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? -- Porque o sol e a chuva são as afluências da parte do Céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta: do Céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do Céu, isso nunca é nem pode ser. Sempre Deus está pronto da sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos. Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus que se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova. Quid debui facere vineae meae, et non feci? -- disse o mesmo Deus por Isaías.


Qui solem suum oriri facit super bonos et malos, et pluit super justos et injustos (que faz nascer o sol sobre os bons e os maus e chover sobre os justos e os injustos).

Quid debui facere vineae meae, et non feci (que tive eu de fazer a minha vinha e não fiz).


Pregado na Capela Real de Lisboa, em 1655, também conhecido como ´´A palavra de Deus``. Polêmico, esse sermão aborda a arte de pregar. Ao analisar por que ´´não frutificava a palavra de Deus na terra``, Vieira visava aos seus adversários católicos – os gongóricos dominicanos. Escrevendo no estilo da época, Vieira é considerado nosso maior orador sacro. Qualquer um de seus sermões liga fé e realidade. Em nenhum momento ele se esquece de sua missão de sacerdote: ataca veementemente o erro e faz tudo o que ao pregador é permitido para ensinar, agradar e converter o ouvinte. O sermão é um todo de 10 pequenos capítulos. O comentário consiste em apenas um trecho (fragmento).


Vieira apresenta na forma de pergunta o tema a ser desenvolvido: Por que a palavra de Deus faz pouco fruto? Notoriamente em sermões, o próprio orador faz várias perguntas e ele mesmo responde, para facilitar o meio de conduzir o raciocínio de seu ouvinte. Apesar de ter pregado para um público específico, Vieira soube exercitar com sucesso uma das técnicas da argumentação, que consiste em direcionar a pregação para um auditório universal, a fim de transmitir a mensagem religiosa. Para isso, fez com que os argumentos fossem construídos a partir de analogias, de modo a gerarem uma eloqüência sagrada que tanto persuadiu e convenceu sua platéia. Três vertentes são apontadas para que a palavra sagrada não tenha alcançado o seu real objetivo e, conseqüentemente, não tenha conseguido um número considerável de adeptos: falha do pregador, ou do ouvinte, ou de Deus.


Através de um raciocínio complexo e lógico, fazendo uso freqüente de metáforas, comparações e alegorias, ele constrói um discurso fundamentado na palavra divina. Para converter uma alma, o pregador deve persuadir com a doutrina cristã; o ouvinte absorve a mensagem com claro entendimento; e Deus, acima de qualquer coisa, ilumina o entendimento do ouvinte...


Determinadas palavras ganham um conjunto, favorecendo ao orador: os olhos correspondem ao ouvinte, que entra com o conhecimento; o espelho corresponde ao pregador, que entra com a doutrina; e a luz corresponde a Deus, que entra com a graça.


No intuito de inocentar Deus, pelo pouco fruto da palavra, Vieira enfatiza a fé: ´´Esta preposição de fé, defendida no Conselho de Tridentino``(origem do movimento da Contra-Reforma) e deixa claro uma de suas deduções: ´´Nunca e por falta do Céu, é sempre culpa nossa.``


Por meio argumentativo, a culpa passa a ser ou do pregador ou dos ouvintes. Valendo-se da alegoria do trigo e da Parábola do semeador (Evangelho segundo São Lucas), o autor afirma que, se a semente não vinga, quando semeada, tal fato não advém da qualidade da semente, mas dos espinhos e das pedras do solo. A semente equivale ao evangelho( palavra de Deus); os espinhos correspondem àqueles que são maus ouvintes, que só se entregam por sutilezas e galanterias; as pedras refletem àqueles que estão endurecidos.


Uma metalinguagem é formada porque o autor questiona o poder da arte de pregar por sermões, ao mesmo tempo em que está escrevendo ou proferindo um sermão. O pregador se apóia nas Sagradas Escrituras para ratificar suas palavras através da citação de Isaías.




quinta-feira, 4 de março de 2010

O Barroco

Para uma compreensão adequada do estilo Barroco, faz-se necessário retroceder na história e chegar a Idade Média. No período medieval, a figura de Deus domina toda a cultura, gerando uma visão de mundo denominada teocentrismo, ou seja, Deus é considerado o centro do Universo. Assim, a vida terrena (material) parece algo passageiro, um estágio em que o homem prepara sua alma para a salvação ou para a danação eterna. Considera-se o espírito como o bem supremo e a matéria como coisa pecaminosa. Entende-se a vida carnal como uma espécie de ilusão, uma imperfeição, e o homem é conduzido a procurar uma realidade suprema no plano divino. Essa foi, em linhas gerais, a visão de mundo dominante na Idade Média.


Nos séculos XVI e XVII, grandes mudanças políticas, econômicas e filosóficas consolidam uma tendência oposta, conhecida como Renascimento, que conduz a uma nova maneira de enxergar o mundo: o antropocentrismo, isto é, o homem considerado como sendo o centro do universo. No antropocentrismo, o homem não é tão-somente imagem de Deus, mas é visto como ser humano, ligado a sua natureza física. O espiritualismo e a religiosidade medievais cedem lugar à valorização dos aspectos materiais da existência. O teocentrismo entra em declínio e a Igreja começa a perder sua liderança. Isso não significa, entretanto, que a religiosidade medieval tenha desaparecido. Ela apenas perde sua predominância, mas continua existindo em estado latente, para tornar-se de novo evidente na época do Barroco.


Uma comparação entre os dois períodos mostraria:

Idade Média

Temas religiosos misturados às inquisições habituais. Anseio de espiritualidade para combater instintos carnais;

Misticismo (crença no sobrenatural);

Ascetismo (desvalorização do corpo e dos sentidos em favor dos bens espirituais);

Teocentrismo;

Cristianismo;

Sentimentalismo, inspirado na cultura-ambiente, tratada com excesso de sentimento. Predomínio do lirismo amoroso.

Renascimento

Temas religiosos separados das inquietações habituais. Uns tratam apenas dos problemas espirituais, outros vêem mais a vida terrena. Exploração de temas que possam trazer imortalidade, consagração, glória;

Racionalismo (crença na Razão);

Materialismo (valorização dos bens corpóreos);

Antropocentrismo;

Paganismo;

Humanismo (mimese do mundo greco-latino, isto é, adaptação de temas artísticos da antiguidade clássica à época do Renascimento);


Supervalorização do homem (homem ideal, modelo universal).


A época de surgimento da estética barroca corresponde a um período marcado por profundas mudanças no espaço religioso, social e artístico. Constata-se que a instabilidade dos valores do homem daquele momento pode ser encontrada na crise entre a visão medieval teocêntrica e a concepção antropocêntrica do Renascimento; no aparecimento e crescimento da burguesia (mercadores e comerciantes) em contraposição à aristocracia (nobres e membros do clero); no conflito religioso entre a Reforma Protestante e a Contra-Reforma Católica.


A Reforma Protestante representa a ruptura com o poder monolítico da Igreja Católica. Lutero e Calvino lideram um movimento que provoca a separação de Roma e o surgimento de novas religiões: Luteranismo e Calvinismo. A autoridade absoluta do Catolicismo é colocada em dúvida, o que significa uma nova correlação de forças e uma disputa pelo domínio dos fiéis. Também na Inglaterra, por motivos distintos, o rei Henrique VIII funda uma nova religião, o Anglicanismo, contrapondo-se ao poder do papa e a influência dos católicos.


A Igreja Católica reage, fundando em 1540 a Companhia de Jesus, de padres jesuítas. Seus dirigentes e representantes reúnem-se no Concílio de Trento (1545-1563), preparando uma ofensiva, uma tentativa de reconquistar os ´´fiéis desgarrados`` para o Protestantismo. Esse movimento é conhecido como Contra-Reforma.


A literatura produzida e divulgada estava sob a influência do racionalismo renascentista, do gosto pelas coisas terrenas e da visão humanista, aliada à ideia renovada de reconduzir o homem à Igreja, na condição de servo espiritual, através da tradição medieval que retorna sob a força da Inquisição, da Contra-Reforma e da educação jesuítica.


Disso resulta uma arte que une os valores renascentistas e medievais, o racionalismo à fé. O encanto pelos bens materiais, pelos prazeres, pelo luxo (valores da burguesia) se soma às crenças na eternidade, no inferno ou paraíso (valores absolutos da igreja medieval refortificada pela Contra-Reforma).


Valores tão opostos (razão-fé, mundo terreno-mundo espiritual, dor-prazer, sensualidade-espiritualidade) e idéias tão antagônicas acabam por gerar uma literatura cuja linguagem é fundamentada em antíteses. O Barroco foi mais que um movimento artístico, uma forma de compreender um mundo onde forças contrárias impeliram o homem a uma atitude dualista.


Tudo isso conduz ao aparecimento do homem pessimista, em permanente conflito interior, colocado em contínuo dualismo, nele coexistindo dois princípios ou posições contrárias (lama x corpo, bem x mal, matéria x espírito, paganismo x cristianismo, amor x sofrimento etc), refletindo, no artista, uma visão exagerada e deformada da realidade.


O nome barroco tem origem, provavelmente, numa palavra utilizada no século XVI para designar um tipo de pérola que tinha forma irregular. A palavra´´ irregular `` é bem adequada para o caso, pois mostra uma das características fundamentais do estilo barroco: a tensão, que é conseqüência de uma visão de mundo que procura conciliar tendências contraditórias, uma visão de mundo que busca a fusão do velho com o novo.


O estilo barroco é o meio de expressão do homem da época, saudoso ´´da religiosidade medieval e ao mesmo tempo, seduzido pelas solicitações terrenas e pelos valores do mundo – amor, dinheiro, luxo, aventura, posição social``(Afrânio Peixoto)


Voltado para o céu e, no mesmo tempo, sem conseguir desligar-se dos valores terrenos, o homem da época sente-se em conflito entre a razão e a fé, entre os sentidos e o espírito, tentando encontrar um ponto de união entre essas forças que o atraem. O homem barroco vai enfatizar tudo aquilo que é inconsistente, tudo o que muda de aparência, tudo o que está em movimento, pois para ele o mundo é uma coisa dinâmica, em constante mudança. Veja, por exemplo, como um elemento da natureza (a água) aparece num texto barroco:


´´Claras as águas são, e transparentes,

Que de si manam copiosas fontes,

Umas regam os vales adjacentes,

Outras descendo vêm dos altos montes.``


(Frei Manuel de Santa Maria Itaparica)


No Brasil, devemos considerar como marco inicial do movimento a publicação da obra Prosopopéia do português Bento Teixeira, em 1601. Nesse poema de escasso valor literário, uma derivação imitativa de Os Lusíadas de Camões, o poeta exalta os donatários da Capitania Hereditária de Pernambuco e seu desenvolvimento.


Embora a designação Barroco seja aceita universalmente, notamos que o período pode ser denominado de formas diferentes, segundo alguns fenômenos relacionados a determinados países:


Gongorismo (Espanha): derivado do nome do poeta Luís de Gôngora y Argote. Seiscentismo (Portugal): ano de 1600. Visão puramente histórica, em função do ano relativo ao século em que se deu o fenômeno.

Salesianismo (Alemanha): derivado do nome do poeta Angelus Salesius.

Eufuísmo (Inglaterra): derivado do título do romance Euphues, de Jonh Lilly.

Marinismo (Itália): peça influência exercida por Luis Vicenti Marini .

Preciosismo (França): pelo culto à forma extremamente rebuscada na corte de Luís XVI, o Rei Sol. Segundo Manuel Bandeira, nos ´´salões a galanteria degenerou uma afetação, afetação de maneiras e linguagem, que passou a chamar-se preciosismo, mais tarde satirizado por Molière em sua comédia As preciosas ridículas``.


Características barrocas


Dualismo


Trata-se de uma atitude que designa o culto do contraste tão tipicamente barroco. Assim, o homem sempre estava entre dois aspectos: o racionalismo mundano e o antiterreno teocêntrico. Os textos literários seiscentista refletem esse dualismo, mostrando-se rebuscados, extravagantes, valorizando os detalhes, o jogo de palavras e as figuras de linguagem (metáfora, antítese, hipérbole, alegorias).


´´Anjo no nome, Angélica na cara!

Isso é flor, e Anjo juntamente:

Ser Angélica flor, e Anjo florente,

Em quem, senão em vós, se uniformara:``


( Gregório de Matos)


´´Sinto-me sem sentir, todo abrasado

no rigoroso fogo que me alenta;

O mal que me consome me sustenta.

O bem que me entretém me dá cuidado.``


(Antônio de Bacelar)

Sensorialismo


Presença constante de impressões sensoriais, pelo emprego de palavras que designam sensações táteis, auditivas, olfativas, gustativas e, sobretudo, visuais.Os olhos já não servem para refletir a ordem e a harmonia do mundo, mas para alimentar os movimentos da alma.


´´A margem de uma fonte, que corria

Lira doce dos pássaros cantores

A bela ocasião das minhas dores

Dormindo estava ao despertar do dia.

..........................................................

Porém, abrindo Sílvia os dois diamantes,

Tudo à Sílvia festeja, e tudo adora

Aves cheirosas, flores ressonantes.``


(Gregório de Matos)


´´Ardor em firme coração nascido;

pranto por belos olhos derramado;

incêndio em mares de água disfarçado;

rio de neve em fogo convertido.``


Neste fragmento, Gregório de Matos, além do culto ao contraste, percebe o mundo principalmente através dos sentidos: o ardor é uma sensação térmica, assim como o fogo; água e a neve também dão ideia de temperatura, embora oponham-se pelo tato (uma é liquida, a outra é sólida); o pranto e o mar, elementos que pelo tato percebemos serem líquidos e que pelo paladar percebemos serem salgados, opõem-se a rio e neve, que são insípidos.

Fusionismo


Fusão de luz e trevas, de sons. Na arte barroca, o artista não se limita a expor os contrários, porém quer fundi-los, conciliá-los, integrá-los, através de uma linguagem profundamente metafórica.


Feísmo


Trata-se de uma preferência por aspectos cruéis e dolorosos da existência, revelando uma época de profundas incertezas. Esse momento é marcado pela ideologia resultante da Idade Média, resgatada pela Igreja, onde o homem deveria observar que a vida é um processo doloroso que visa a aprimorar o espírito.


Culto do efêmero


Normalmente, a arte barroca dá ênfase à transitoriedade das coisas, em oposição à mentalidade clássica que buscava o perene da existência. O mundo é visto como algo instável, sujeito a metamorfoses e inconstâncias. A ideia da beleza como algo finito está intimamente ligada a essa ênfase sobre a brevidade das coisas.


´´Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.``


(Gregório de Matos)


Atitude lúdica


O termo lúdica deriva de “ludo” que significa jogo. Portanto, podemos notar que na arte barroca nos proporciona um eterno jogo de contrastes, enredando-nos em verdadeiros labirintos sintáticos e semânticos que, muitas vezes, nos levam a um niilismo temático.


Gosto pelas antíteses e paradoxos:


a) antíteses – esta figura, que consiste no emprego de palavras, expressões ou frases de significações contrárias, reflete o dualismo e o conflito do homem barroco:


´´Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído.``


(Vieira)


b) paradoxo – esta figura também reflete o dualismo e o conflito do homem barroco. O paradoxo é uma antítese que contém uma contradição, devido à união de idéias contrárias ao senso comum e aparentemente inconciliáveis:


´´ enquanto a gentil descortesia

o ar, que fresco Adônis te namora,

te espalha a rica trança brilhadora,

quando vem passear-te pela fria.``


(Gregório de Matos)


Aspectos construtivos


Cultismo


O termo cultismo também é conhecido como “culteranismo” ou “gongorismo” e designa um processo construtivo que excede nas utilizações das figuras de linguagem, causando um rebuscamento formal, uma excessiva ornamentação estilística ou um preciosismo. Normalmente, os textos cultistas são extravagantes, herméticos e, não raro, de gosto duvidoso. Essa supervalorização da forma é mais comum na poesia. Observe, no fragmento seguinte, o extremo cuidado formal que leva o poeta a engendrar um esquema no qual o final de cada verso repete-se no início seguinte.


´´Ofendi-vos, Meu Deus, é bem verdade,

É verdade, Senhor, que hei delinqüido,

Delinqüido vos tenho e ofendido,

Ofendido vos tem minha maldade.``


(Gregório de Matos)


Conceptismo


O termo conceptismo deriva de “conceito”, idéia. Portanto esse termo indica um jogo de idéias. Esse processo construtivo também é conhecido como “Quevedismo”, por causa do escritor espanhol Quevedo. Resulta, finalmente, numa elaboração racional, numa retórica aprimorada, através de um jogo de conceitos. Quando analisamos um raciocínio, devemos perceber se ele foi estruturado em bases verdadeiras, um silogismo, ou se em bases falsas ou metafóricas, um sofisma.


´´O todo sem a parte não é todo;

A parte sem o todo não é parte;

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga que é parte, sendo todo.``


(Gregório de Matos)


Observe o jogo de idéias que conduz o raciocínio do leitor: só existe algo inteiro (´´todo``) se não lhe falta nada (nenhuma ´´parte``). Portanto, conclui o eu-lírico, a parte é (também) o todo.


Convém salientar que nenhum texto recorre exclusivamente a esses meios; podem ocorrer, simultaneamente, o cultismo e o conceptismo, até porque, ´´a expressão cuidada é requisito necessário para que as idéias engenhosas produzam o seu efeito.``Sendo assim, há autores conceptistas, que trabalham com idéias opostas, raciocínios paradoxais, e autores cultistas que trabalham com a linguagem rebuscada.